Um discurso que possa ser levado a sério

O aspecto mais preocupante do pronunciamento oficial da presidente Dilma, domingo passado, foi a teimosa insistência num discurso que já não tem como ser levado a sério. É desalentador que, a esta altura dos acontecimentos, o Planalto ainda não tenha notado que o discurso que agora se faz necessário é o que seja capaz de sensibilizar os segmentos mais informados da sociedade, que percebem com maior nitidez o que de fato está ocorrendo no País.

Rogério L. Furquim Werneck, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2015 | 02h04

Já não faz nenhum sentido continuar brandindo os surrados argumentos fantasiosos a que Dilma se agarrava, na campanha eleitoral, para racionalizar as dificuldades que o País já vivia e dissimular a gravidade da crise que teria de ser enfrentada. A vertiginosa deterioração de popularidade e de imagem que vem sofrendo a presidente, desde a eleição, é evidência inequívoca de quão mais restrita se tornou a parcela da opinião pública que ainda pode ser manipulada pelo ilusionismo marqueteiro que continua a pautar o discurso do Planalto.

Dilma tem todo o direito de insistir na história de que as graves dificuldades com que agora se debate o País decorrem de um suposto agravamento da crise econômica mundial e da adversidade climática que se abateu sobre o Brasil. Mas não pode reclamar do efeito devastador sobre sua imagem que esse discurso enganoso vem tendo entre segmentos minimamente informados da população. Prospera na cúpula do governo o argumento de que, na esteira da polarização que marcou a campanha presidencial, boa parte desses segmentos se tornara irremediavelmente hostil ao governo. Não tendo como angariar seu apoio, a presidente estaria obrigada a manter um discurso cada vez mais voltado para as camadas menos informadas da opinião pública.

Será um grave equívoco se o Planalto se deixar levar por tal desalento. Não se trata de reconquistar votos dos segmentos mais informados da população, mas, sim, de conter a avassaladora perda de respeito pela presidente que vem sendo induzida pela sua insistência em alegações flagrantemente enganosas sobre as graves dificuldades que o País enfrenta.

A presidente precisa adotar um discurso que o País como um todo possa levar a sério. Para chegar a isso, o Planalto tem de controlar seu ímpeto mistificador, reconhecer erros passados e estar disposto a incorrer nos custos de dar o dito por não dito e pregar o contrário do que vinha propalando como certo. Não parece fácil, mas não lhe resta alternativa mais promissora.

Há poucos dias foi noticiado que o "excesso de sinceridade" de Joaquim Levy vem preocupando o Planalto. Faltaria ao ministro da Fazenda a capacidade de manter "um discurso de continuidade", compatível com o fato de que "estamos vivendo o 5.º ano de mandato da presidente Dilma, e não o 1.º ano da gestão Levy" (Estado, 8/3).

A crítica bem ilustra o que tem sido especialmente prejudicial ao governo: a preocupação permanente em encobrir os desastrosos equívocos cometidos no 1.º mandato. Uma preocupação que não é só de Dilma. Há que ter em conta que boa parte dos responsáveis por tais equívocos segue no governo.

Se atribuir importância excessiva à vã tentativa de dissimular os estragos provocados por sua lamentável atuação no 1.º mandato, Dilma poderá acabar pondo a perder seu segundo governo. Já é tempo de ela perceber que é tentar tapar o sol com peneira. Os erros colossais que vem tentando encobrir já são amplamente conhecidos. Só não os vê quem não quer. É hora de reconhecê-los, aguentar o tranco dos custos políticos remanescentes que esse reconhecimento possa acarretar e limpar o terreno para o 2.º mandato.

Visto dessa perspectiva, o "excesso de sinceridade" de Joaquim Levy talvez seja exatamente o que falta ao governo para deixar de lado a mistificação e, afinal, adotar um discurso econômico que possa ser levado a sério. Mas terá Dilma convicção e respaldo político para dobrar a aposta em Levy? Ou continuará tentando descer a corredeira com um pé em cada canoa?

*Rogério L. Furquim Werneck é economista, doutor pela Universidade Harvard e professor titular do departamento de Economia da PUC-Rio 

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