CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO
CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO

Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2017 | 10h00

RIO – Um quarto da população, ou 52,168 milhões de brasileiros, estavam abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial em 2016, ano mais agudo da recessão. Esse é o total de brasileiros que vive com menos de US$ 5,50 por dia por pessoa, equivalente a uma renda mensal de R$ 387,07 por pessoa em valores de 2016. Os dados, da Síntese de Indicadores Sociais 2017, foram divulgados nesta sexta-feira, 15, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Quando considerada a Linha Internacional de Pobreza do banco multilateral, de US$ 1,90 por pessoa, 13,350 milhões de brasileiros, ou 6,5% da população total, vivem com menos desse valor por dia. Esse contingente é superior à população da capital paulista (12,1 milhões, segundo o IBGE). Conforme o IBGE, a linha de extrema pobreza do Banco Mundial equivale a uma renda mensal média de R$ 133,72 por pessoa do domicílio.

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Na prática, é como se cada pessoa desse grupo vivesse, ao longo de um mês, com valor insuficiente para pagar um tanque de 50 litros de gasolina no Estado de São Paulo - R$ 192,40, na média, conforme a pesquisa mais recente da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Ou com o equivalente a um terço do preço da cesta básica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em São Paulo, de R$ 423,23.

O estudo divulgado nesta sexta-feira usa os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), do próprio IBGE. Não há comparação com outros anos, porque uma mudança no questionário da pesquisa tornou os dados incomparáveis, informou o órgão, que, mês passado, prometeu para 2018 uma série histórica.

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Dados do Banco Mundial apontam que, em 2015, 4,34% da população, ou 8,939 milhões de pessoas, viviam abaixo da linha de US$ 1,90 por dia. Com a economia já em recessão, o contingente de extremamente pobres cresceu em 1,465 milhão de pessoas em relação a 2014, quando 3,66% dos brasileiros viviam abaixo dessa linha. Só que esses números não podem ser comparados com os divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE.

Nas contas de Marcelo Neri, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), 2016 foi o “fundo do poço” da pobreza. Usando dados também da Pnad e da Pnad-C, mas uma linha de renda mínima diferente, a equipe da FGV estimou que, após subir 9,95% em 2016, o número de extremamente pobres recuou 4,48% neste ano, até setembro, com o avanço na renda, impulsionado pela forte queda na inflação.

A queda começou em 2015, quando o contingente de pessoas abaixo da linha de pobreza da FGV saltou 19,33%. “Uma parte disso foi a inflação muito alta com o (benefício do) Bolsa Família congelado. (Em 2015,) A pobreza subiu pelo mesmo canal por que caiu”, disse Neri.

Os pesquisadores do IBGE frisaram que o Brasil não tem uma linha oficial de pobreza. Na Síntese de Indicadores Sociais, além dos patamares do Banco Mundial, foram usados o salário mínimo e os valores mínimos para adesão ao Bolsa Família. “O objetivo é ver a diferença no território, ver quem está mais exposto a esse baixo rendimento”, afirmou a coordenadora de População e Indicadores Sociais do IBGE, Barbara Cobo Soares.

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A pobreza está concentrada no Norte e no Nordeste. Pela linha de US$ 5,50 por dia, 43,1% dos habitantes do Norte e 43,5% dos moradores do Nordeste vivem com renda igual ou inferior a essa, contra os 25,4% na média nacional. Já na linha do US$ 1,90 por dia, 11,2% dos habitantes do Norte e 12,9% da população do Nordeste vivem nessas condições. São 7,3 milhões de nordestinos vivendo com essa renda, ou seja, mais da metade do total de extremamente pobres do País.

As condições sociais também influenciam na pobreza. Conforme o estudo do IBGE, na população de zero a 14 anos, 42,4% vivem em domicílios que possuem renda inferior aos US$ 5,50 por pessoa por dia do Banco Mundial. Já entre os arranjos familiares formados por mulheres de pele identificada como preta sem cônjuge e com filhos de até 14 anos, 64% vivem com renda inferior aos R$ 387,07 por pessoa por mês.

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Vinícius Neder, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2017 | 10h07

RIO – Ao aumentar o desemprego entre os jovens, a recessão elevou o número de brasileiros entre 16 a 29 anos de idade que nem estudam nem têm emprego nem estão em busca de um. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2017, divulgada nesta sexta-feira, 15, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o porcentual de jovens nessa situação, que se manteve estável de 2012 a 2014, saltou em 2015 e 2016, com efeito maior entre as mulheres, por causa dos serviços domésticos.

Em 2014, 22,7% dos jovens de 16 a 29 anos nem estudavam nem trabalhavam. Em 2016, essa fatia ficou em 25,8%. Como a parcela dos jovens dedicados aos estudos se manteve estável, a conclusão é que o aumento ocorreu porque muitos perderam os empregos e desistiram de procurar trabalho.

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“Esse aumento dos jovens que não estudam nem estão ocupados não é resultado da diminuição da frequência escolar. Veio do aumento dos jovens não ocupados”, disse Luanda Botelho, analista da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

Conforme as definições dos estudos sobre mercado de trabalho, “ocupados” são apenas aqueles com trabalho, formal ou não, enquanto os “desocupados” são aqueles que estão em busca de um emprego, dispostos a trabalhar, mas não conseguem uma vaga.

Para além da recessão, o fato de serem as principais responsáveis pelos afazeres domésticos exclui as jovens do mercado de trabalho. 

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A desigualdade entre homens e o de mulheres no grupo dos jovens que nem estudam nem trabalham se manteve entre 2012 e 2016, com ou sem crise – ano passado, 19% dos homens dessa faixa etária estavam nessa situação, enquanto o porcentual de mulheres era de 32,7%. Conforme o IBGE, as mulheres tinham, em 2016, 1,7 vez mais chances que os homens de estarem nessa situação.

Segundo Luanda, a diferença não pode ser associada à escolaridade, já que as mulheres são mais instruídas dos que os homens. A explicação para a desigualdade está em dados colhidos pela primeira vez na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C) de 2016, sobre os motivos pelos quais os jovens de 16 a 29 anos que nem estudam nem trabalham estavam nessa situação.

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Entre os homens, o motivo mais citado, mencionado por 44,4%, foi o fato de não haver “ocupação na localidade”, ou seja, faltavam empregos em sua região. Entre as mulheres, o motivo mais citado (por 34,6%) foi ter que “cuidar dos afazeres domésticos, do(s) filho(s) ou de outro(s) parente(s)”. Esse motivo também foi citado pelos homens – por 1,4% deles.

“Se o governo quiser fazer alguma política para esse grupo, isso não pode se dar sem alguma política de creches”, afirmou a coordenadora de População e Indicadores Sociais do IBGE, Barbara Cobo Soares.

A constatação corrobora um fato confirmado em outro recorte da Pnad-C de 2016, divulgado semana passada: a média de horas dedicadas a afazeres domésticos no Brasil era de 16,7 horas por semana em 2016, mas as mulheres trabalhavam 20,9 horas semanais, quase o dobro das 11,1 horas para os homens.

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Pobres vivem em domicílios com piores condições

Na média nacional, 62,1% dos brasileiros vivem em domicílios que possuem acesso simultâneo a abastecimento de água por rede geral, esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial e coleta direta ou indireta de lixo

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2017 | 10h03

RIO - As pessoas pobres no Brasil não vivem apenas com pouco dinheiro, mas as condições de vida em suas casas também são piores do que a média, revela a Síntese de Indicadores Sociais 2017, estudo divulgado nesta sexta-feira, 15, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na média nacional, 62,1% dos brasileiros vivem em domicílios que possuem acesso simultâneo aos três serviços de saneamento básico (abastecimento de água por rede geral, esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial e coleta direta ou indireta de lixo). Entre os 52 milhões de brasileiros que vivem com menos de US$ 5,50 por dia, uma das linhas de pobreza do Banco Mundial, 40,4% vivem em domicílios com esses três serviços.

Com essa abordagem, o IBGE procurou tratar a pobreza de forma “multidimensional”. “A pobreza é multidimensional, mas o dinheiro é uma unidade de medida. É mais difícil medir acesso a serviços”, afirmou Leonardo Queiroz Athias, analista da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

O estudo também mediu quatro “inadequações” das moradias (ausência de banheiro ou sanitário de uso exclusivo dos moradores; paredes externas do domicílio construídas predominantemente com material não durável; adensamento excessivo, ou seja, a presença de um número de moradores superior ao adequado no domicílio; e ônus excessivo com aluguel, ou seja, quando o gasto com aluguel iguala ou supera 30% do rendimento).

No conjunto da população, 12% moram em domicílios com ao menos uma dessas inadequações. Entre os que ganham abaixo de US$ 5,50 ao dia, são 26,2%. O destaque é o “adensamento excessivo”: na média nacional, 5,7% da população vivem nessas condições, enquanto entre os mais pobres são 14,2%.

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