Leah Millis/Reuters
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Um conto de dois mundos

Problemas políticos gerados pela publicação de tuítes e confronto na relação comercial com o governo da China

Barry Eichengreen*, O Estado de S. Paulo

29 de dezembro de 2019 | 05h00

Do ponto de vista econômico, 2020 está se configurando como um conto de dois mundos: o mundo dos países avançados e o mundo dos mercados emergentes.

O mundo dos países avançados verá algum reequilíbrio econômico e, como resultado, um abrandamento de tensões. As taxas de crescimento nos Estados Unidos provavelmente diminuirão. Certamente ninguém – com certeza não o Fed – pode estar confiante sobre o que se constitui pleno emprego nos Estados Unidos, dada a ascensão da economia “gig” e as mudanças estruturais relacionadas. Mas com o desemprego em 3,5% e os aumentos salariais acelerando, o mercado de trabalho está cada vez mais apertado. A aceleração da inflação salarial significa que o Fed acabou de fazer cortes nas taxas. Além disso, neste momento, qualquer impulso do estímulo fiscal de 2019 de Trump só é visível pelo espelho retrovisor.

Enquanto isso, a expansão na Europa e no Japão está prestes a se acelerar. A zona do euro, o Reino Unido e o Japão estão se preparando para fornecer mais apoio fiscal ao crescimento em 2020. Alguns desses programas fiscais, como o da zona do euro, podem ser criticados por serem inadequadamente ambiciosos, enquanto outros, como as promessas feitas pelo Partido Conservador nas recentes eleições no Reino Unido podem ser denunciados como irresponsáveis.

Seja como for, essas economias experimentarão mais incentivos. O Reino Unido se beneficiará de menos incerteza eleitoral ou relacionada ao Brexit. Por terem crescido mais lentamente que os EUA, essas economias terão mais espaço para acelerar. Além disso, o BCE e o Banco do Japão manterão seus programas de compra de ativos, enquanto o afrouxamento monetário da parte do Fed terminou, impedindo um choque negativo inesperado no crescimento dos EUA.

Essas são boas notícias, na medida em que as taxas de câmbio se movem com taxas de crescimento relativas. Por vários anos, uma economia americana relativamente robusta contribuiu para um dólar forte, para o desconforto do presidente Trump. Trump vê um dólar forte como algo que frustra seus esforços de trazer de volta os “bons empregos na manufatura” aos Estados Unidos, enquanto reduz o déficit comercial. Isso, por sua vez, o faz atacar os parceiros comerciais dos EUA, abalando os mercados financeiros globais.

À medida que o crescimento na Europa e no Japão se recupera em relação ao dos Estados Unidos, o euro e o iene se fortalecerão em relação ao dólar. Isso não garante que Trump esteja causando problemas, e os tuítes instáveis e ações do presidente ainda constituam um dos principais riscos para esse cenário benigno. Mas um dólar mais fraco removerá pelo menos um ponto crítico óbvio para o conflito internacional.

Na Ásia, as vendas de semicondutores estão se recuperando, proveitosamente para Taiwan e Coreia do Sul. Os cortes de impostos na China na primavera passada continuarão apoiando os gastos e o crescimento naquele país, embora outros ventos contrários – o problema da dívida e as tensões comerciais – operem contra qualquer aceleração do crescimento e proporcionem uma desaceleração ainda mais modesta. Com a taxa de crescimento caindo levemente nos EUA e na China, não há razão para a taxa de câmbio dólar-yuan se mover de uma maneira ou de outra.

Isso significa que as tensões comerciais entre os EUA e a China continuarão a fervilhar, com ou sem o acordo comercial “Fase Um”. Mas, embora a guerra comercial de Trump não termine em 2020, ela também não explodirá. Os dois lados parecem ter aprendido a administrá-la – ou pelo menos os chineses parecem ter aprendido a lidar com Trump.

O país com mais amor pelo acordo comercial da “Fase Um”, é claro, é o Brasil, uma vez que mais importações chinesas de soja dos EUA significarão menos do Brasil. Isso nos leva à outra América Latina, metade da história. Aqui os desequilíbrios e tensões parecem prestes a persistir e, no mínimo, piorar. A Venezuela é um desastre e a Argentina mostra todos os sinais de se tornar um também. O novo governo parece preparado para aumentar os gastos públicos e afrouxar a política monetária sem abordar os problemas do lado da oferta da economia.

Nem o Fundo Monetário Internacional nem os investidores estrangeiros têm qualquer simpatia por seu programa. Isso pressagia inflação e depreciação do peso, em resposta aos controles que o governo vai impor, resultando em outra crise. O México se beneficiará da conclusão bem-sucedida do Nafta 2.0, mas tem uma violência epidêmica que não consegue resolver. Isso mina a confiança, tanto que a economia parece que irá se contrair no próximo ano.

O que poderia fazer uma diferença positiva para a região? A resposta óbvia é o Brasil. A economia do Brasil continua sendo duas vezes maior que a do México e cinco vezes a da Argentina. O governo concluiu a reforma previdenciária. Mas Bolsonaro agora recuou da implementação de reformas fiscais e administrativas, temendo distúrbios populares como os que eclodiram no Chile e na Bolívia. Se vai permanecer ou não nessa rota determinará se as entradas de investimento estrangeiro vão aumentar e se a taxa de crescimento do Brasil, atualmente baixa, se acelerará em 2020.

Bolsonaro está certo em temer que funcionários públicos, em particular os que ganham menos, não reajam bem às reformas do setor público que eliminam suas garantias de emprego e promoções automáticas. Mas, se ele adotar essas medidas juntamente com reformas que tornam o sistema tributário brasileiro mais progressivo, o que ele tira desses trabalhadores com uma mão, será devolvido com a outra. A implicação é que as reformas precisam ser projetadas e apresentadas como um pacote.

“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Era a era da sabedoria, era a era da tolice.” Assim escreveu Charles Dickens em Um Conto de Duas Cidades. Ele poderia estar escrevendo sobre o próximo ano. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*BARRY EICHENGREEN É ECONOMISTA, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY

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