Turbulência ameaça crescimento latino-americano, dizem BCs

O Brasil pode ter perdido o melhor momento internacional para crescer na década e terá de aprender agora a conviver com um cenário de maior oscilação diante das incertezas sobre o futuro da economia americana e sua desaceleração.Reunidos na Basiléia, na Suíça, representantes dos principais bancos centrais latino-americanos deixam claro que estão preocupados com a ?profundidade? dos ajustes nos mercados financeiros internacionais e o impacto para o crescimento da América Latina.?A volatilidade (oscilação) é o nome do jogo hoje?, disse Martin Redrado, presidente do BC argentino. ?Os Estados Unidos pegam um resfriado e nós todos na América Latina uma pneumonia?, afirmou Guillermo Ortiz, presidente do Banco Central do México. Neste domingo, na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), presidentes dos BCs das principais economias debateram os motivos do ajuste que está ocorrendo nos mercados.Para muitos, a China teve um papel nesse ajuste, mas não deve ser vista como a razão central das turbulências. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, também participou do encontro, que termina na segunda-feira, 12. ?Não sabemos até que ponto os ajustes vão ocorrer?, afirmou o presidente do Banco Central do Chile, Victorio Corbo, ao deixar um dos encontros. Corbo destaca que os BCs já vinham alertando sobre os potenciais riscos para a economia internacional e que ficaram claro nas últimas duas semanas.No final de fevereiro, um ajuste na Bolsa de Valores de Xangai estremeceu os mercados e as incertezas foram mantidas diante dos índices da economia americana abaixo da expectativa dos mercados. Economia americanaDurante a reunião no BIS, ficou claro que os fundamentos das economias ainda são sólidos, como na Europa e Japão. Mas a preocupação gira em torno da desaceleração americana. Cálculos do Banco Central Mexicano estimam que a economia americana crescerá 2% em 2007, mais de um ponto porcentual a menos que em 2006. No que se refere ao impacto para a América Latina, os presidentes de BCs da região destacam para os obstáculos que essa oscilação e a desaceleração americana podem ter para o ritmo de crescimento das economias.?Para a América Latina, a preocupação é de que estamos entrando em fase de menor crescimento no mundo nos últimos anos?, disse um dos participantes do encontro. Depois de quatro anos com uma média de aumento do PIB mundial entre 4% e 5% ao ano, há a possibilidade de que essas taxas não se repitam. Oportunidade PerdidaO problema, porém, é que esse momento chega em um período em que o Brasil tenta crescer mais. BCs de outros países sugerem que o Brasil trabalhe mais em sua produtividade doméstica para atingir índices mais elevados de crescimento. O mesmo valeria para permitir que a Argentina mantivesse suas taxas elevadas. Para alguns, o Brasil pode ter perdido o melhor momento da década para crescer. ?Um menor crescimento internacional quer dizer um menor impulso da economia global à América Latina?, afirma um representante de um governo no BIS.Para os especialistas mais otimistas na Basiléia, o Brasil poderá superar essas dificuldades se seu crescimento for baseado em maior investimento doméstico e internacional. ?Há como o Brasil crescer 4% ou 4,5% enquanto mundo cresce 3,5%?, apontou um participante do encontro.Mas todos concordam que tudo dependerá de como avançará a economia americana, especialmente em o custo de trabalho e produtividade. Nos últimos dias, alguns dados como produtividade mostraram certa fragilidade nos Estados Unidos. ?Somos dependentes do que ocorre nos Estados Unidos e nossas preocupações não vêm da Ásia?, disse. Aviso da ChinaA China avisou que não pode ser responsabilidade pelos choques que os mercados financeiros no Brasil e em outros países emergentes sofreram nas últimas duas semanas por causa dos movimentos no mercado de ações em Xangai. O recado foi de Wu Xiaoling, vice-presidente do banco central da China.Para ela, a resposta dos mercados nas economias emergentes em relação ao ajuste na Bolsa de Xangai há duas semanas foi exagerada. ?O impacto da China em países como o Brasil está sendo superestimado?, afirmou a chinesa em resposta a uma pergunta do Estado. A vice-presidente participa desde este domingo da reunião na Basiléia do Banco de Compensações Internacionais (BIS, o banco central dos bancos centrais) e será pressionada pelas demais autoridades monetárias a fazer uma avaliação do cenário chinês e futuras iniciativas do governo de Pequim.Para os banqueiros, o tema central do encontro será a turbulência iniciada há duas semanas pelos ajustes na Bolsa de Valores de Xangai e, principalmente, as dúvidas relacionadas à sustentabilidade do crescimento americano.Além dos bancos centrais da Europa, Japão e do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o encontro conta com a presença dos BCs de alguns países emergentes, como Brasil, Argentina, Turquia e Índia. Pequim, porém, chegou ao encontro na Basiléia com um discurso pronto para tranqüilizar o mercado mundial e apontar que o país continua a fazer reformas para fortalecer seu sistema financeiro. No final de fevereiro e início de marco, um ajuste nas ações chinesas atingiu de forma dura não apenas Wall Street, mas também os papéis da dívida de países emergentes. No total, US$ 3,3 trilhões desapareceram das bolsas em poucos dias. No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) teve sua maior queda desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. ?Não há porque ter a reação que se viu nos últimos dias?, disse a vice-presidente. ?Ficou claro que houve uma exageração da influência dos mercados de ações da China na economia internacional?, argumentou Xiaoling. Questionada sobre como explicava a queda no mercado acionário em várias partes do mundo, a vice-presidente do banco central chinês somente respondeu: ?Foi apenas uma coincidência?.

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