UE investiga medidas protecionistas francesas

França se defende e diz que, como ?inventora do carro?, tem o direito de organizar a sua indústria automobilística

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

11 de fevereiro de 2009 | 00h00

A Europa se afunda em brigas internas e sofre para dar uma resposta à crise. Ontem, a União Europeia (UE) não conseguiu chegar a um acordo sobre como lidar com os títulos podres dos bancos e anunciou que vai investigar suspeitas de protecionismo no pacote da França para as montadoras.Na segunda-feira, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou que daria 6,5 bilhões às montadoras, com a condição de que criassem empregos na França e não investissem em outros países. Os governos do bloco demonstraram o mal-estar e chegaram a ameaçar com retaliações a empresas francesas. A Comissão Europeia, braço executivo do bloco, também se mostrou desconfiada com o plano de Sarkozy. "Há certas preocupações", afirmou o porta-voz da Comissão, Jonathan Todd. Para ele, as exigências de Sarkozy podem ser "ilegais".Se as irregularidades forem comprovadas, Todd garante que a UE não vai "tolerar" o pacote. A Federação de Indústrias da Alemanha acusou Paris de dar subsídios e "distorcer o mercado". O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, foi além. Garantiu que, se o protecionismo francês continuar, vai enviar a empresa GDF Suez "de volta para casa" e se queixar ao tribunais da UE.O ministro de Finanças da República Checa, Miroslav Kalousek, disse que "o maior risco hoje para a UE é o protecionismo". Ele convocou uma cúpula para o fim do mês para dar um "não" ao protecionismo.O ministro francês para o Relançamento da Economia, Patrick Devedjian, rejeitou as críticas. "Foi a França que inventou o carro. Portanto, temos a legitimidade de organizar nosso setor." Para ministro de Finanças no Reino Unido, Aliston Darling, governos podem apoiar suas indústrias, "mas é importante que não adotemos medidas protecionistas."TÍTULOS PODRESO racha da Europa também ficou claro em relação à estratégia de salvar os bancos. Enquanto nos Estados Unidos o governo anunciava um pacote de mais de US$ 1 trilhão para o setor financeiro, a Europa não consegue chegar a um acordo. Ontem, os 27 ministros de Finanças do bloco conseguiram apenas concluir que precisam agir de forma coordenada. Mas ninguém sabe como ainda. Os ministros concordaram em trabalhar juntos para resolver o problema dos títulos podres dos bancos da região. Mas admitem que não haverá uma resposta comum, já que a situação é diferente em cada país.Os governos pediram que a Comissão Europeia agora formule propostas nas próximas duas semanas, mas já concordaram que cada governo poderá criar seu banco para ficar com esses papéis, também chamados de "tóxicos" .A ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, ironizou ao ser perguntada se a UE tinha posição sobre o assunto. "Eu acho que fiquei doente nessa parte da reunião." Para o britânico Alistair Darling, a opção de criar bancos para os títulos podres continua aberta.ACUSAÇÕES A briga na UE se aprofundou ontem com as acusações dos checos ao núcleo duro da UE por violar as regras do bloco para defender sua indústria. "A resposta dos países à crise deformou o projeto comum do euro", afirmou o primeiro-ministro da República Checa, Mirek Topolanek. Segundo ele, os países que usam o euro estão ignorando as regras para proteger suas indústrias.

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