Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Turbulência cambial

Ao longo da semana passada, as cotações do câmbio enfrentaram uma volatilidade como há muito tempo não se via, apesar dos 4 leilões de compra no câmbio futuro (swap cambial) realizados pelo Banco Central.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h09

Desta vez, a deterioração das contas do Brasil com o exterior (contas correntes), cujo déficit em apenas quatro meses saltou de 2,4% para 3,0% do PIB, não foi o principal fator do treme-treme. No mundo inteiro, as cotações do dólar soluçaram.

A rigor, a novidade ainda não ocorreu. Bastou que Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), admitisse, em depoimento ao Congresso no dia 22 de maio, que poderá reduzir a emissão de moeda destinada à compra de títulos, para que os mercados entrassem em turbulência: as bolsas caíram, o dólar se valorizou em relação às outras moedas e os juros saltaram.

Ao longo do ano passado e deste ano, a presidente Dilma e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, temeram que essas operações, conhecidas como afrouxamento quantitativo, provocassem sérios problemas para o Brasil. Hoje, o perigo mudou de lado.

Apenas para reavivar a memória, essas operações consistem em compra de títulos no mercado dos Estados Unidos com emissão de dólares para que mais dinheiro na economia reative o crédito, o consumo e a produção.

Foram objeto de denúncias seguidas da presidente Dilma e do ministro Mantega, que as chamaram de "tsunami monetário" e de "guerra cambial", respectivamente. Consideraram-nas prejudiciais à economia dos países emergentes porque provocam inundação de moeda estrangeira e valorização das moedas locais, fator que tira a competitividade e alija as indústrias nacionais do mercado global. O governo brasileiro levou a questão às cúpulas do Grupo dos 20 e ameaçou entrar com representações na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os países ricos, especialmente Estados Unidos e Japão, por praticarem jogo desleal no comércio com os vizinhos.

A simples perspectiva de suspensão das políticas de afrouxamento quantitativo já estão apontando para uma ameaça oposta: a de causar escassez de moeda estrangeira nos mercados, justamente quando o Brasil mais precisa de entrada de capitais para complementar a cobertura dos investimentos.

Mais ainda, diante da perspectiva de forte derrubada dos preços do gás natural e dos custos da energia em seu mercado interno, os Estados Unidos tendem agora a atrair centenas de bilhões de dólares que vinham pingando no câmbio dos países emergentes.

A tendência se inverteu e passou a ser de desvalorização do real, com todo o impacto que pode exercer sobre a inflação. Claro, há US$ 375 bilhões em reservas que podem ser utilizadas para frear a saída de dólares (ou a redução de entrada). Mas, dependendo da pressão sobre o câmbio, essas reservas podem ser exauridas em apenas alguns meses.

Essa foi a principal razão pela qual o governo Dilma suspendeu todas as barreiras contra a entrada de capitais, erguidas quando os fluxos tinham outra direção. Além do crescimento econômico insignificante (certamente abaixo de 3% em 2013), da inflação elevada demais, e do baixo nível dos investimentos, a economia brasileira começa a enfrentar outro foco de deterioração.

Tudo o que sabemos sobre:
Celso Ming

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.