Um Keynes inverossímil

Keynes reviraria no túmulo ao ver o seu nome associado à política econômica de Dilma Rousseff

Marcelo de Paiva Abreu*, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2016 | 05h00

Curioso o argumento de Luis Fernando Veríssimo em artigo publicado no jornal O Globo (25/9) intitulado Filhote, no qual, com base na derrota sofrida por Keynes na reunião de Bretton Woods, em 1944, lamenta o malogro do que ele julga serem os herdeiros do keynesianismo no governo Dilma Rousseff.

No que se segue não há hostilidade ao autor nem intenção de ser desmancha-prazeres na comemoração de sua efeméride. Tampouco quero ser mal-agradecido em relação ao seu pai, que me proporcionou bons momentos de leitura na juventude. Talvez o Vasco Bruno, de Saga, seja o personagem emblemático. Pelo menos ficou na memória, depois de tantas décadas.

O problema é que o artigo é profundamente equivocado. Está errado em relação à descrição do que ocorreu em 1944. Está errado com relação à posição de Keynes na reunião. Está errado com relação à contribuição de Keynes à recuperação da economia norte-americana no governo Roosevelt. Está profundamente errado com relação ao vínculo que poderia unir Keynes aos desastrados gestores da política econômica no governo Rousseff.

Ao contrário do que sugere o autor, a reunião de Bretton Woods em 1944 não tinha como objetivo “combinar como seriam as relações comerciais” no pós-guerra. Os EUA queriam desmantelar as preferências comerciais britânicas e eram muito críticos em relação à política de Londres quanto ao império que desmoronava. Mas comércio foi objeto de negociações posteriores a Bretton Woods, que levaram à constituição do Gatt, em Genebra, em 1947, e depois à frustrada Conferência de Havana. Em Bretton Woods, o objetivo era definir a arquitetura do sistema monetário internacional. Por isso esforços foram concentrados na criação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A ideia, aventada por Veríssimo, de que Roosevelt “condicionou” a entrada dos EUA na guerra ao lado do Reino Unido a seus objetivos quanto ao fim das preferências imperiais não se sustenta. Pearl Harbor e a surpreendente declaração de guerra de Hitler aos EUA fizeram a diferença.

Só na retórica o Keynes de Bretton Woods, como sugere Veríssimo, levava preponderantemente em conta interesses globais. Era um patriota. Defendeu heroicamente os interesses nacionais do Reino Unido e acabou derrotado. Seu plano quanto à arquitetura do futuro Fundo Monetário Internacional levava em conta a desesperadora posição do balanço de pagamentos britânico. Os EUA apresentaram o plano de Harry White, que cortava radicalmente os compromissos dos EUA com o financiamento do FMI. Quando tratou da enorme dívida do Reino Unido com a Índia e o Egito, acumulada durante a guerra, Keynes mostrou-se bem menos internacionalista do que sugere Veríssimo.

Veríssimo termina o seu artigo com um formidável non sequitur. Lamentando a derrota em Bretton Woods, menciona possível ingratidão dos EUA em relação a Keynes, pois havia sido “o teórico do dirigismo econômico de Roosevelt que salvou o capitalismo americano”. A literatura mais recente sobre a retomada econômica dos EUA nos anos 30 tende a enfatizar o papel da política monetária, em detrimento da política fiscal. Mas o artigo vai além: traça paralelo entre a derrota de Keynes em 1944 e a derrota dos “filhotes do keynesianismo, como no Brasil do PT. O discurso foi bonito, mas ganhou o outro lado. E o pesadelo continua”.

Pobre Keynes. Reviraria no túmulo ao ver o seu nome associado à política econômica de Dilma Rousseff e sua calamitosa mistura de subsídios insensatos, pedaladas fiscais e corrupção sistêmica. Menções a Keynes serviram para justificar políticas anticíclicas para enfrentar a crise em 2008. Depois disso, Keynes serviu de biombo para tentativas de justificar políticas econômicas que levaram o País à ruína. Ou alguém ainda acha que não levaram?

Críticas ao impeachment, para que não dependam só do fígado, devem tratar melhor os fatos.

*Doutor em Economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular no Departamento de Economia da PUC-Rio

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