Um coquetel explosivo

Uma guerra comercial entre China e Estados Unidos poderá ser o estopim para uma nova recessão mundial

José Marcio Camargo, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 04h00

A ameaça de introduzir tarifas sobre as importações de aço e alumínio por parte do governo americano, o anúncio de que o país irá taxar US$ 60 bilhões de produtos chineses, a discussão em torno do respeito aos direitos de propriedade intelectual das empresas americanas na China e as reações do governo chinês prometendo retaliar com a introdução de tarifas sobre produtos americanos passaram a dominar o cenário internacional nas últimas semanas.

Estas ameaças indicam uma mudança da política de comércio internacional do governo americano em direção a uma postura mais protecionista. Neste sentido, a nova política estaria “apenas” cumprindo uma promessa de campanha do presidente Donald Trump. 

Existe uma sensação generalizada na sociedade americana, dentro e fora do governo, de que as relações comerciais entre os Estados Unidos e a China são desleais e desiguais. A China é um dos países mais protecionistas do mundo e os Estados Unidos o menos protecionista. Segundo esta percepção, houve leniência do governo Clinton quando da definição das condições para a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, assim como complacência dos governos de George W. Bush e Barack Obama na relação comercial com o país. E é exatamente esta percepção de injustiça quanto ao comércio entre os dois países que está na origem tanto da eleição de Donald Trump quanto da atual situação. 

Por outro lado, existe um consenso entre analistas de que uma guerra comercial entre as duas maiores potências comerciais do mundo poderá ser o estopim para uma nova recessão mundial e que, por causa da sua dependência das exportações e do seu menor poder econômico, o país mais prejudicado seria a China. Por esta razão, ainda que não se possa descartar, à priori, uma guerra comercial, apesar das declarações belicosas, se a questão for puramente comercial, no final das contas algum tipo de acordo poderá ser construído.

Entretanto, uma observação mais cuidadosa sugere que a questão é mais profunda do que simplesmente protecionismo. É, na verdade, uma disputa pela hegemonia econômica e política no mundo. O objetivo declarado da China é se tornar a maior economia do mundo até 2025. Com este objetivo em mente, o país passou a adotar uma política de absorção de tecnologia desenvolvida pelas empresas estrangeiras, principalmente americanas, e de incorporação destas tecnologias às empresas chinesas.

A estratégia adotada pelo governo chinês de condicionar a instalação de empresas americanas e o acesso das mesmas ao mercado interno do país à transferência forçada de tecnologia é uma atitude desleal e contraria as leis internacionais de respeito aos direitos de propriedade intelectual. 

Por outro lado, as empresas estatais chinesas aumentaram a agressividade de seus investimentos fora da China, principalmente, mas não apenas, nos países emergentes, com concentração em setores de geração de energia e recursos naturais, o que sugere uma estratégia de busca de hegemonia econômica e política no mundo.

Nesta interpretação a guerra comercial é apenas a ponta de um iceberg. Para os Estados Unidos, a questão fundamental é de segurança nacional, o que exige um grande esforço para vencer a corrida por supremacia tecnológica, que está na raiz da hegemonia mundial. A nomeação de Mike Pompeo como secretário de Estado aponta nesta direção. Restrições à transferência de tecnologia, à entrada de investimentos diretos chineses na economia americana, a investimentos de empresas americanas na China e a introdução de cotas de vistos para estudantes chineses estudarem em universidades americanas podem ser os passos seguintes. 

Para complicar, as principais lideranças mundiais envolvidas têm tido um comportamento totalmente imprevisível. A combinação de um cenário geopolítico delicado com imprevisibilidade das lideranças políticas forma um coquetel que poderá se mostrar explosivo no futuro próximo.

PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO E ECONOMISTA DA OPUS INVESTIMENTOS

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