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Um economista na tomografia

O que mais podemos fazer na extrema adversidade, senão refletir?

Gustavo H.B. Franco, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

Sendo um otimista incorrigível, pensei em aproveitar minha curta estadia nas entranhas de uma máquina de tomografia, e mais genericamente o tempo nublado, inclusive pela sombra das queimadas, para escrever sobre o sentido da vida.

Entendo que o leitor possa achar meio impróprio para o caderno de economia, mas gostaria de lembrar que a economia é sobre a humanidade e, particularmente, sobre o almoço (que, como se sabe, não é grátis), e que a doença é uma lição de humanidade.

O que mais podemos fazer na extrema adversidade, senão refletir?

A fragilidade do corpo é uma observação comum diante dos incidentes que afetam a saúde a que todos estamos sujeitos.

Cada tijolo que cai sobre a sua cabeça, ou no qual se tropeça, produz não apenas estragos muito reais, como também aguça a sensação de que estamos correndo inúmeros riscos invisíveis diante dos quais não temos defesa. Talvez aí esteja a pior parte dessa sensação de fraqueza diante de tijolos e micróbios: a lógica, ou falta dela. A maior parte do que nos atinge é totalmente aleatório, e não é nenhum castigo dos céus. Não tem de ver com omissões e desleixos, não é menos exercício, remédio, vitamina, caridade ou gentileza. Não há narrativa ou desígnio. É simplesmente o acaso. 

As balas perdidas estão, ao que tudo indica, descorrelacionadas com seus atos e feitos. Portanto não há culpa, até pelo contrário, você é vítima inocente, dano colateral, você não se expôs (porque estava no ponto de ônibus), não foi irresponsável ou displicente, não desobedeceu aos médicos, às regras e regulamentos. Há bandidos e policiais descontrolados trocando tiros, sem se importar com a vizinhança. Não é sua culpa, e nesse caso há responsáveis que ficam se escondendo e a você cabe desviar-se dos tiroteios.

Do seu ponto de vista (da vítima), todavia, resta o acaso, um Deus ilegível, estéril em significados e mensagens, sobre o qual não se ergue uma Igreja, um Evangelho, um sentido. Seria melhor, diz Slavoz Zizek, que tudo fosse um castigo divino, pois assim haveria todo um universo por onde se procurar o sentido. Mas não é assim que funciona.

Assisti noutro dia uma extraordinária conferência (no Fronteiras do Pensamento) do filósofo inglês Roger Scrutton sobre o sentido da vida. E ouvi coisas muito úteis para trazer para dentro de uma máquina de tomografia. Ele entende o inconformismo diante da ideia de que a vida simplesmente acontece e que não possui nenhum significado ou propósito, nenhuma mensagem. Somos criaturas famintas de sentido, diz ele, com toda razão, mas o sentido será sempre definido pelo Outro (do contrário há conflito de interesses).

Isso deveria nos oferecer uma espécie de salvo conduto, aqueles que se pautam por um propósito meritório devem merecer melhor tratamento dos determinantes de doenças, balas e tijolos. Talvez.

Ouvindo os ruídos caóticos da máquina de tomografia, todavia, eu penso na 1.ª Guerra Mundial (o barulho deve ser o mesmo), a mais tola e inútil, a que consagrou a metralhadora, que tornou obsoleta a cavalaria e a bravura, e a que se resolveu em torno do nada, de trincheiras que mal se moveram durante vários anos, mesmo diante de enormes perdas. Me ocorre que a insensatez apenas produz a certeza de mais insensatez, e que esse não é um bom ambiente para a mudança de modelo econômico na direção de uma economia de mercado como é recomendável para o Brasil.

Estou feliz com os avanços da liberdade econômica e da privatização, mas achando pouco: essas reformas são fundamentais e estão atrasadas uns 20 anos ou mais. Muitas coisas estão acontecendo, é verdade, mas me parece que a ideia que o Brasil precisa trocar de modelo econômico infelizmente não está madura, mesmo depois dos sucessivos fracassos da heterodoxia.

Há toneladas de entulho intervencionista a remover, um sentimento de genuína preguiça na área política e, pior, a sensação de que a agenda econômica liberal é secundária diante de uma outra, meio vaga, enfatizando a impertinência, que prejudica diretamente a coesão social, que muito ajudaria a troca de modelo econômico. 

EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA RIO BRAVO INVESTIMENTOS. ESCREVE NO ÚLTIMO DOMINGO DO MÊS 

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