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Um corte voluntarioso?

A questão é encontrar um equilíbrio entre tornar mais barato o custo do dinheiro, via juros básicos mais baixos, sem sinalizar que o Banco Central voltou a ter uma postura mais leniente no combate à inflação

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2016 | 05h00

A redução da taxa básica de juros, atualmente em 14,25%, ainda neste ano é uma decisão já tomada pelo Banco Central, quer seja o corte apenas em uma ou nas duas reuniões restantes do Comitê de Política Monetária (Copom) em 2016. É essa conclusão que se deduz tanto das análises feitas após a divulgação do comunicado que acompanhou a última decisão do Copom, na semana passada, como da ata desse encontro, divulgada na terça-feira. Para os analistas e investidores, a sinalização do BC foi clara: o início do ciclo de corte de juros está próximo. A única dúvida é se o afrouxamento monetário terá início em outubro ou em novembro. 

Na mais recente pesquisa Focus, do BC, os analistas projetam um corte de 0,50 ponto porcentual da taxa Selic, para 13,75%, até o fim deste ano. Ao longo de 2017, os analistas apostam que o BC reduzirá mais ainda os juros, encerrando o ano a 11%. Há, contudo, quem acredita que a redução da Selic no ano que vem possa ser ainda mais profunda, com o juro básico caindo para apenas um dígito. Muitos creem que o BC poderá ser tanto mais agressivo no corte de juros quanto mais cauteloso for para iniciar esse ciclo de afrouxamento. O argumento é que a instituição, comandada por Ilan Goldfajn, precisa consolidar sua credibilidade, que foi arranhada na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, e assegurar a convergência das expectativas inflacionárias para o centro da meta, de 4,5%, especialmente até o fim de 2017.

Não há como negar que uma redução dos juros básicos poderia contribuir para a economia brasileira sair mais rapidamente da recessão que a atinge desde o ano passado, acelerando a recuperação da atividade econômica. Não há como negar também que a ala política do governo Michel Temer gostaria de ver os juros caírem mais cedo do que tarde. A questão, portanto, é encontrar um equilíbrio entre tornar mais barato o custo do dinheiro, via juros básicos mais baixos, sem sinalizar para os agentes econômicos que o Banco Central voltou a ter uma postura mais leniente no combate à inflação e na ancoragem das expectativas inflacionárias.

Nos seus últimos documentos oficiais, o BC retirou a mensagem de que não haveria espaço para cortar juros no curto prazo. Essa foi a senha para analistas e investidores interpretarem que o início do ciclo de redução da Selic está próximo. Mas a instituição também disse que, para os juros caírem, são necessários três fatores: a) que a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação seja limitada; b) que os componentes do índice oficial de inflação mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indiquem desinflação em velocidade adequada; c) que ocorra redução da incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia, a exemplo do ajuste fiscal. Além disso, o BC disse que nenhuma dessas três condições é isoladamente necessária ou suficiente para a decisão de cortar os juros. 

Assim, o BC conferiu um grau significativo de subjetividade ao julgar se esses três requisitos ou, ao menos dois deles, foram atendidos para que o ciclo de corte de juros tenha início. Tome-se o exemplo do ajuste fiscal. A autoridade monetária cita apenas a “redução de incerteza” sobre a aprovação das medidas. Ou seja, independentemente de quão avançada esteja a tramitação no Congresso, por exemplo, da proposta de emenda constitucional (PEC) que limita o crescimento dos gastos públicos, o BC poderá considerar que a incerteza é menor quanto à sua aprovação, mesmo que as dúvidas persistam para muitos investidores e analistas.

Portanto, se por acaso o BC decidir reduzir os juros básicos na reunião do Copom marcada para 18 e 19 outubro, ele poderá fazê-lo sem ser acusado de ter calibrado erroneamente as expectativas do mercado. Afinal, antecipar em um mês o início do afrouxamento em relação às apostas de corte em novembro não resultará em custo grande nas projeções de inflação. Até porque Goldfajn conquistou esse crédito ao estabelecer uma comunicação mais transparente com o mercado. 

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