'Um CEO de startup tem de vender o sonho'

Gustavo Furtado tem 33 anos e é CEO da Tricae - um site de comércio eletrônico especializado na venda de produtos infantis e sediado em São Paulo. Antes de dirigir esta startup, ele passou por grandes empresas como Microsoft e Siemens. Nesta, entrou como trainee e aos 24 anos foi expatriado para Alemanha, onde respondia pelas vendas da empresa para América Latina, Espanha e Portugal.

Entrevista com

TALITA FERNANDES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h12

Mesmo graduado em engenharia elétrica pela Poli-USP, Furtado sempre soube que queria seguir na área de gestão e de negócios. Acompanhou de perto os diversos processos das empresas por onde passou e fez MBA de gestão em negócios nos Estados Unidos, na Kellogg Management School. A seguir trechos da entrevista, na qual ele conta que sua carreira foi planejada e fala dos desafios de trabalhar em grandes multinacionais e em empresas que acabaram de sair do papel.

Apesar ser engenheiro, seu trabalho sempre foi com gestão e vendas. Por quê?

Eu sempre soube, desde que comecei minha carreira, que eu trabalharia na área de gestão. Nunca imaginei ser engenheiro de carteirinha e trabalhar na área técnica. Uma das formas de se chegar a isso é entrar em uma indústria e conhecer bem a área técnica, mudar para vendas e ir para o setor de gestão. Achei que seria muito complicado já começar em gestão sem conhecer muito os produtos que vendia. Foi essa a minha estratégia no início de carreira.

Por que escolheu engenharia?

Muitas pessoas que se formam em engenharia vão direto para bancos, para consultorias. No Brasil, fazer engenharia abre muitas portas. Esse foi um dos motivos para eu escolher o curso. Eu sabia que não estava escrevendo meu futuro em pedras, sabia que eu poderia ter outras escolhas.

Como você vê o e-commerce?

O varejo é uma das coisas que impulsionam o PIB brasileiro. Não o mercado de varejo físico, mas o varejo online é um negócio que vem crescendo assustadoramente e eu acredito piamente que vai continuar crescendo nos próximos anos. Cada vez mais há novas empresas entrando (no mercado) e, ao contrário do que existia antigamente - eram grandes varejistas que focavam em todas as categorias, mas que acabavam vendendo majoritariamente livros, eletrônicos e eletrodomésticos -, agora cada vez mais surgem novas categorias.

Quais foram os principais fatores que te motivaram a trabalhar fora do País?

Eu não tinha muito claro na minha cabeça se faria carreira em uma multinacional ou se iria empreender. Mas, partindo do pressuposto de que eu poderia trabalhar em uma multinacional, é super importante conhecer as pessoas que trabalham na matriz. Profissionalmente, é muito importante, porque você faz uma rede de relacionamentos muito forte, isso dá sustentação quando volta para filial. Outra coisa é que se fica muito próximo do desenvolvimento dos produtos e do planejamento estratégico da empresa. Na esfera pessoal, eu acho que é bastante importante também saber como outras pessoas, de outras culturas pensam, como elas trabalham. E, assim, acabar trazendo o melhor dos mundos para você.

O que foi determinante para você assumir cargos de responsabilidade tão jovem?

Foi constante em toda minha carreira sempre buscar desafios maiores do que parecia que eu poderia agarrar no momento. Quando eu entrei na Siemens, eu sempre fiz de tudo para tentar assumir responsabilidades maiores do que eu tinha e uma delas foi conseguir ser expatriado para a Alemanha. Eu era super jovem, tinha 24 anos e foi super assustador, porque o cargo era muito mais sênior do que aquele que eu ocupava no Brasil. Mas sabia que alguém só ganha maturidade quando realiza atividades que o fazem se superar. É o medo que move.

Como foi mudar de empresas grandes, como a Microsoft e a Siemens para uma startup?

Em uma startup que não existe nada, você acaba sendo responsável por tudo. Na fundação da empresa, eu resolvia tudo, eu fazia trabalhos do financeiro, do demonstrativo de produto, resultados. Atuei muito na implementação da plataforma, estruturei a área comercial, a área de marketing. Isso foi uma adaptação, foi uma coisa super diferente que fiz. Tomava dez decisões por dia, o que levaria um mês em uma empresa grande. Há muito menos pessoas para consultar e há muito mais agilidade para implementar. Foi a primeira grande diferença que notei.

Quais foram suas impressões ao assumir o cargo de CEO?

Super desafiador. Não há uma pessoa para mostrar o caminho. Tudo que se faz é por conta própria. Naturalmente, existe uma pressão muito maior do que eu tinha tido até agora: pressão de investidor, pressão por resultados, pressão de pessoas que trabalham para você. A pessoa tem de se conhecer muito bem antes de tomar uma decisão dessa (de se tornar CEO). Não é que seja só intelectualmente desafiante, é mesmo uma decisão de vida, de se perguntar: 'eu quero me expor a esse tipo de trabalho? A esse tipo de vida e de pressão?'. Há pessoas que têm mais esse perfil, outras têm menos perfil, e não que haja uma intelectualmente menos capacitada do que outra.

Como deve ser um CEO?

Acho que uma das coisas cruciais é ter atitude. Tem de ter iniciativa e não ter medo de botar a mão na massa, acho que isso é uma coisa muito importante. Tem que vender o sonho. É muito difícil vender uma empresa que está nascendo e não tem histórico nenhum e trazer e engajar pessoas para que deem o máximo de si. O lado motivacional, de ter atitude, de ser multitarefa é super importante.

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