MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
Em um ano, a população ocupada caiu 1,9 milhão, em torno de 2,1% MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

Um ano marcado pelo desemprego

Milhões de brasileiros atravessaram 2016 atrás de uma nova vaga de trabalho; sem oportunidades, muitos desistiram até de procurar

Raquel Brandão e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2016 | 05h00

Em 2016, mais e mais brasileiros experimentaram a condição de desempregado. O número de pessoas sem trabalho nunca foi tão alto – eram 12,1 milhões até novembro, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E a busca por uma vaga tornou-se uma verdadeira maratona. Milhões de pessoas passaram o ano inteiro, em vão, atrás de um emprego. 

Apesar de os índices de desemprego terem crescido, os problemas no mercado de trabalho não são novidade. Caso se confirme a previsão do mercado financeiro, expressa no Relatório Focus, divulgado na segunda-feira, de queda de 3,5% do Produto Interno Bruto de 2016, serão dois anos de resultados negativos consecutivos e um acúmulo de 7,29% de perdas. 

 


Segundo o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) são apenas um reflexo do movimento da retração econômica. “Em um ano, a população ocupada caiu 1,9 milhão, em torno de 2,1%. Mas essa é uma comparação com 2015, que já tinha um nível de ocupação baixo”.

A crise foi tão agressiva que desconfigurou até mesmo o movimento sazonal, ou seja, nem vagas temporárias, típicas do fim de ano, apareceram. “Em outubro de 2013, período anterior à crise econômica, o total de desocupados era de 5,6 milhões a menos do que agora”, observa Azeredo.

Com esse cenário, muitos currículos acabaram enterrados nas caixas de e-mail dos departamentos de Recursos Humanos. Por isso, a aceleração de crescimento da força de trabalho, aquele grupo que está em busca de um emprego, passou a diminuir conforme os meses foram passando. As pessoas estão desistindo de procurar.

No trimestre encerrado em outubro, 600 mil perderam empregos, mas somente 195 mil estavam em busca de uma vaga. Isso também se explica pela queda da qualidade dos poucos postos, com salários baixos e instabilidade. Segundo Azeredo, cerca de 6 milhões de trabalhadores não estão procurando nada, mas têm potencial para integrar a força de trabalho. 

Empreendedorismo. A percepção de todos parece ser mais ou menos a mesma: 2016 foi diferente da “marolinha” de 2008 e de outras crises. Assim, o empreendedorismo foi ganhando espaço e tornou-se um dos responsáveis por estabilizar o índice de desocupação. Ainda que tenha começado a reduzir nos dois últimos trimestres móveis, segundo levantamento mais recente do Serasa Experian, o setor ganhou mais adeptos entre 2015 e 2016.

No ramo de Microempreendedores Individuais (MEI), surgiram 1,22 milhão de novos MEIs no País até setembro, o que representa um aumento de 5,3% em comparação ao mesmo período do ano passado. O crescimento pode parecer tímido, mas é representativo quando comparado a empresas individuais (capital mínimo de 100 vezes o maior salário-mínimo), por exemplo, cuja queda no mesmo período foi de 22%.

“O crescimento ficou mais forte em maio de 2015, quando o desemprego começou a subir. É um sinal claríssimo de que as pessoas querem tornar-se MEI para gerar renda”, explica o economista do Serasa Experian, Luiz Rabi. Até setembro, MEIs eram 79% dos novos empreendimentos no País, que totalizam 1,54 milhões de novas empresas até setembro.

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Apesar do crescimento do MEI, trabalho por conta própria encolheu 3,0% no trimestre encerrado em novembro, o que mostra que empreender não é tarefa tão simples. Arthur Achoa, gerente do Sebrae São Paulo, dá algumas dicas para quem quer viarar seu próprio patrão. Ouça no podcast abaixo.

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'Acima dos 50 anos não funciona mais', lamenta desempregada

Aos 54 anos, a assistente administrativa Catia Fernandes tem encontrado dificuldades para se recolocar no mercado de trabalho

Raquel Brandão e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2016 | 05h00

Aos 54 anos, Catia Fernandes acredita que a idade seja uma grande barreira para encontrar um novo emprego. Ela faz parte do grupo etário de 40 a 59 anos, cuja desocupação passou de 3,4% no terceiro semestre de 2013 para 6,7% no mesmo período em 2016, segundo o IBGE. 

Demitida, em fevereiro deste ano, de um escritório de seguros, a assistente administrativa já fez de tudo um pouco: trabalhou em banco, vendeu passagens, trabalhou no telemarketing e teve seu próprio negócio. Mas, desde a demissão, tem dificuldade de se recolocar no mercado mesmo com diploma do ensino superior. “Só em um site, mandei mais de mil currículos sem ter resposta. Eles acham que a pessoa acima dos 50 anos não funciona mais.”

Para ajudar nas contas, ela conseguiu frilas de digitação com os colegas do antigo trabalho, mas os “bicos” logo começaram a rarear. Hoje, a aposentadoria da mãe, de 76 anos, única pessoa com quem mora, é a principal renda da casa e mesmo a busca por empregos é prejudicada pela falta de dinheiro. “Às vezes tenho de ir à pé fazer as entrevistas.”

Para fazer o orçamento caber na nova renda, Catia parou de comprar roupas, diminuiu o pacote de internet, mudou o plano de saúde da mãe e conseguiu negociar para que não houvesse reajuste do aluguel. “Se eu colocar na ponta do lápis acho que cortei uns 60% dos meus gastos”, conta. 

Catia não perde a fé de que as coisas vão melhorar. O primeiro sinal veio de uma das três irmãs que, também desempregada, conseguiu uma vaga com carteira assinada para começar em janeiro. “É difícil lidar com o desemprego. Muitas vezes você se sente inútil, mas é preciso ter força, se controlar e pedir a Deus que venham dias melhores. A contratação da minha irmã foi um indício. Temos de nos apegar a isso.”

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Jogos do Corinthians são raridade

Sem oportunidades de emprego, engenheiro aposentado viu sua renda ser achatada

Raquel Brandão e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2016 | 05h00

Sérgio Fernandes deixou de frequentar jogos de futebol do seu time de coração e de passear no shopping com a esposa nos finais de semana. As contas ficaram mais difíceis de fechar depois de junho de 2015, quando ele perdeu o emprego em uma montadora em São Paulo. Desde 2009, ele trabalhava na empresa com auditoria e inspeção dos veículos. Foi assim que percebeu, ainda no começo de 2015, que a economia do País enfrentaria uma crise mais intensa do que se esperava, ao notar cada vez menos caminhões subindo o pátio.

Desde a demissão, apesar de seus esforços, nenhuma oportunidade surgiu. Por isso, o plano de associado do tradicional clube Juventus, na Mooca, foi uma das primeiras despesas cortadas. A casa de veraneio, no interior de São Paulo, também foi colocada à venda e as idas ao estádio do Corinthians se tornaram raridade. Aos 68 anos, Sérgio conta com a aposentadoria, que recebe há seis anos, mas ainda assim o orçamento da família teve de ficar mais enxuto. Hoje, o engenheiro mora com a mulher e o sogro de 88 anos. Os dois filhos já saíram de casa. “Nesse tempo desenvolvi melhor meu ‘papel de marido’ e pintei todo o apartamento”, brinca. 

Além da ajuda em casa, Sérgio tem apostado nos estudos para manter a mente ativa e o ânimo. Entre abril e maio, ele fez um curso para aprimorar o conhecimento das regras de inspeção de qualidade. O próximo curso será de automóveis, sua paixão desde que conseguiu o primeiro estágio, quando participou lançamento do icônico Maverick no Brasil, em 1973.

Apesar das projeções para o próximo ano não apontarem nenhuma melhora expressiva no desemprego, Sérgio mantém o otimismo. “A gente sempre luta para vencer os pensamentos negativos e acho que, apesar da idade, alguém vai me encontrar e me dar oportunidade”, diz. 

 

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'Personal travel'

Com a propaganda boca a boca, Larissa, que perdeu o emprego em novembro de 2015, tem organizado ao menos uma viagem por mês

Raquel Brandão e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2016 | 05h00

Perder o emprego não estava nos planos de Larissa Camargo. Mas, já que havia sido demitida, em novembro de 2015, resolveu aproveitar as festas de fim de ano na praia e começar a busca por trabalho no começo do ano. Passaram-se janeiro, fevereiro, março, abril e muitos outros meses. Entrevistas até apareceram, mas as oportunidades não lhe pareciam boas. “Em uma das vezes, eram 50 pessoas disputando 10 vagas para trabalhar das 22h às 4h e ganhar R$ 1 mil. Eu tive pena de mim e de quem estava lá”, conta. 

A oportunidade acabou surgindo quase sem querer. Em junho deste ano, uma tia foi convidada para expor suas obras na Noruega, mas não sabia organizar a viagem. Como o último emprego de Larissa foi em uma empresa de turismo, pediu ajuda à sobrinha. No final, ela terminou organizando a viagem de todo o grupo que iria para a Noruega. “Me deu uma luz de que isso poderia vingar, pois unia meu conhecimento comercial com algo que gosto muito, viajar.” E deu certo. Com a propaganda boca a boca, Larissa tem organizado ao menos uma viagem por mês. Os pacotes são fechados depois de uma reunião com clientes para definir orçamento, tempo de viagem e passeios. É assim que a “personal travel”, como se chama, faz os roteiros personalizados. 

A renda ainda está longe da que ganhava com carteira assinada. Momentos de lazer, como as baladas de fim de semana, diminuíram. Até a paixão pela cantora italiana Laura Pausini teve de se adaptar ao novo orçamento. “No último show, tive que abrir mão de ficar colada no palco e assistir da arquibancada. Para quem é fã, ver o ídolo lá longe é difícil.”

Ainda assim pretende continuar investindo na Laris Travel. “Comecei a divulgar nas redes sociais e pretendo me formalizar em breve. Espero que em 2017 consiga organizar pelo menos duas viagens por semana e, quem sabe, contratar um ajudante”, planeja confiante. 

 

 

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Solução marmita

As irmãs Francielle e Vanessa Rodrigues nunca tiveram o hábito de cozinhar, mas foi no fogão que encontraram uma nova fonte de renda

Raquel Brandão e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2016 | 05h00

Uma vez por semana as irmãs Francielle e Vanessa Rodrigues passam no fogão, fazendo patinho moído, filé de frango e purê de mandioquinha. Seguem essa rotina não por talento na cozinha, mas por uma infeliz coincidência: as duas perderam o emprego no início do ano e entraram para a estatística de 12 milhões de brasileiros desocupados em 2016. 

Depois de mandarem dezenas de currículos sem retorno, as duas decidiram lançar os kits saudáveis. Sob o nome de Grão Fit, elas fazem cerca de 90 marmitas por semana. Depois de quatro meses, o lucro ainda é pequeno, cerca de R$ 3 mil, repartidos em três: dois terços para as irmãs e um para a empresa. 

A solução de vender marmitas passa longe do que Francielle imaginou estar fazendo aos 31 anos. Formada em arquitetura e desempregada desde 2014, ela se viu obrigada a aceitar um emprego que lhe pagava R$ 1,5 mil ( R$ 300 a menos do que recebia como estagiária). Depois de um semestre de promessas de contratações não cumpridas, Francielle acabou sendo demitida. 

Já Vanessa mora e divide as contas com os pais. A dinâmica da casa começou a mudar quando a empresa de seu irmão, que tinha 38 funcionários e lucro mensal de R$ 30 mil, faliu. Ele teve de se mudar para a casa dos pais com a filha. Pouco depois, Vanessa perdeu o emprego de assistente em um escritório de arquitetura, onde trabalhou por 10 anos. Os cortes foram desde restaurantes no fim de semana até a escola da sobrinha, que mudou para a rede pública. 

Com alguns clientes fixos e cada vez mais pedidos, as irmãs esperam poder, em 2017, ter margem de lucro para alugar uma cozinha industrial. Questionada se pretende continuar mandando currículos na sua área, Francielle diz precisar ser realista. “Vou para onde me der dinheiro e agora parece que o negócio é mais promissor.”

 

 

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