Um ano para não esquecer

Tudo o que tinha de dar errado deu mesmo errado, na economia brasileira, em 2014. O crescimento foi ao chão, a inflação foi ao teto, o superávit fiscal recuou a zero e o setor externo pagou os pecados da sua baixíssima inserção nas cadeias globais do comércio internacional, acumulando déficit em contas correntes na fronteira do equivalente a 4% do PIB. O ano de 2014, do ponto de vista da economia, é um ano para não esquecer - melhor lembrar bem do que ocorreu, para evitar repetir a receita.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2014 | 02h02

Quando 2014 começou, as projeções dos analistas de mercado, organizadas pelo Banco Central no Boletim Focus, apontavam crescimento acima de 2% e inflação abaixo de 6%, com a taxa básica de juros estacionada em 10,5% ao ano. No setor externo, as previsões eram relativamente favoráveis: com taxa de câmbio a R$ 2,45 por dólar no fim de dezembro, o superávit comercial seria de US$ 8 bilhões e o déficit em transações correntes, de US$ 71 bilhões, equivalente a 3,2% do PIB. Não era o ideal, mas daria para o gasto, caso as estimativas se confirmassem.

Doze meses depois, porém, a realidade dos números era muito diferente - e muito pior. No último Focus de 2014, que praticamente antecipa os resultados efetivos do ano, o crescimento esperado pelos analistas não passou de 0,14% e a inflação alcançou 6,38%, muito próxima do teto da meta. Com a cotação do dólar em R$ 2,65, a balança comercial registraria déficit de US$ 2 bilhões, o que não se via desde 2000, e as transações correntes avançariam para um rombo de US$ 86 bilhões, representando 3,9% do PIB, sinal de amarelo a vermelho de advertência para a crescente vulnerabilidade do setor externo.

Parte da escalada do dólar e da elevação mais forte dos déficits externos se deveu a eventos que marcaram a economia internacional em 2014. Enquanto os Estados Unidos apresentavam um horizonte de recuperação econômica, a Europa e o Japão continuam a se debater com uma tendência de estagnação, ao mesmo tempo em que a China desacelera. Nesse cenário de assimetrias, a perspectiva de retomada de altas das taxas de juros, nos EUA, em meados de 2015, manteve as economias do mundo - emergentes na linha de frente - em estado de alerta, com alguns episódios de desvalorização acentuada e rápida de moedas locais, inclusive no Brasil.

Reflexo não só do encolhimento da demanda, mas também do aumento da oferta, com destaque para a aceleração da produção, principalmente nos Estados Unidos, de óleo e gás de xisto, as cotações do petróleo desabaram a partir de meados do ano. De mais de US$ 100 por barril, desceram, no fim de 2014, a menos de US$ 60 - nível que pode ameaçar a viabilidade da extração de petróleo em várias partes do mundo, inclusive no pré-sal brasileiro. A primeira vítima foi a Rússia, maior produtor mundial, cuja moeda, o rublo, sofreu um ataque em meados de dezembro e lançou sobre o mundo uma sombra de que pudesse contaminar a economia de outros emergentes.

Apesar do acúmulo de problemas em áreas muito variadas, não seria difícil escolher o vilão entre os protagonistas dos desajustes econômicos brasileiros. As manobras fiscais, que desmontaram as contas públicas, compuseram uma sinfonia de equívocos: adotadas para turbinar a economia, não conseguiram animar a atividade econômica e produziram desequilíbrios inéditos. Não fosse suficiente, a falta de transparência na administração das contas públicas minou a confiança de empresários e investidores, arrastando também as expectativas dos consumidores.

Uma das mais graves consequências desse quadro se refletiu nos níveis da poupança e do investimento - as alavancas para formação do ambiente propício ao crescimento. Enquanto o volume de investimentos retrocedeu 7% no ano, a poupança foi desidratada pela compressão do lucro das empresas. As duas taxas desceram ao ponto mais baixo em uma década, deixando claro que a reversão de tantos desequilíbrios não será nem trivial nem rápida.

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