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Um centenário brilhante

Não faltam razões para uma orgulhosa celebração do centenário da SRB

Roberto Rodrigues, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2019 | 05h00

Em 2019, a Sociedade Rural Brasileira completa 100 anos de extraordinários serviços prestados à agropecuária de nosso País.

Há muito o que comemorar, até porque não é trivial uma entidade de representação classista chegar a essa idade em pleno vigor e atividade, com seus valores preservados e seu espírito intacto. Desde seu nascimento, a Rural tem sido um sólido bastião do Estado de Direito e jamais se deixou intimidar por pressões de qualquer tipo, muito menos de eventual autoritarismo de governos de plantão, mantendo com firmeza inabalável a fé na liberdade individual. 

Com essa postura, esteve presente nos principais embates que marcaram a história do campo, sempre apoiando o produtor rural profissional que, independentemente de tamanho ou de localização, tem sido um legítimo agente do desenvolvimento nacional.

Ao longo de sua existência, a Rural teve lideranças cujo desempenho ensejou que assumissem cargos de relevo em órgãos de governo federal ou estadual. Três de seus ex-presidentes se tornaram ministros da Agricultura em diferentes épocas, como Paulo de Morais Barros em 1930 e Renato da Costa Lima (1962/63), que já havia sido secretário de Agricultura de São Paulo durante o governo de Lucas Nogueira Garcez e mais tarde presidente do IBC sob o comando de Juscelino Kubitschek. Para melhorar a renda do País e do setor, Renato montou então um modelo de “escambo”, amarrando as compras nacionais às vendas de café. A revista Time o apelidou por isso de “Number one business man of the world”. 

A Secretaria da Agricultura de São Paulo foi ocupada por outros ex-presidentes da Rural, entre os quais Paulo de Morais Barros (1915), Gabriel Ribeiro dos Santos (1924/27), Luiz Piza Sobrinho (1935/36), Bento de Abreu Sampaio Vidal, (1937/38), Francisco Malta Cardoso (1946/47), e João de Almeida Sampaio (2007 a 2012). Alguns diretores da SRB ocuparam o mesmo cargo: Paulo da Rocha Camargo, Claudio Braga Ferreira, Monika Bergamaschi e Antônio Julio Junqueira Queiroz. 

Na área federal foram ainda destaques Pedro Camargo Neto (ex-presidente que se notabilizou por abrir na OMC os painéis contra o subsídio americano aos produtores de algodão e contra o subsídio europeu ao açúcar), na secretaria que lidava com comércio externo (2001/02), função em que pressionou o governo brasileiro para avançar nessas disputas inéditas que finalmente foram vencidas pelo Brasil. 

Renato Ticoulat, enérgico defensor da cafeicultura, foi o presidente da Rural que aproximou a entidade de outras instituições e da academia, com a antevisão do conceito de cadeias produtivas integradas, e mais tarde deu grandes estímulos ao café quando diretor de Comercialização do IBC (1989). 

Linneu Costa Lima foi secretário de Desenvolvimento Rural do Mapa de 2003 a 2007, tendo unificado a cadeia produtiva do café e orquestrado os leilões de opção de produto. Estimulou o moderno sistema de previsão de safra instalado na Conab. 

Mas não foi só em cargos públicos que os dirigentes desta nobre centenária organização se destacaram. Como dizia o pensador inglês H.G. Wells, “a história do mundo é essencialmente a história das ideias”. Nesse contexto, foram muitos os presidentes e diretores da Rural que tiveram papel relevante na formulação de políticas públicas com suas ideias inovadoras, entre os quais Sálvio Pacheco de Almeida Prado (que lutou pela instalação da Embrapa), Luis Hafers (que fez candente defesa da carne por ocasião da crise da “vaca louca”) e Cesário Ramalho, cuja atuação foi primordial na formulação do Código Florestal. 

Mas um desses homens brilhantes que forjaram a história é Flávio Teles de Menezes, que presidiu a Rural no turbulento período da redemocratização do Brasil depois do regime militar e, principalmente, nos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Com equilíbrio e enorme paciência, Flávio ajudou a fazer prevalecer na Constituição de 1988 os valores que eram os da Rural e que deram origem à Lei Agrícola e às modernas relações do Estado com o setor privado.

Pois é esse centenário “viveiro” de líderes – a Sociedade Rural Brasileira – que cede neste momento alguns de seus melhores quadros para os governos de São Paulo e do Brasil, recém-iniciados. Além de ter um diretor eleito deputado estadual por São Paulo, Frederico D’Avila, que há de jogar papel central na Alesp, a Rural viu seu ex-presidente Gustavo Diniz Junqueira ser guindado ao cargo de secretário da Agricultura do governo de João Doria. Com forte formação na área financeira, Gustavo dará atenção à recuperação das Instituições de Pesquisa e Extensão do Estado, tendo levado para sua equipe dois outros diretores da SRB: Rodrigo Castejon e Eduardo Camargo.

No âmbito federal, a Rural cedeu seu jovem diretor João Adrien para importante função no gabinete da ministra Tereza Cristina e ainda mais, viu seu ex-diretor jurídico Ricardo Salles assumir o Ministério do Meio Ambiente, em que deverá exercer a difícil missão de integrar a produção rural com a preservação dos recursos naturais, entre outras ações igualmente complexas na área urbana. 

Não faltam razões, como se vê, para uma orgulhosa celebração do centenário da Sociedade Rural Brasileira pela bela trajetória trilhada.

 

Nota da redação: o autor foi também presidente da SRB de 1994 a 1996, e secretário de Agricultura de São Paulo (1993/94) e ministro de Agricultura (2003/06)

* EX-MINISTRO DA AGRICULTURA E COORDENADOR DO CENTRO DE AGRONEGÓCIOS DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

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