Eduardo Valente/Estadão - 12/6/2020
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coluna

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Turismo prepara retomada com foco em destinos domésticos para reduzir perdas

Setor é um dos mais afetados pela crise provocada pela pandemia de covid-19; estudo da FGV projeta prejuízo de R$ 161 bilhões entre 2020 e 2021

Roberto de Lira, especial para o Estadão

02 de julho de 2020 | 12h29

Mesmo antes do início da flexibilização das regras de isolamento social para conter a disseminação do coronavírus por governos estaduais e prefeituras, o setor de turismo já trabalhava com o que será seu novo normal: a retomada das viagens se dará pelos destinos domésticos, de preferência para pequenas distâncias. 

Além disso, no curto e médio prazo vai prevalecer um novo comportamento dos viajantes, como a busca por raízes familiares, pela simplicidade, o sossego e uma aversão ao consumismo desenfreado. Essas são tendências que associações da cadeia turística e especialistas têm discutido em reuniões virtuais e webinars nas últimas semanas.

A presidente da Associação Brasileira das Agência de Viagens (Abav), Magda Nassar, tem dividido seu tempo entre a negociação de medidas econômico-financeiras para a sobrevivência de todos os elos do segmento - calcula-se que ao menos 50 diferentes subsetores da economia estão ligados ao turismo -, campanhas de incentivo à atividade, criação protocolos comuns para a reabertura e debates sobre o futuro. 

“Estamos prontos para começar assim que houver entendimento de que a curva (de contaminação) está mesmo em queda. Estamos trabalhando com diversos protocolos de biossegurança, começando com a abertura das agências de viagens, hotéis, parques, pensando o setor de uma maneira superampla”, afirma.

Após o desejado alívio na questão da saúde, essencial para que a sensação de segurança e conforto da sociedade tragam os clientes de volta às agências, o que mais preocupa Magda é o fluxo de caixa do setor. 

Estudo da FVG Projetos estimou em R$ 161,3 bilhões as perdas econômicas para o turismo brasileiro no biênio 2020/2021. Com essas projeções, o nível das receitas pré-pandemia só seria igualado no final do ano que vem e a recuperação das perdas, se acontecer, demandaria taxas de crescimento de quase 17% em 2022 e 2023.

“Nossa queda (nas agências) atinge até 96% da receita em várias empresas. As companhias aéreas estão voando hoje com 12% ou 13% de sua capacidade. O crédito precisa chegar na ponta e com rapidez”, defende a presidente da Abav, ao lembrar as dificuldades de acesso aos recursos das linhas de crédito emergenciais já aprovadas pelo governo federal e o Congresso Nacional.

Para as empresas que conseguirem suportar esse estrangulamento financeiro vai chegar o desafio de adaptação a um viajante cujos gostos e comportamentos também terão passado por transformação. Para entender esse novo tempo, a Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) buscou a opinião do professor Ian Yeoman, que leciona turismo na Victoria University, da Nova Zelândia. 

O conhecido “futurista” do setor, que já  escreveu vários livros sobre o tema, disse num webinar que o novo consumidor dos pacotes de viagens será mais ligado à família e aos amigos, menos frívolo e gastador e com uma percepção mais atenta ao comprometimento das empresas com a responsabilidade social e a empatia de suas lideranças e funcionários.

A rede hoteleira, por exemplo, pode aproveitar o tom mais “caseiro” dos clientes para oferecer pacotes de “staycations” para famílias das próprias cidades em feriados locais e as agências aproveitariam a desaceleração para oferecer opções de lazer mais recreativo e contemplativo, como pesca e fotografia. Nesse ponto, a tecnologia será grande aliada, com o uso inteligente de dados sobre os consumidores auxiliando nas análises das preferências dos turistas.

Dos cenários possíveis para o mercado de turismo no médio prazo desenhados pelo professor, o que ele acredita ser o mais provável é o da “Colônia”, nome que emprestou de um filme de suspense dos anos 1990 que mostrava uma família presa num condomínio de luxo controlado por um empresário obcecado por segurança. 

Nesse esperado futuro, a escolha dos planos de viagem se daria pelo destino mais seguro do ponto de vista sanitário, uma vez que a ameaça do vírus não estaria afastada em todos os lugares. Desenvolver uma cultura de confiança é, portanto, fundamental para o setor.

Outros cenários variam do otimismo com a descoberta de uma vacina, que aceleraria a recuperação econômica, ao pessimismo de ambientes de negócios protecionistas e um clima de desconfiança global. Uma visão do despertar de um mundo mais altruísta após a pandemia, com a busca por viagens mais responsáveis do ponto de vista ecológico é outra possibilidade citada no estudo de Yeonam.

A presidente da Abav diz acreditar que as novas e as futuras restrições serão assimiladas pelos turistas com o tempo, como aconteceu com as medidas de segurança adotadas após o 11 de setembro. “Os hábitos vão se reorganizando e, no final, se você tem a sensação de mais segurança, mais higiene e mais limpeza, você se sente melhor.”

Campanha

A oportunidade de o turista brasileiro redescobrir os destinos nacionais e, assim, incentivar um segmento responsável pela geração de mais de 7 milhões de empregos diretos e indiretos, é o mote do Movimento Supera Turismo, campanha lançada no início de junho pela Abav, Braztoa e pela Abracorp, que representa as viagens corporativas. 

Com um site próprio, publicações em redes sociais e um filme que pede ao turista que continue viajando, a iniciativa é considerada o primeiro passo para a retomada. “É preciso mostrar melhor o Brasil para o mundo. Tirando neve, qualquer outro sonho de viagem o Brasil atende”, afirma Magda, da Abav.

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