UE estuda três opções de pacote para Grécia

Chefes de Estado e de governo se reúnem amanhã em Bruxelas para definir socorro

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

Três hipóteses de pacotes de salvamento da Grécia estão na mesa de chefes de Estado e de governo da União Europeia, que se reúnem amanhã, em Bruxelas, para uma cúpula crucial. Duas das opções, a recompra e a rolagem da dívida grega, preveem a possibilidade de calote parcial ou total do país. Uma terceira, que ganha força nas últimas horas, afasta por ora essa possibilidade.

Hoje a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, fazem reunião extraordinária em Berlim para aparar as arestas que impedem um acordo. A revelação sobre os cenários em estudo foi feita ontem. Documentos vazados à imprensa indicam que a UE estuda três possibilidades de socorro à Grécia - um programa de auxílio que servirá de parâmetro para os países em crise do bloco. Em todas, a questão central é a mesma: a possibilidade de um calote de Atenas.

As três opções que serão analisadas até amanhã são: recompra da dívida grega e concessão de garantias aos títulos do país por Bruxelas, que pode causar um calote seletivo ou até completo; a rolagem da dívida, sem garantias e sem recompra de dívida; e finalmente a taxação do setor financeiro, acompanhada de linhas de crédito do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (Feef) para a Grécia, com juros mais baixos e prazos mais longos. A última alternativa não prevê calote.

A recompra das dívidas, a hipótese mais provável, se subdivide em diferentes cenários. Ela poderia não resultar em calote caso a própria Grécia realize a aquisição pelo preço de face de suas obrigações, negociadas no mercado "secundário" - onde estão os títulos já emitidos. Essa possibilidade seria aberta pela eventual participação do Feef, que abriria uma linha de crédito com juros reduzidos e prazos de maturidade longos - até 30 anos.

Mas, para não ser considerada calote, a aquisição teria de ocorrer por 100% do valor dos títulos - o que não reduziria o valor da dívida e ainda dobraria o lucro dos investidores, considerando os 55% de desvalorização atual dos papéis.

A vantagem da medida seria melhorar o perfil da dívida, sem a admissão de uma moratória. O Feef levantaria recursos emitindo títulos de dívida europeia, avaliados como AAA pelas agências de rating. Mas a hipótese de calote parcial em caso de recompra não está descartada. Isso aconteceria caso a oferta da Grécia seja inferior a 100% do valor das obrigações, o que permitiria reduzir o valor da dívida, mas poderia ser avaliado pelas agências como um calote parcial.

Outra opção é que a recompra seja feita diretamente pelo Feef, a um preço menor do que o valor de face ou pela troca das obrigações gregas deterioradas por obrigações europeias. Tanto o valor pago quanto os prazos seriam diferentes dos exigidos pelos investidores, o que pode ser visto como calote.

Imposto. Apesar do "favoritismo" da opção pela recompra das dívidas, nas últimas horas a hipótese de um imposto bancário europeu tem ganhado espaço. Ontem, o ministro das Relações Europeias da França, Jean Léonetti, elogiou a proposta. "Essa solução teria a vantagem de não envolver diretamente os bancos (no socorro), e logo de potencialmente não criar default de pagamento da Grécia", ponderou.

Bancos da Alemanha e da França, entretanto, uniram-se ontem para protestar contra a medida. "Se os responsáveis políticos refletissem sobre um imposto excepcional, nesse caso ele deveria se aplicar a todos os cidadãos da zona do euro", disse Michael Kemmer, presidente da Federação Alemã de Bancos Privados.

Todas as possibilidades se combinam com um segundo pacote de socorro, avaliado em ? 115 bilhões, que se somaria aos ? 110 bilhões já concedidos em maio de 2010. Os recursos viriam do Feef, que financiaria dois terços, e do Fundo Monetário Internacional (FMI), com um terço. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, planeja participar amanhã da reunião dos ministros.

Reforma. Ontem, a expectativa sobre a cúpula da zona do euro cresceu nas bolsas de valores, que recuperaram parte das perdas da segunda-feira. Londres, Frankfurt e Paris subiram 0,65%, 1,19% e 1,21%, respectivamente. O otimismo se deu porque rumores indicaram que a UE preparava um grande pacote de reforma da zona do euro, em direção ao "federalismo" fiscal. Porém, Merkel se encarregou de reduzir as expectativas, indicando que no encontro "não haverá avanços espetaculares".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.