Uber é mais que uma startup de US$ 40 bilhões

Companhia criada há 6 anos, que faz serviços de táxis por meio de aplicativo no celular, já é uma empresa automotiva de porte médio

NANCY SCOLA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2014 | 02h05

Enquanto coordena sua última rodada de captação de recursos, a Uber foi avaliada em US$ 40 bilhões. Muitos consideram a cifra espantosa para uma companhia criada há apenas seis anos e que faz serviços de táxi atendendo aos clientes por meio de um simples aplicativo do celular. Entretanto, para alguns especialistas em transportes, esse número não é tão absurdo.

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Para compreender o motivo, é preciso pensar na concorrência da Uber no mercado, não como mais uma empresa de táxis, nem como uma outra opção de transporte alternativo como a Lyft ou a Zipcar.

Ao contrário, afirma Arun Sundararajan, professor da Stern School of Business da New York University, o valor da Uber se baseia na aposta de que, dentro em breve, seu sistema de transporte se "tornará um vantajoso substituto para as pessoas que já possuem um automóvel".

A Uber surgiu em 2009, em São Francisco, como serviço de táxis de luxo, atendendo às pessoas que, segundo o seu diretor executivo Travis Kalanick, queriam circular pela cidade em grande estilo. Mas, até por coincidência, esse serviço de luxo também se revelou a perfeita resposta para as massas que desejavam se locomover de carro. Nos Estados Unidos, os jovens não estão mais dirigindo tanto quanto antes. Isso permitiu à Uber ganhar alguns dos bilhões de dólares que as pessoas gastariam em veículos, gasolina e seguro do carro.

"A força da Uber está no fato de que aproveitou das necessidades de mobilidade de uma geração jovem conectada, exatamente no momento em que suas exigências estão mudando", afirma Anthony Townsend, cientista sênior da área de pesquisa do Rudin Center for Transportation da NYU.

Em parte, diz Townsend, isso tem a ver com a rápida ascensão de poderosos celulares conectados com a internet. Segundo o projeto Pew de Pesquisa da Internet, cerca de 80% dos americanos entre os 18 anos e 34 anos possuem um smartphone, e "não querem dirigir porque preferem ficar olhando a tela do seu aparelho". Além disso, nos Estados Unidos, vem aumentando o número de jovens que migram para as cidades, onde o preço de acordo com a distância percorrida é menor do que nos bairros.

Enquanto a Uber mantiver um bom nível de serviço aos clientes e preços razoáveis, as pessoas acharão tão econômico e quem sabe mais aprazível usar a Uber para andar pela cidade do que ter um carro. Tendo isso em mente, considerar a Uber uma valiosa companhia de transporte de táxi de médio porte não parece algo tão exagerado.

Vale tudo. Não é só isso. Hoje, a Uber não oferece apenas uma corrida aos seus clientes. Mas oferece uma corrida a pessoas do seu valor. Em alguns dos 51 países em todo o mundo onde opera, a Uber optou por experimentar de maneira agressiva uma mudança total do seu método de trabalho: agora, carros e motoristas fazem também serviços de todo tipo, desde pacotes a vacinas contra a gripe e produtos para animais de estimação.

"Ver a Uber como uma companhia que transporta pessoas de um lugar para outro é apenas uma parte da história", diz Sundararajan. "A empresa não seria avaliada em US$ 40 bilhões só por isso. Seus investidores apostam numa mudança de comportamento muito maior, fazendo com que muitas pessoas se sintam dispostas a gastar mais do que fazem atualmente para receber as coisas de que precisam."

E quando você pode não apenas ir aonde precisa, mas também receber aquilo de que precisa sem necessitar ter um carro, o valor que as pessoas atribuem a um automóvel próprio cai drasticamente.

Entretanto, afirma Townsend, o sucesso da Uber, nos próximos anos pelo menos, se baseia na premissa de uma base de usuários da geração da internet que não possuem carro, fazendo do seu serviço um elemento confiável da vida diária. "E já fizeram tudo o que podiam para irritar essa geração", ele diz, referindo-se aos recentes comentários de um executivo da Uber sobre a disposição da companhia de expor dados dos usuários e investigar jornalistas que fizeram crítica a seu respeito.

"Essa atitude prepotente da Uber significa que, aparentemente, a marca não está madura para se tornar compatível com sua base de usuários", diz Townsend. "Desestimular todas as mulheres da América do Norte não é uma medida inteligente."

E uma vez que as principais companhias automotivas do mundo se sentirem ameaçadas pelo sucesso da Uber, prossegue, "elas entrarão no jogo também".

Já há alguns sinais de que isso está acontecendo. A BMW, por exemplo, criou a iVentures, uma subsidiária de capital de risco inspirada na ideia de que "o campo emergente dos serviços de mobilidade evolui continuamente". Esse ramo da BMW já investiu em aplicativos de serviços urbanos que detectam a localização, a oferta de estacionamento online Just Park e uma incubadora de startups de transportes na cidade de Nova York.

É possível que a Uber disponha de recursos suficientes para competir com a BMW que está de olho no futuro. A companhia, fundada há cerca de um século, foi avaliada em aproximadamente US$ 73 bilhões. Mas competir com toda uma indústria automotiva extremamente motivada talvez seja um desafio muito maior. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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