Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Um CEO que busca promover a igualdade racial para não ser mais a exceção

Após cliente lhe entregar as chaves para que manobrasse carro, Eduardo Santos, presidente da EF Corporate Education, fomenta ações afirmativas

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 05h00

Em outubro de 2018, o executivo Eduardo Santos passou a fazer parte de uma ainda modesta estatística no Brasil e também no mundo: Santos, um homem negro, foi promovido ao cargo mais alto de uma empresa. Porém, naquele mesmo mês, ele viveu uma situação comum no cotidiano da população negra brasileira. 

Ao chegar para fazer uma visita de rotina em uma loja de EF Corporate Education, empresa que cuida principalmente de intercâmbios de jovens, recebeu a chave de um carro de um cliente, que o confundiu com um manobrista. “Peguei a chave, fiz uma ótima baliza e a entreguei de volta. Depois, por coincidência, a atendente que estava com ele me chamou para me apresentar como o CEO da empresa”, diz ele, que preferiu não tirar nenhum tipo de satisfação. “Ele ficou visivelmente desconfortável, mas não fez nenhum tipo de comentário nem se desculpou.”

O caso foi um divisor de águas na carreira de Santos. Não que ele nunca tivesse sentido o peso do racismo antes, pelo contrário. Santos teve uma infância e uma adolescência bem comum para adolescentes negros. Morador do bairro Cidade Patriarca, na zona leste de São Paulo, tinha um sonho popular entre os jovens: ser jogador de futebol. 

Ele até conseguiu dar uns passos na carreira e fez parte da equipe de base da Portuguesa Santista, de Santos (SP), mas a falta de dinheiro na família fez com que seus pais pedissem que ele abandonasse o sonho para começar a trabalhar e fazer uma faculdade.

Profissão

A escolha pela área da tecnologia e o domínio do inglês, após fazer um curso pago pelo seu tio, impulsionaram a carreira. Ele chegou por acaso na área, após ser convidado por um amigo para trabalhar no datacenter de um banco. De lá para o cargo de presidente na EF, foram 13 anos. 

Mesmo assim, o episódio de ser confundido com um manobrista o fez lembrar de que ele é apenas uma exceção e que, mesmo com a posição que ocupava, muitos ainda não o enxergavam como tal.

Por isso, ele começou uma cruzada para aumentar o contingente de negros com acesso ao inglês. Como Santos toca o negócio de vendas corporativas, iniciou a discussão com os seus clientes, que começavam a se movimentar. O Uber deu o primeiro passo, em 2018. A EF ajudou a estruturar um programa corporativo de idiomas para a formação de profissionais da área de atendimento. Santos logo alertou para a necessidade de os funcionários negros serem contemplados.

De lá para cá, empresas como Bayer, Ambev e Bradesco também aderiram. No caso das duas primeiras, a EF é a fornecedora dos cursos de idiomas para os programas de trainees para negros. Com o Bradesco, a companhia fechou um contrato para o fornecimento de cursos para os mais de 90 mil funcionários da empresa espalhados pelo Brasil, além da cessão de 2,5 mil bolsas para estudantes da Universidade Zumbi dos Palmares.

Só o começo

Santos sabe que é só o começo, mas diz acreditar que a possibilidade de fazer jovens negros e periféricos estudarem inglês pode a ajudar a diminuir algumas das barreiras deles no futuro. “Queremos criar novas lideranças para o futuro, e isso só será possível fornecendo a elas um conteúdo de qualidade.”

O executivo também cobra das empresas mais ação para que a mudança seja mais rápida e para que outros negros alcancem a mesma posição que ele conseguiu. Santos não quer ser mais exceção. 

“Não adianta se dizer antirracista e não fazer investimento para mudar. Isso precisa escalar. Não basta fazer uma postagem no LinkedIn dizendo que não é racista”, diz o executivo.

Lição de casa

Dentro da EF, Santos também tenta fazer parte dessa mudança. Quase a metade dos 650 funcionários da empresa no Brasil são pretos ou pardos e todos têm acesso gratuito a cursos de idiomas – e eles não têm a obrigação de terem qualquer tipo de fluência para entrarem na companhia. 

No andar de cima, a empresa também busca a diversidade. Dos oito cargos diretivos da EF no País, três são negros. Na questão de gênero, seis são mulheres. A empresa também incentiva a criação de grupos de diversidade para entender como melhorar a questão internamente. O próprio Santos é o embaixador global do tema de raça na EF. “Os nossos comitês são horizontais com cargos desde analista júnior até diretores e todos são ouvidos”, garante. 

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