AP Photo/Lefteris Pitarakis
AP Photo/Lefteris Pitarakis

Turquia mergulha na crise; Grécia sai

Perdulários nas contas públicas, vizinhos enfrentaram a desconfiança dos mercados financeiros globais com dez anos de intervalo

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 05h01

CORRESPONDENTE / PARIS - Depois de quase nove anos de grave crise econômica, a Grécia abandonará nesta segunda-feira o período de tutela financeira da União Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma última parcela dos planos de socorro, no valor de € 15 bilhões, foi transferida para as contas do governo de Alexis Tsipras e representa o fim de três programas de resgate, que totalizaram mais de € 273 bilhões. No momento em que o país sai do buraco, seu vizinho, a Turquia, mergulha na turbulência e lança todos os países emergentes – incluindo o Brasil – na incerteza. 

Em comum, as crises da Grécia e da Turquia, ocorridas com quase 10 anos de diferença, têm um ponto em comum: o buraco nas contas públicas que abriu as portas à especulação nos mercados financeiros globais. Perdulários, os gregos somavam um déficit público de 15,4% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, quando da explosão da crise das dívidas na União Europeia. À época, a dívida pública, segundo o Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat), era de 127,1%. Os dois patamares estavam muito acima do aceito pelo Pacto de Estabilidade de Bruxelas.

Assim como a Grécia, a Turquia de Recep Tayyip Erdogan também vive além de suas riquezas reais. Apesar do crescimento econômico registrado em 2017, de 7,4%, celebrado como “maior que o da China e o da Índia”, os indicadores econômicos do país são ruins. O déficit de pagamentos correntes é hoje de 5,5%, um nível considerado elevado demais para um país emergente. Sua dívida pública, que era de 39% em 2012, já chegava a 58% do Produto Interno Bruto (PIB) antes da maxidesvalorização registrada há dez dias, quando a lira turca perdeu quase 50% de seu valor frente ao euro em um ano.

Do total, 553,1 bilhões da dívida são emitidos em liras turcas, os outros cerca de 40% são emitidos em moedas estrangeiras. O resultado é que o câmbio desfavorável fará a dívida explodir em 2018. “Os desequilíbrios econômicos na Turquia são de grande amplitude”, diz Rémi Bourgeot, economista e pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, de Paris.

Além disso, a inflação anualizada que, em fevereiro, era de 12%, tende a saltar com a desvalorização cambial. O país é dependente de petróleo, gás e energia elétrica importados, o que deve acelerar a inflação deste ano. “A Turquia viveu de financiamento externo barato para estimular o consumo e o mercado imobiliário, mas não houve investimentos consequentes no sistema produtivo”, disse ao Estado o turco Emre Deliveli, doutor em Economia pela Universidade de Harvard. “É uma economia insustentável, que vai voltar a quebrar em quatro ou cinco anos.”

Barreiras. Para Deliveli, a crise na Turquia não é só fruto da conjuntura comercial desfavorável, que se deteriorou com a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de dobrar as barreiras alfandegárias ao aço e ao alumínio produzidos no país. A situação estrutural do país, explica o economista, já estava se deteriorando. “As origens da crise na Grécia e na Turquia eram diferentes. Parte dos problemas era causado porque a Grécia não dispunha de uma moeda nacional para depreciar, não tinha uma política monetária independente para gerir a crise”, pondera. “Mas há um ponto em comum: a Grécia, como a Turquia, também gastava além de suas possibilidades.”

A Grécia, porém, após oito anos de intervenções tem visto melhoras em seus indicadores. O déficit público, que já chegou a 15,7% do PIB, virou superávit de 0,7% em 2016. O desemprego, que era de 27,5% em julho de 2013, está hoje de 20,7%, com tendência de baixa. E a economia deve crescer 1,9% em 2018. Com esses dados, o país conquistou o direito de ter as revisões de suas contas feitas uma vez ao ano – e não constantemente, como vinha ocorrendo.

Reservas. As contas públicas descontroladas não são a única semelhança entre as turbulências financeiras ocorridas na Grécia em 2009 e as que sacodem a Turquia hoje. Outro aspecto similar é a ameaça de uma crise sistêmica para a economia da União Europeia. Isso ocorre porque instituições financeiras da Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha – as cinco maiores economias europeias – têm € 171 bilhões investidos no país em bancos turcos, que precisarão de recapitalização para sobreviver em meio à desvalorização cambial.

Alguns dos bancos mais suscetíveis a um eventual aprofundamento da crise na Turquia são o francês BNP Paribas, o italiano UniCredit e o espanhol BBVA. As instituições espanholas, aliás, têm o maior grau de exposição porque emprestaram mais de US$ 80 bilhões a bancos turcos. Instituições francesas vêm a seguir, com um nível de exposição de € 38 bilhões. Bancos do Reino Unido, com € 19 bilhões, e da Alemanha e da Itália, com € 17 bilhões.

Isso significa que, em caso de crise mais profunda na Turquia, o sistema financeiro local poderia ter dificuldades de reembolsar seus empréstimos em moeda estrangeira, atingindo em cheio as instituições das cinco potências da UE. Não bastasse, caso a Itália também seja atingida, seu sistema financeiro pode tremer, como anteveem analistas, então balançando todo o equilíbrio do bloco. 

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