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Um grito de não

O resultado foi mais do que um não à corrupção; foi um não ao sistema

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2018 | 04h00

O Brasil foi às urnas nesse primeiro turno e gritou não. Foram mais de 150 milhões de brasileiros que disseram, à sua maneira – e contra toda a resistência de um sistema político feito para se perpetuar –, que não querem mais esse caminho, que não se reconhecem nos que aí estão. Sejam eles bons ou maus.

Reclamávamos, com razão, de um sistema político que impedia a renovação. Pois bem, a renovação chegou atropelando o sistema. Foi consequência de uma vontade popular que se mostrou surpreendentemente forte e gerou resultados inesperados. Foi uma resposta aos escândalos de corrupção escancarados pela Lava Jato e pelas malas de dinheiro. Esses canalizaram votos para os que esbravejaram contra os antigos esquemas, contra o loteamento de cargos e de órgãos públicos e contra os favores privados à custa de dinheiro público.

Mas os resultados desse 7 de outubro foram também a negação das máquinas partidárias antiquadas, fisiológicas e desleais – muito desleais. Inaugurando uma modalidade de salve-se quem puder, os partidos históricos foram ignorados por uma enxurrada de votos que miraram candidatos cujas principais ferramentas eram uma câmera de celular e um exército – voluntário ou não – nas redes, nos aplicativos de celular e nos blogs com milhões de seguidores. O não foi além da corrupção, foi um não ao sistema.

Das votações para presidente, aos eleitos para as Assembleias Legislativas, políticos tradicionais foram preteridos. Movimento particularmente forte aconteceu no Senado onde apenas 8 dos 54 senadores que deixam a casa ao fim deste ano, se reelegeram. Para o bem, mas também para o mal, optou-se por novas vias. Algumas boas e outras nem tanto. A corrupção e o fisiologismo foram devidamente execrados, mas junto com eles jogamos fora também um bom naco de boas experiências. Mas isso é democracia e agora o que nos resta é torcer para que, ao final, as escolhas boas se sobreponham às más e que as perdas – e infelizmente as há – sejam compensadas pelos ganhos que quiçá vão neutralizar as escolhas desesperadas que fizemos nessa catarse de negação.

Votamos contra algo e não a favor de um projeto. Mas a realidade que nos bate à porta exige muito mais e nos lembra que ali fora há um país em crise a ser gerido. O presidente eleito em três semanas terá de propor e esse novo Congresso Nacional terá de discutir – e aprovar ou rejeitar, reformas imprescindíveis para que o Brasil volte a crescer. Se por um lado é alentador pensar que há sim excelentes novos nomes, cheios de vontade de contribuir e construir uma nação melhor para todos nós, há também uma boa parte – e em número cada vez maior, que são precedidos por patentes militares ou civis, títulos profissionais ou religiosos. E isso significa que temos, cada vez mais, representantes de segmentos de uma população que se subdivide. Difícil imaginar que esses votarão pelo todo e não pelas partes, quando tudo o que precisamos neste momento é que eles pensem no todo.

Temos uma necessária reforma da Previdência pela frente se quisermos evitar o colapso fiscal. Para aumentar a produtividade da economia, há que se discutir e alterar um sistema tributário caótico. Além disso, uma agenda de reformas microeconômicas precisa ser formulada, debatida e aprovada, juntamente com uma reforma do Estado, única garantia para que tenhamos, finalmente, serviços públicos de qualidade nas áreas de educação, saúde e segurança. Mas nada disso foi levado em conta nesse processo de negação, em particular nas escolhas feitas para o Congresso Nacional, apesar da sua enorme importância para qualquer agenda futura.

Nesse enorme grito de não ficamos na metade do caminho. Não sabemos ao que dizemos sim. Numa campanha marcada pelo ódio, pela intolerância, pelos ataques e pelo discurso raso, o desejo de mudança veio também cego e ignorante. Há ainda um segundo turno. Que ao menos nas próximas semanas não continuemos surdos, gritando não, quando temos a obrigação de fazer o caminho completo entendendo, discutindo e escolhendo com base no que sim queremos para enfrentar nossos grandes desafios, e não apenas naquilo que negamos.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETEEXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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