UE questionará EUA sobre subsídios a biocombustível

Usinas de biocombustíveis da Europa começam a parar com alta das commodities e volume menor de subsídios

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

26 de maio de 2008 | 09h14

Os europeus abrem guerra contra os biocombustíveis americanos. Sem contar com o mesmo volume de subsídios existentes nos Estados Unidos e sofrendo com a alta nos preços das commodities, usinas de biocombustíveis em toda a Europa começam a parar e até a despedir seus funcionários. Nos últimos cinco anos, bilhões de euros em investimentos foram feitos do Leste Europeu à península Ibérica, passando pela Alemanha ou Itália. Mas com o debate cada vez maior sobre a manutenção de uma meta de expansão para o consumo do biocombustível na Europa, a crise começa a se instalar.   Veja também: Entenda a crise dos alimentos    No último domingo, a União Européia confessou que abrirá uma disputa contra os Estados Unidos. Bruxelas poderá aplicar taxas antidumping contra o biodiesel americano, alegando que os subsídios dados pela Casa Branca estão distorcendo o mercado. Washington terá de responder a um questionário sobre suas práticas comerciais. Segundo o Conselho Europeu de Biodiesel, as exportações americanas passaram de 100 mil toneladas em 2006 para 1 milhão no ano seguinte graças aos subsídios e ocupando 15% do mercado europeu.   Já os americanos prometem também ir à guerra se os europeus de fato lançarem a disputa, já que alegam que Bruxelas também distorce seu mercado. Mas para especialistas ouvidos pelo Estado, a paralisia na produção de etanol e outros biocombustíveis nos países europeus reflete também a falta de competitividade do setor na região que precisa concorrer contra o etanol subsidiado americano, com o etanol brasileiro e com os preços das commodities.   Nem mesmo o barril do petróleo acima de US$ 100,00 está sendo capaz de tornar os investimentos rentáveis. Segundo a Associação Européia de Combustíveis de Bioetanol (eBIO), a taxa de crescimento do setor na região sofrerá uma dura queda. Depois de uma expansão de 70% em média por ano desde 2004, 2008 registrará um crescimento de apenas 15%.   A entidade ainda alerta que a capacidade de produção do continente será de 3,2 bilhões de litros de biocombustíveis até o final do ano, mas com uma produção de apenas 2 bilhões.   Os biocombustíveis na Europa são feitos principalmente a partir de cereais, trigo e grãos. Com a alta de mais de 50% nos preços médios das commodities desde o final do ano passado e de mais de 100% em alguns casos, a realidade é que a possibilidade de lucrar com o combustível se tornou uma miragem para os europeus.   A esperança inicial era de que a Comissão Européia rapidamente conseguisse convencer os 27 países membros a adotar uma resolução obrigando todas as economias a atingir um consumo mínimo de 5,75% de etanol no setor de transporte até 2010 e de 10% até 2020.   Mas cresce a oposição à meta, principalmente diante da constatação de que a produção européia não seria tão competitiva como se esperava. Nesta semana, o relator da ONU para o Direito à Alimentação, Olivier de Shutter, apelou para que a meta fosse abandonada como forma de dar um sinal aos especuladores de que a alta nos preços não será prolongada.   De fato, tendo e vista o maior uso de trigo, milho e outros produtos para os biocombustíveis, os mercados de futuro começaram a especular no valor desses produtos. Mas as usinas de etanol e biodiesel também se transformaram em vítimas da inflação. Só na Espanha, as 30 usinas no país estão paralisados ou trabalhando com apenas parte de sua capacidade.     Soluções     Sem poder lutar contra os preços das commodities, produtores europeus se limitam a pedir proteção aduaneira e novas sobretaxas. A Associação de Produtos de Biodiesel da Europa espera que Bruxelas estabeleça uma sobretaxa contra o produto Americano.   A queixa é a mesma que o Brasil mantém por anos contra os subsídios europeus e que Bruxelas alega que são vitais para manter o setor agrícola. Outra medida pressionada pelas associações de produtores é para que os governos europeus resistam os pedidos do Brasil para que as taxas de importação sejam suprimidas no setor de etanol e biodiesel. "Não temos como competir contra o Brasil. Precisamos das taxas de importação para sobreviver", afirmou Bustos.   Mas a Comissão Européia sabe que isso não poderá durar para sempre. Bruxelas pretende usar parte dos subsídios que quer retirar da produção do etanol para que se pesquise uma nova geração de combustíveis que não dependam de produtos como trigo ou soja. "Esse é o futuro dos biocombustíveis na Europa", afirmou nesta semana a comissária Agrícola da UE, Marianne Fischer Boel.

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