coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

UE quer mais esforços para acordo comercial, diz Durão

O presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, afirmou que a União Européia estaria disposta a fazer um "último esforço" para viabilizar um acordo na Rodada de Doha, desde que haja concessões também dos Estados Unidos e do G-20, que reúne os países emergentes, inclusive o Brasil. "Os Estados Unidos têm de fazer algum esforço, sobretudo por causa dos apoios domésticos à agricultura que fazem, e também o G-20 (e o Brasil tem um papel de liderança indiscutível) para a liberalização no capítulo industrial e no capítulo de serviços", propôs Durão Barroso em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. "Eu acho que seria muito bom para a economia mundial que houvesse um acordo na Rodada de Doha.""Mercado aberto"Durão Barroso procurou jogar sobre os Estados Unidos a responsabilidade maior sobre os subsídios agrícolas. Ele usou os números de importações de produtos agrícolas brasileiros pela Europa e pelos EUA, respectivamente de 38% e 8%, para afirmar que a região tem poucas barreiras ao comércio. "A Europa é o mercado mais aberto do mundo", salientou o presidente da Comissão Européia. Ele admitiu que a região ainda tem "alguns problemas" na área agrícola, que segundo ele estão sendo gradualmente reduzidos. Diante da discordância dos entrevistadores, ele lembrou que o Brasil pratica taxa de importação de 30% em média, enquanto a UE praticaria, em média 4%. "A Europa ainda tem mais algumas concessões a fazer na parte agrícola, enquanto o Brasil tem de abrir mais a área industrial e de serviços", reiterou. "Mas cortes reais e não apenas virtuais. Se for assim, teremos um acordo."IndústriaO entrevistado disse que o Brasil não é nenhuma Guiné Bissau para pleitear vantagens comparativas em um acordo com a Europa. "O Brasil é uma grande economia emergente. O Brasil, a Índia e a China estão em outro campeonato", comparou usando termos futebolísticos sobre a importância dos países que fazem parte do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Ele opinou que o acordo seria bom para o Brasil, que teria potencial de exportação também na área industrial. "O Brasil tem uma indústria pujante que só vai ganhar com a liberalização", afirmou. "Mesmo com alguma concorrência que possa chegar aqui, vai dar maior eficácia e eficiência do ponto de vista competitivo. E vai dar mais mercados fora do Brasil."MercosulEle garantiu que a União Européia ainda não desistiu de buscar um acordo com o bloco sul-americano, apesar dos problemas enfrentados pelo grupo. "Sei que há dificuldades, mas penso que ao mesmo tempo em que procuramos avançar na Rodada de Doha seria útil chegarmos a um acordo mais abrangente Mercosul-UE", ponderou Durão Barroso. Segundo ele, nem mesmo a provável adesão da Venezuela ao bloco sul-americano poderá ser um empecilho ao acordo. "Incorporar a Venezuela é uma decisão do Mercosul", frisou. "Nós estamos dispostos a trabalhar com o Mercosul com ou sem a Venezuela."LiderançaEm alusão velada ao crescente papel de liderança exercida pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, o presidente da Comissão Européia criticou a onda de populismo que tem tomado conta do continente e fez um apelo para que o Brasil exerça o papel de líder da América Latina.Ao ser perguntado se o Brasil já não exerceria esse papel, ele foi enigmático: "Os chefes de Estado olham muito para os sinais; muitas vezes ouve-se quem fala com voz mais forte", referindo-se ao presidente venezuelano e a outros líderes populistas. Durão Barroso disse ainda que seria importante que o continente continuasse a trajetória da abertura econômica. "Se alguém pensa que vai ganhar a batalha da globalização com o paradigma de um país fechado sobre si próprio engana-se profundamente", salientou.TV DigitalFinalmente, sobre a questão da TV Digital, ele defendeu a implantação de uma "norma euro-brasileira", que seria o sistema europeu com mudanças desenvolvidas no Brasil, acompanhado de um pacote tecnológico de transferência de tecnologia para atingir todo o mercado da América Latina. Ele propôs também envolver a questão do conteúdo no pacote, pela proximidade cultural do Brasil por causa da raiz portuguesa. "Nós estaríamos dispostos a fazer com o Brasil um programa de conteúdo: de apoio ao cinema, à produção e à divulgação de todo o conteúdo cultural comum ao Brasil e à Europa." Mas diante da informação sobre a iminência da assinatura de um acordo do Brasil com o Japão para a adoção do sistema japonês, lamentou-se: "Do ponto de vista político, acho que é uma oportunidade perdida pelo Brasil na sua relação com a Europa, se não conseguirmos chegar a um acordo".

Agencia Estado,

06 de junho de 2006 | 07h50

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.