RICHARD PERRY | NYT
RICHARD PERRY | NYT

Ubermundo

A mais valiosa startup do planeta lidera a corrida para transformar o futuro dos transportes

The Economist

05 Setembro 2016 | 05h00

“Vamos de Uber.” São poucas as empresas cujos produtos ou serviços se tornam populares o bastante para entrar no vocabulário cotidiano das pessoas. Mas essa é uma das muitas façanhas do Uber, empresa criada em 2009 que hoje é a startup mais bem avaliada do planeta: seu valor estimado chega a US$ 70 bilhões. Com seu aplicativo, o usuário em poucos instantes chama um carro com motorista para transportá-lo de um lugar a outro em 425 cidades do mundo, para desespero e dissabor dos taxistas. Mas as ambições do Uber, e as expectativas que subjazem à estimativa de seu valor, vão muito além disso: empregando veículos autônomos, a startup quer se tornar uma opção de transporte tão barata e conveniente que as pessoas acabem concluindo que não faz sentido ter um carro. Não satisfeita em anarquizar o mercado de US$ 100 bilhões anuais dos taxistas, a empresa mira o ainda maior segmento de transporte pessoal, que movimenta ao ano a bagatela de US$ 10 trilhões.

É claro que não é só o Uber que sonha com isso. Companhias de tecnologia, incluindo Apple, Google e Tesla estão investindo pesado em carros capazes de circular pelas ruas sem motorista. E as montadoras, da Ford à Volvo, tendo também se dado conta do potencial transformador dos automóveis elétricos e autônomos, com utilização “on demand”, não querem ficar para trás. Avizinha-se uma batalha comercial de proporções épicas, cujo resultado será uma transformação tão profunda no dia a dia das pessoas quanto a produzida pelos carros no século 20, reinventando o transporte, modificando as cidades e, ao mesmo tempo, reduzindo drasticamente as mortes no trânsito e a poluição.

As rodas da mudança. No curto prazo, o Uber é o principal candidato a liderar a revolução, graças a sua posição dominante entre os aplicativos de caronas pagas, um dos segmentos que deve apresentar crescimento mais acelerado. Atualmente, esses aplicativos são responsáveis por menos de 4% dos quilômetros percorridos mundialmente. Segundo o banco Morgan Stanley, porém, isso deve chegar a mais de 25% até 2030. O potencial dos aplicativos não se restringe à facilidade com que põem à disposição do usuário um táxi mais barato para se locomover pela cidade: serviços de corridas compartilhadas, como o UberPool, que reúne num único veículo passageiros que pretendem seguir na mesma direção, tornam menos clara a distinção entre transporte público e particular. Helsinque e outras cidades vêm fazendo experiências com aplicativos e serviços de ônibus “on demand”, que permitem ao usuário realizar seus percursos combinando trens e ônibus com trechos a pé ou em veículos de caronas pagas. Se der certo, as malhas de transporte coletivo se estenderão até o “último quilômetro”, levando as pessoas até a porta de casa.

No longo prazo, porém, serão os carros autônomos que impulsionarão a reinvenção do transporte. Os primeiros modelos já circulam pelas ruas. O Google vem testando veículos autônomos nas proximidades de sua sede, em Mountain View, na Califórnia. No mês passado, uma startup chamada nuTonomy inaugurou um serviço de táxi com carros sem motorista em Cingapura. Os automóveis elétricos da Tesla vêm equipados com tecnologia de condução semiautônoma. E, daqui a algumas semanas, o próprio Uber oferecerá aos usuários de seu aplicativo em Pittsburgh, na Filadélfia, a possibilidade de chamar um carro autônomo (que, no entanto, virá com um ser humano sentado no banco do motorista, pronto para assumir o volante caso isso se faça necessário).

Os veículos autônomos reforçarão as tendências postas em movimento pelos serviços de caronas pagas, tornando-os mais baratos e acessíveis. Um estudo da OCDE, por exemplo, mostra que, com carros autônomos compartilhados, uma cidade como Lisboa poderia ter uma redução de 80% a 90% no número de automóveis circulando por suas ruas. Com menos carros, espaços destinados a estacionamento – que chegam a ocupar 25% da área de algumas cidades americanas – poderão ser transformados em parques ou áreas residenciais.

Ainda não está claro quais empresas dominarão esse mundo, nem o montante de lucros que ele deve gerar. Com seu modelo atual, o Uber não conseguirá se manter no topo do setor: um negócio de caronas pagas que depende de motoristas não tem como competir com ruas abarrotadas de veículos autônomos. Mas essa ameaça existencial está fazendo com que a empresa embarque num grande esforço de inovação. Com uma marca sólida e uma base de clientes enorme, o Uber pretende se tornar o maior provedor de serviços de transporte num mundo em que os veículos se conduzem por conta própria. A empresa também está entrando em novos segmentos, como o de entrega de refeições e de transporte rodoviário de cargas com caminhões autônomos. Falta às montadoras de automóveis a experiência que o Uber tem na prestação de serviços, assim como o conhecimento que a empresa vem acumulando sobre padrões de demanda e comportamento dos consumidores.

Mas as empresas que inauguram novas tendências tecnológicas nem sempre conseguem se manter à frente das demais. Basta lembrar da Nokia e do BlackBerry no segmento de smartphones, da Kodak no de câmeras digitais ou do MySpace no de redes sociais. No setor de tecnologia, é comum pôr uma inovação no mercado primeiro e esperar que as autoridades regulamentem seu uso depois. O sucesso do Uber com as caronas pagas deve muito a essa receita. Mas, quando se trata de veículos autônomos, a combinação de regras pouco claras com tecnologia imperfeita pode ter consequências fatais.

Com mais e mais empresas entrando no segmento de caronas pagas, é possível que o negócio se revele menos lucrativo do que se imagina, especialmente a partir do momento em que os veículos autônomos passarem a fazer parte do “mix”. Ao pôr passageiros e motoristas em contato, o Uber consegue, sem ser proprietário de um único veículo, oferecer serviços de transporte e ficar com a maior parte dos lucros. Mas, se realizar seu desejo de se tornar um elemento essencial das infraestruturas de transporte urbano, a empresa pode ser alvo de mais regulamentações, impostos e ações de autoridades antitruste, ou todas as alternativas anteriores.

A grande corrida. Por ora, o Uber lidera a corrida para transformar o futuro do transporte pessoal. Ao contrário da Apple e do Google, o único foco da empresa é o segmento de transportes e, diferentemente das montadoras de automóveis, o Uber não tem um negócio industrial para proteger. Nada garante que seu destino não seja o mesmo de Moisés, jamais chegando à terra prometida. Mas, com ou sem Uber, estamos todos a caminho de um Ubermundo.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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