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Turbulência política pode colocar em risco a recuperação econômica de países da América do Sul

Desempenho do PIB de vários países da região foi melhor que o esperado no 1.º trimestre deste ano, mas isso foi antes de protestos e eleições

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 04h00

Em meio à piora no número de casos, de internações hospitalares e de mortes da segunda onda da pandemia de covid, muitos países da América do Sul também estão enfrentando uma turbulência política que pode colocar em risco a recuperação econômica observada na região no 1.º trimestre.

Os investidores já estão reagindo ao agravamento do cenário político: só na semana passada, o principal índice da Bolsa de Valores do Chile caiu mais de 10% e o da Colômbia perdeu 3,54%. Na sexta-feira, dia seguinte ao anúncio pelo presidente Alberto Fernández de um novo lockdown por nove dias para conter o avanço do coronavírus, a Bolsa argentina recuou 1,55%. Por outro lado, o dólar registrou ganho semanal de mais de 2% em relação à moeda do Peru e avanço de 1,7% ante o peso colombiano.

Na semana passada, enquanto a Colômbia teve o seu rating soberano rebaixado pela agência S&P Global, resultando na perda do seu status de grau de investimento, o Peru teve a perspectiva (“outlook”) da sua classificação de risco soberana reduzida de estável para negativa pela agência Moody’s. O clima político conturbado foi o pano de fundo para as duas decisões.

Depois de semanas de violentos protestos, o presidente colombiano Iván Duque foi forçado a retirar do Congresso sua proposta de reforma tributária. Diante dessa oposição ferrenha da população, diminuíram as chances de reformas fiscais para melhorar as finanças públicas da Colômbia.

Nesse contexto, a S&P Global cortou a nota soberana colombiana de BBB- para o grau especulativo de BB+, numa decisão que surpreendeu muitos analistas por vir antes do esperado. A expectativa agora é que as outras duas principais agências de rating – a Fitch e a Moody’s – também retirem em breve o grau de investimento da nota soberana colombiana em razão de um ambiente político mais adverso para o avanço de reformas estruturais.

No caso do Peru, a Moody’s citou “um ambiente político cada vez mais polarizado e fraturado”, levando a uma progressiva deterioração da “solidez institucional”, para justificar a redução da perspectiva do rating soberano de estável para negativa. É bom lembrar que o segundo turno das eleições presidenciais peruanas, que será realizado no dia 6 de junho, está sendo disputado por dois candidatos extremistas, um de esquerda e outro de direita.

Por enquanto, Pedro Castillo, o candidato da esquerda, vem liderando as pesquisas de intenção de voto, embora sua vantagem sobre Keiko Fujimori, de extrema direita, tenha diminuído nos últimos dias. Se Castillo vencer, os analistas temem que o banco central peruano tenha de intervir pesadamente no câmbio ou elevar os juros drasticamente para conter a reação negativa dos investidores.

Aliás, foi o avanço significativo de candidatos independentes e de oposição – conquistando juntos dois terços das cadeiras – na eleição para a assembleia constituinte no Chile que deflagrou a forte correção nos preços dos ativos do país. Isso porque os candidatos que apoiam o governo conquistaram 37 assentos, menos do que os 52 necessários para bloquear qualquer aprovação de medidas que representem mudanças para aumentar gastos públicos e elevar o déficit fiscal.

Na Argentina, as eleições legislativas acontecem em novembro e o momento político do presidente Alberto Fernández não é dos melhores. O índice de aprovação do governo segue em queda, refletindo a opinião de que a gestão da pandemia de covid não tem sido boa. Desde abril de 2020, a aprovação já caiu 34 pontos porcentuais. O anúncio do novo confinamento pode deixar mais frágil a situação política do governo e também a incipiente recuperação econômica.

O desempenho do PIB de vários países da região foi melhor que o esperado no 1.º trimestre deste ano. O da Colômbia, por exemplo, cresceu 2,9% ante o quarto trimestre de 2020, ficando bem acima da expectativa dos analistas, de alta de apenas 0,9%. No Chile, a expansão foi de 3,2%, após crescer 6,4% no trimestre anterior. E, no Peru, o PIB cresceu a uma taxa anual de 3,8% no primeiro trimestre.

Mas o crescimento no primeiro trimestre foi antes dos protestos na Colômbia, da eleição da assembleia constituinte no Chile e do segundo turno da eleição presidencial no Peru. Ou seja, a política deve turvar o horizonte econômico da região. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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