PETER NICHOLLS | REUTERS
PETER NICHOLLS | REUTERS

Tudo que é sólido desmancha no ar

O hábito cada vez mais comum dos britânicos de comprar (quase tudo) pela internet está transformando o varejo

The Economist

26 Novembro 2016 | 05h00

O Reino Unido, que, reza a lenda, Napoleão dizia ser uma “uma nação de lojistas”, hoje é uma nação de consumidores online. Poucos no mundo fazem uso tão intensivo do comércio eletrônico como os britânicos: segundo estimativas do Centre for Retail Research, os varejistas online atualmente respondem por 16,8% do total de vendas do comércio britânico. (Nos EUA, a fatia do comércio eletrônico é estimada em 13,9%; no Brasil, segundo a Confederação Nacional do Comércio, sua participação está entre 2% e 3%). Projeções recentes indicam que as vendas crescerão 50% até 2020, chegando a US$ 74 bilhões.

A geografia é um dos fatores que explicam por que o comércio eletrônico deslanchou no Reino Unido. Seus 65 milhões de habitantes se acotovelam numa área pouco menor que a do Estado de São Paulo. Os caminhões que partem pela manhã dos galpões instalados na região das Midlands, no centro da Inglaterra, conseguem realizar entregas em quase qualquer ponto do país até o fim do dia. Outro fator é a popularidade dos smartphones: segundo cálculos da associação de varejistas online IMRG, as transações realizadas com smartphones tiveram crescimento de 90% entre janeiro e setembro deste ano

Para se sair bem nesse novo jogo, as empresas de comércio eletrônico tiveram de cair de cabeça na logística. O número de encomendas em trânsito no Reino Unido aumentou 13% de janeiro para setembro. A IMRG diz que, em 2016, os consumidores britânicos receberão 1,2 bilhão de pacotes em suas casas; em 2014, foram 920 milhões.

Há alguns anos, o modelo padrão de operação online adotado por varejistas físicos, como a loja de departamentos John Lewis, baseia-se na instalação de gigantescos centros de distribuição nas Midlands. A expansão do comércio eletrônico contribuiu para o aumento no número de galpões, que agora ocupam uma área de 40 milhões de metros quadrados. Mas o modelo está em franco desenvolvimento. Na tentativa de se sobressair num mercado extremamente competitivo, os varejistas online dão tudo de si para reduzir os prazos e as janelas de entrega. Em 16 de novembro, a Morrisons anunciou o aprofundamento de sua parceria com a Amazon: a gigante do comércio eletrônico passará a entregar em menos de uma hora as compras dos clientes da rede de supermercados que moram em Londres ou em seus arredores.

E os varejistas online têm outros motivos para querer estar perto dos centros urbanos. A Graze, que foi criada em 2008 e comercializa petiscos por assinatura, adquiriu um galpão em Hayes, região oeste de Londres, em 2012. Semanalmente, 2 milhões de pequenas embalagens, contendo itens que vão de nozes e barras de cereais a bolos e chocolates, são preparadas e enviadas para os assinantes que a empresa tem no Reino Unido e nos EUA. “No fundo, somos uma empresa de tecnologia”, diz o CEO Tom Carroll. Por isso, a Graze tem 30 funcionários encarregados de formular os algoritmos com que a empresa rastreia seus consumidores online, a fim de antecipar a demanda e realizar suas entregas com o máximo de eficiência.

Em razão disso, hoje há um descompasso entre a oferta e a procura de espaço de armazenagem na periferia de Londres, diz Kevin Mofid, da imobiliária Savills. Como a prioridade do governo britânico são os imóveis residenciais, o potencial de construção de novos galpões é limitado. Em Londres, os aluguéis desse tipo de imóvel subiram 17% desde 2010. No sudeste da Inglaterra, a alta foi de 11%. Isso comprime as margens das lojas online.

Seus lucros também são pressionados pela lei que os obriga a realizar trocas e reembolsos de produtos devolvidos em até duas semanas após a compra – tal obrigação não se estende às lojas físicas, embora seja respeitada por muitas delas. As devoluções representam 6% do total de itens comercializados pela internet; mas chegam a 40% quando os produtos são roupas ou outros artigos de moda.

Se, por um lado, isso aumenta os custos dos varejistas online, por outro, faz a festa das empresas de logística. Companhias como a iForce criaram departamentos especializados em devoluções só para atender varejistas como Tesco e B&Q. Seu diretor comercial, Neil Weightman, diz que as devoluções respondem por aproximadamente 25% do faturamento anual de £ 60 milhões da empresa.

Com a maioria das grandes redes de supermercados atualmente operando bem-sucedidos serviços de delivery, os pequenos caminhões e vans que realizam as entregas atravancam ainda mais as ruas do Reino Unido. No ano passado, embora o tráfego como um todo tenha crescido apenas 1% no país, o total de quilômetros percorridos por esses veículos aumentou 4%.

A demanda por entregas em domicílio é tão grande que, segundo a Road Haulage Association, representante das transportadoras britânicas, o setor tem hoje carência de 45 mil motoristas. É um trabalho duro e mal remunerado, já que as empresas precisam reduzir custos. A esperança é que, no futuro, esse gargalo possa ser superado com o auxílio de vans e caminhões autônomos. Em março, o governo local disse que os testes com veículos de transporte de cargas sem motorista terão início em 2017.

A contrapartida da forte expansão do comércio eletrônico é o fechamento de lojas físicas e a demissão de vendedores. Segundo a associação de varejistas British Retail Consortium, o setor deve perder 33% de seus 3 milhões de postos de trabalho até 2025. Alguns pontos comerciais estão sendo transformados em “centros de experiência de marca”. A M&M’s, por exemplo, inaugurou uma loja de quatro andares no centro de Londres, onde os consumidores podem conhecer todas as facetas do “mundo” dos confeitos M&M’s. Há também casos isolados de empresas de comércio eletrônico que montam lojas físicas: no ano passado, a varejista online de moda Boden anunciou a inauguração de uma série de pontos de venda no Reino Unido e nos EUA.

Como diz Andrew Mulcahy, da IMRG, este é só o começo da revolução das compras online. Há muitas surpresas pela frente, e boa parte delas chegará primeiro aos britânicos, que, aparentemente, não resistem a um botão com a mensagem “Finalizar o pedido” brilhando na tela de seus computadores e smartphones.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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