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Um Barão

Meritocracia significa dar oportunidade a quem se prova o mais pronto e o melhor

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 04h00

O Instituto Rio Branco (IRBr) foi criado em 1945, quando se comemorava o centenário do nascimento de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco. Esse mesmo Barão que estampava a nota de 1.000 cruzeiros, iniciou sua carreira diplomática somente em 1876, como cônsul-geral em Liverpool. Foi comissário do Brasil na Exposição Internacional de São Petersburgo e ocupou postos em Paris e em Berlim, onde foi ministro plenipotenciário em 1900.

Mas, muito além das posições internacionais que ocupou, foi a atuação do Barão do Rio Branco na consolidação das fronteiras brasileiras que lhe garantiu o título de patrono da diplomacia brasileira. E foram seus feitos e experiências as credenciais que levaram o centro brasileiro de formação de profissionais para a carreira diplomática, hoje uma referência internacional, a estampar o seu nome. Lá se formam os terceiros-secretários da diplomacia, que chegam ao topo da carreira com um aperfeiçoamento moldado por anos de prática, treinamento e cursos, alguns deles obrigatórios para os diplomatas que almejam a ascensão na chancelaria.

Saíram do Instituto Rio Branco grandes diplomatas brasileiros. Em particular, todos os embaixadores que ocuparam essa posição nos Estados Unidos após a redemocratização. Nomes emblemáticos como Marcílio Marques Moreira, formado pelo IRBr em 1954 e mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Georgetown, em Washington; Rubens Ricupero, que carrega os prêmios Lafayette de Carvalho e Silva” de 1.º colocado no exame de ingresso ao IRBr, 1958, do Rio Branco e Medalla de Vermeil, como 1.º colocado no curso do IRBr, 1959-1960; Paulo Tarso Flecha de Lima, que fez o curso de aperfeiçoamento e ocupou a embaixada de Washington após servir como embaixador em Londres e se notabilizar na negociação da libertação de reféns brasileiros no Iraque de Saddam Hussein; Rubens Barbosa, que antes de Washington serviu como embaixador no Equador, na China, na Alemanha e na Áustria, além de acumular outras tantas relevantes experiências diplomáticas mundo afora. Mais recentemente tivemos Sérgio Amaral, que antes de assumir a Embaixada do Brasil em Washington serviu como embaixador em Paris e Londres e foi negociador da dívida externa brasileira com o Comitê de Bancos Credores e com o Clube de Paris. Foi também governador alterno no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional, além de representante do Brasil no Gatt, por ocasião da Rodada Uruguai.

Mas, antes da redemocratização, não foram só dos bancos do Instituto Rio Branco que saíram grandes diplomatas que nos representaram em Washington. Dotados de notório saber e muita experiência, figuras importantes da nossa história ocuparam a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Neste caso, foram suas destacadas trajetórias, e não necessariamente a formação original como diplomata, que os credenciaram para o principal posto da diplomacia brasileira. São nomes como Osvaldo Aranha, um dos políticos de maior destaque da sua época, que serviu como embaixador nos Estados Unidos entre 1934 e 1937, após atuar como um dos principais articuladores da Revolução de 30 e assumir o Ministério da Justiça em 1931; ou o banqueiro Walter Moreira Salles, conhecido como conciliador, gentil e hábil negociador, que ocupou o posto por duas vezes. Primeiro, no governo Getúlio Vargas, e novamente entre 1959 e 1961, com Juscelino Kubitschek; ou o economista, professor, escritor (e também diplomata de carreira) Roberto Campos, que fez parte, nos primórdios da sua carreira diplomática, da delegação brasileira na Conferência de Bretton Woods. Campos, com formação inicial em filosofia e teologia, se graduou em Economia na Universidade de Columbia quando ainda era cônsul de terceira classe em Washington, vindo a assumir o posto de embaixador somente em 1961, no governo de João Goulart.

Finalmente, como não falar de Joaquim Nabuco, que assumiu como primeiro embaixador do Brasil nos Estados Unidos em 1905, cargo que ocupou até seu falecimento, em janeiro de 1910.

Embora tenhamos uma excepcional escola de formação de diplomatas, que atrai, seleciona e forma grandes quadros para nos representar internacionalmente, há de se dar espaço à meritocracia que não deve nunca ser ditada por reserva de mercado.

Meritocracia significa reconhecer, selecionar e dar oportunidade a quem se prova pronto, senão o mais pronto e o melhor, para exercer uma determinada função.

Nosso Barão do Rio Branco deu o tom da qualidade da nossa diplomacia, e foi seguido por outros igualmente ilustres. Mas também foi o nosso Barão que, lá atrás, ganhou popularidade pela nota de 1.000 cruzeiros que foi, com a inflação, perdendo valor. Mas no início ela era o Barão. E um Barão valia muito. Definir com base na certidão de nascimento um posto que deveria ser exercido por mérito é, no mínimo, desvalorizar a chancelaria brasileira.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN

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