Um império construído imitando a Apple

Fã e seguidor de Steve Jobs, o chinês Lei Jun vende celulares com cara de iPhone

DAVID BARBOZA, THE NEW YORK TIMES / PEQUIM , O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2013 | 02h08

A China é conhecida por seus plágios. Mas agora surge a imitação de um dos deuses da engenhosidade americana: Steve Jobs. Num país onde produtos como o iPhone são fabricados, mas raramente inventados, Lei Jun- empresário e multimilionário - tem se colocado, junto com sua companhia, como herdeiro simbólico de Jobs. A mídia chinesa apelidou sua empresa, Xiaomi, de "Apple do Oriente".

O título é exagerado, sob todos os aspectos. Mas Lei, contudo, cultiva com zelo uma imagem "Jobsiana", como o uso de jeans e camisetas pretas. E também vende milhões de celulares muito semelhantes ao iPhone. Os consumidores chineses - e investidores estrangeiros abastados - parecem acreditar.

Mas o maior devoto de Lei pode ser ele próprio. Ele sobe nos palanques para apresentar os novos aparelhos. Afirma coisas que para muitos são extravagantes. Por exemplo: "Estamos fazendo coisas que outras empresas jamais pensaram antes".

Isso pode ser uma surpresa para Apple e Samsung Electronics, as duas gigantes dos smartphones. Mas o fato é que a Xiaomi vendeu US$ 2 bilhões de aparelhos no ano passado. Está se tornando uma força na China, o maior mercado de celulares do mundo. A expectativa é de que sua receita dobre este ano.

Lei, do seu lado, dificilmente evita comparações com a Apple e Jobs. Pelo contrário.

E por que não? Fundada há três anos por um grupo de engenheiros chineses, em 2012 a companhia vendeu 7 milhões de celulares com um design que imita a aparência e o toque do iPhone e cujo marketing parece saído do manual da Apple.

Não surpreende que a aspiração dos empresários é criar uma Apple chinesa. Muitos falam de tirar a China do beco sem saída como montadora de produtos de outras companhias. Até agora, porém, inovadores de fato são raros. No melhor dos casos, eles conseguiram adaptar a tecnologia de outros para o mercado chinês.

Lei tem atraído adeptos porque nenhuma empresa conseguiu contabilizar uma receita anual que alcançasse a marca de US$ 1 bilhão na China mais rápido do que a Xiaomi, nem mesmo a Amazon, que levou cinco anos para chegar aí.

Entre seus patrocinadores estão a Qiming Venture Partners, braço de capital de risco da Qualcomm and Digital Sky Technologies, companhia de investimento dirigida por Yuri Milner, que foi financiador do Facebook, do Groupon e Zynga.

A Xiaomi, de capital fechado, diz que levará anos até se registrar em bolsa. Mas está avaliada em US$ 4 bilhões. Se continuar nesse ritmo, será uma das mais valiosas no setor de tecnologia da China, depois da Alibaba, Baidu, Tencent e Netease.

Segundo os céticos, a Xiaomi produz imitações baratas do iPhone com poucas vantagens de hardware ou software. E é desafiada pela Apple e Samsung, que estão em posição de oferecer celulares baratos. Além disso, o poder de marketing de fabricantes locais como Lenovo, Huawei e a HTC de Taiwan, que juntos venderam recentemente 25% dos smartphones na China, não pode ser descartado.

A ascensão da empresa consolidou a reputação de Lei como um mágico no segmento das startups. Empresário e também investidor em novas empresas, Lei passou mais de uma década na empresa chinesa de software Kingsoft e a transformou em companhia de capital aberto em 2007. (Ele continua como chairman da Kingsoft, onde detém uma participação de US$ 300 milhões).

Ele também investiu em várias empresas de internet e de softwares de sucesso, incluindo a plataforma social online YY, que passou a ter ações na bolsa eletrônica Nasdaq no ano passado e está avaliada em US$ 1,63 bilhão. Um dos primeiros sucessos de Lei foi em 2004, quando a Amazon pagou US$ 75 milhões por sua empresa de e-commerce Joyo.com.

Celebridade. Lei fala pouco sobre sua vida pessoal, mas tem 5 milhões de seguidores no Sina Weibo, uma espécie de Twitter chinês, e é tratado como celebridade nos círculos de tecnologia. Ele cresceu perto de Wuhan, cidade industrial no centro da China, e estudou ciência da computação na universidade de Wuhan. Foi nos tempos de faculdade, em 1987, que leu um livro sobre Steve Jobs e decidiu copiá-lo. "Fui bastante influenciado pelo livro e queria criar uma empresa. Aí procurei terminar logo a faculdade."

Depois de concluir seu trabalho de fim de curso em dois anos, ingressou na Kingsoft, empresa chinesa de software. Engenheiro de talento com extraordinária habilidade na área de marketing, Lei subiu na hierarquia e virou diretor em 1998.

Na Kingsoft, encontrou tempo para criar a Joyo.com e se tornar um investidor em dezenas de empresas. "Ele tem visão", diz Liu Ren, amigo de Lei que dirige um fundo de investimento. "Ele vê as tendências antes dos outros e está sempre fazendo ajustes." Por exemplo, a Joyo começou como plataforma para download e no início a YY só fazia subscrições RSS.

Com US$ 41 milhões de financiamento inicial, Lei uniu-se a um ex-engenheiro da Google e Microsoft, Bin Lin, e mais cinco engenheiros, e fundou a Xiaomi num pequeno escritório na periferia de Pequim. O trabalho começou em 2010 numa plataforma de software para telefone adaptada do sistema Android, da Google. A empresa buscou as mesmas fornecedoras da Apple e contratou fabricantes que haviam trabalhado com a companhia, incluindo a Qualcomm, Broadcom e Foxconn.

Em agosto de 2011, lançou seu primeiro smartphone, o Mi-1, cujas vendas esgotaram em dois dias. O Mi-2 foi lançado em agosto de 2012 e vendido tão rapidamente que alguns analistas disseram que a empresa criou uma escassez artificial do aparelho para provocar alvoroço em torno do produto.

Para reduzir os custos, a companhia eliminou intermediários e distribuidores, vendendo diretamente pelo website. Esse tipo de marketing não só era algo novo na China, mas permitiu que a Xiaomi vendesse seus smartphones pela metade do preço de um iPhone ou um Samsung Galaxy. Lei espera que sua empresa venda mais de 15 milhões de aparelhos este ano.

A Xiaomi também terceiriza designs e acessórios online por seu chamado Mi-Fans e lança uma nova versão do sistema operacional toda sexta-feira para adicionar recursos e manter os Mi-Fans entusiasmados.

Um dos mais ricos empresários da China segundo a Forbes, Lei tem uma fortuna de US$ 1,7 bilhão e ajudou a criar três empresas multibilionárias na última década. "Não somos apenas uma empresa chinesa barata fabricando um telefone barato. Ainda seremos incluídos na lista da Forbes das 500 maiores." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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