Turbulências no cenário político

Enquanto a reforma não vem, atitude antipartidária no Congresso tende a torná-lo ainda menos operacional

Claudio Adilson Gonçalez e Ricardo Ribeiro *, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2018 | 06h00

Kim Kataguiri, filiado ao DEM, elegeu-se com 465 mil votos. Animado com isso e com o seu sucesso nas redes sociais, lançou-se candidato à presidência da Câmara. “Regimentalmente, não preciso da autorização de ninguém. Meu partido é o MBL, e nele eu tenho consenso”, disse ele. Foi mais além: acusou os parlamentares da velha política de praticarem “canalhice” e dizendo que eles “precisam criar vergonha na cara”.

Joice Hasselmann (PSL), outra novata na Câmara, foi menos afoita, mas afirmou que o próximo presidente da Câmara não deveria ser Rodrigo Maia. O cargo deveria ser ocupado por um deputado com “poder de articulação, conhecimento do regimento, firmeza e força política”. Concluiu dizendo que deveria ser alguém da bancada do PSL, na qual 47 dos 52 eleitos serão, como ela, estreantes na Câmara.

As declarações de Kataguiri e Hasselmann ilustram uma das forças que contribuem para a dispersão da capacidade decisória parlamentar, qual seja, o choque entre a nova e a velha política. Outra força nesse sentido será o enfraquecimento das conexões intrapartidárias no Congresso. Algumas frentes parlamentares (os ruralistas, a chamada “bancada da bala” e os evangélicos) se adiantaram aos partidos no apoio a Jair Bolsonaro. A conversa no entorno de Bolsonaro é de que essas frentes, e não os partidos, servirão de base para o seu governo.

Essa atitude antipartidária é bem vista pela maioria da sociedade e evidencia a necessidade de uma reforma política profunda. Porém, enquanto isso não ocorrer, tal atitude tende a tornar o Congresso ainda menos operacional, pois os partidos, em qualquer democracia, são fundamentais para organizar o processo decisório parlamentar.

Em contraposição a essas forças centrífugas, há uma outra centrípeta: o próprio Bolsonaro e a votação consagradora que deverá levá-lo à vitória no segundo turno da eleição presidencial. O recado das urnas deverá ser muito claro a favor do candidato e de sua agenda. A maioria dos políticos não ignorará o aviso. Isso significa que Bolsonaro, ao menos no início de seu governo, deve conquistar apoio relevante no Congresso, principalmente na Câmara, inclusive para aprovar emendas constitucionais.

No começo de 2019 – ao menos no primeiro semestre –, a força centrípeta de Bolsonaro deve se sobrepor às forças centrífugas mencionadas. A manutenção dessa tendência dependerá da capacidade do novo governo de escapar das cascas de banana que terá pela frente – uma das primeiras será a questão do tabelamento do diesel – e de se manter popular ao longo do tempo. Dependerá, também, da capacidade de Bolsonaro e de seus operadores políticos de reduzir os conflitos e as animosidades latentes no novo Congresso, incluindo a disputa entre a nova e a velha política.

Nesse sentido, são preocupantes os sinais de que eles trabalharão contra a manutenção de Rodrigo Maia na presidência da Câmara. Maia, ao contrário do que disse Hasselmann, tem força política – fundada no respeito que conquistou da maioria de seus colegas e na capacidade de dialogar inclusive com a esquerda –, poder de articulação, firmeza e conhece o regimento. Maia, em suma, tem condições propícias para fazer a ponte entre as turmas da nova e da velha política.

Ademais, está alinhado com a agenda econômica liberal de Bolsonaro e, em certa medida, também com sua agenda mais conservadora nos costumes. Será um erro colocá-lo potencialmente no campo adversário. O troco para esse tipo de atitude não ocorrerá logo de cara, mas virá na primeira ocasião em que o governo tropeçar. E todo governo, mais cedo ou mais tarde, cambaleia.

* SÃO, RESPECTIVAMENTE, ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL  E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA; E DOUTOR EM CIÊNCIAS POLÍTICAS PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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