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Tumulto passou. Mas até quando?

E o Fed, banco central americano, veio novamente em socorro do mercado. O que se esperava ser uma sexta-feira negra, não passou de um fim de semana com um sol ainda meio pálido brilhando entre nuvens esparsas.Ao reduzir de 6,25% para 5,75% a taxa de redesconto, que é o juro cobrado pelo banco central dos bancos que dele se socorrem, o Fed injetou uma liquidez direcionada para aquelas instituições com problemas. No fim da tarde de sexta-feira, sob essa forma de operação, alguns bancos já haviam recebido US$ 6 bilhões do Fed, totalizando US$ 94 bilhões desde o dia 9.Mais importante, além de reduzir o juro, o Fed estendeu o prazo desses empréstimos de três dias a um mês, com direito a renovação.Não se tratava apenas de uma medida de efeito de amplo alcance, pois o redesconto tem uma participação pequena no mercado, mas teve grande peso porque a ação foi acompanhada por um comunicado raramente incisivo do Fed, reafirmando sua decisão de voltar a agir logo que necessário.FED CHEGOU ATRASADONo fundo, Bernanke reconheceu, embora indiretamente, que pecou ao ter reafirmado tantas e tantas vezes que a crise imobiliária não tendia a afetar a economia; deixou de acionar o alerta de que a crise estava aí há pelo menos dois meses. Insistiu sempre que a prioridade era a inflação, pisava e repisava nisso, mesmo quando os preços não davam sinal de alta. Agora, no comunicado de sexta-feira, admitiu pela primeira vez que "os riscos (da crise imobiliária) sobre o crescimento aumentaram de forma apreciável". Ora, só agora? E quanto à inflação? Não falou nada. Devemos admitir que está acertando agora, mas as conseqüências desastrosas dessa crise, por ele subestimada, poderiam ter sido menores. O seu otimismo colaborou para que chegássemos onde hoje estamos. O alerta deveria ter surgido há dois meses, quando ela começou a ganhar impulso e Greenspan já avisava sobre o que ia acontecer - e está acontecendo. Bernanke, que o refutou, talvez devesse ter sido mais humilde, o que é sempre mais difícil para quem chega ao poder.De qualquer forma, veio tarde, mas veio. E a turbulência está sendo administrada, pelo menos até agora, com maestria, admite o economista-chefe do Credit Suisse, Neal Soss.TUDO EM ALTAUm sinal de que o mercado voltou a acreditar e ter esperança no Fed foi que o índice S&P se valorizou 3,5% apenas nos 40 segundos iniciais do pregão. Houve uma onda de vendas para realizar lucros com recuo até as 11 horas, mas em seguida os índices mantiveram-se em alta durante todo o dia. O S&P fechou em alta de 2,46%, o Nasdaq, 2,2%, e o Dow Jones, 1,82%. Estão todos positivos no ano. A Bovespa, que chegou a cair 8,8% na quinta-feira, fechou com alta de 1,13% na sexta-feira.OUTRA REDUÇÃO?Os analistas estavam animados porque interpretavam a redução da taxa de redesconto (aquela para empréstimos do Fed aos bancos) como um sinal de que ele iria reduzir também a taxa básica de juros. Essa taxa é a que rege as operações diárias entre os bancos e a que o Fed está disposto a pagar na recompra dos títulos públicos. Os seus efeitos são bem mais amplos, espraiam-se e infiltram-se por toda a economia. Por exemplo, beneficiam o custo dos empréstimos e das hipotecas. Essa taxa chegou a ser de 1% nos dias e meses imediatamente após o atentado terrorista às torres, com mais de 3 mil mortos. Ela desempenhou galhardamente o papel de evitar a recessão após os meses tumultuosos. Mas criou, ao mesmo tempo, o fantasma das hipotecas no mercado imobiliário, que foi se reproduzindo enquanto não se fazia nada para controlá-lo.Os rumores, que mais pareciam desejos a realizar, eram de que, ao reduzir subitamente a taxa de redesconto, Bernanke estaria sinalizando uma redução também do juro básico, mais importante. Muitos, otimistas, falavam até em 0,50 ponto percentual. Outros, quase delirantes, acreditavam que isso viria até mesmo antes da reunião do Comitê de Mercado Aberto, em 18 de setembro. A decisão só virá nos próximos dias e dependerá da reação do mercado, durante a semana, e do desempenho das instituições envolvidas com hipotecas ruinosas. No fundo, acertadamente, Bernanke está ganhando tempo e dando um espaço para que o mercado se ajuste com a oferta de dinheiro mais barato. Não precisaria baixar agora a taxa básica de juro. Em tese, poderia esperar. Dependendo do que acontecer na semana, talvez possa mesmo esperar para quando setembro vier. Vamos descansar, você e eu, leitor, neste fim de semana, e esperar para ver. E NÓS? E VIVA NÓS...Quanto a nós, não há muito mais a dizer. Há muita gente cantando de bravo em Brasília, somos fortes, não devemos nada, esnobamos o FMI, não estamos nem aí, mas há muita vanglória nisso. Estamos bem, sim, nunca estivemos melhor, estamos preparados para o pior, podemos superar a crise, mas, vejam bem, e, por favor, atentem aí em Brasília, estamos bem para superar "esta" crise como ela está aí hoje, sendo administrada pelos bancos centrais dos países desenvolvidos. Mas, e se essa crise se aprofundar? E se mais e mais instituições de peso caírem na insolvência? Afinal, já foram jogados até agora US$ 300 bilhões no mercado! Por isso, senhores, donos do poder, por favor, um pouco mais de humildade e realismo, sim? Afinal, não estamos mais em tempo de palanque.

Alberto Tamer, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2018 | 00h00

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