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Um magnata na cadeia

Intriga a razão pela qual Carlos Ghosn prevaricou, já que ele ganha fortunas

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2018 | 06h30

A França tem hoje dois rostos. Não há nenhuma relação entre eles. No entanto, seus donos adotam misteriosamente um discurso parecido. Diria que seu surgimento, no mesmo dia, foi organizado pelo mesmo demiurgo perverso, genial e impiedoso.

O primeiro rosto é o da “gente de baixo”, que desde sábado paralisa a França. São homens e mulheres que têm empregos medíocres, trabalham muito, ganham pouco e não recebem nenhuma consideração. Sua renda é minúscula, suas mãos são calejadas, seu sotaque é interiorano e seu francês é cheio de erros. Usam roupas da Idade Média e trazem na face uma inesgotável tristeza.

A “gente de cima” mal olha para eles. Há dois dias, porém, é obrigada a vê-los. Primeiro, porque bloqueiam estradas, encruzilhadas, pontes, pedágios; segundo, porque usam vistosos coletes amarelos.

O segundo rosto é o do mais famoso, mais brilhante e mais carismático dos patrões franceses – Carlos Ghosn, presidente da Renault, da Nissan e da Mitsubishi, que está preso no Japão. O jornal Asahi Shimbun informou que Carlos Ghosn foi preso por suspeita de fraude fiscal e outras pequenas vilanias. O mundo financeiro entrou em pânico. As ações da Nissan caíram 11,3% em minutos. Os papéis da Renault desmoronaram.

Adoraria prosseguir com o paralelo entre os “coletes amarelos” e Carlos Ghosn. Mas me detenho, pois como resumir a vida, a carreira e a voz dos coletes amarelos, uma vez que eles se revoltam justamente por não terem vida, carreira ou voz? São gente sem biografia. Por um ou dois dias, saíram de seu gigantesco silêncio para a ele retornar amanhã, ou em uma semana.

Fico então em Carlos Ghosn, que tem uma enorme biografia (ou três, ou quatro, ou até mais biografias).

Carlos Ghosn nasceu em Porto Velho, Norte do Brasil, onde seu pai, libanês cristão, se estabelecera. Com 2 anos, o pequeno Carlos adoeceu e precisou se tratar no Rio. Aos 6 anos, a doença não havia desaparecido e ele foi levado para Beirute. Aos 16 estava em Paris, ingressando na mais prestigiosa escola francesa, a Politécnica. Começou então sua corrida para o sucesso e o triunfo.

Hoje ele dirige três gigantes da indústria automobilística. Seu império alcançou com ele o primeiro ou segundo lugar no ranking mundial das montadoras, fabricando 10.608.366 de veículos por ano e faturando mais que o PIB da Hungria. O bebê doentinho de Porto Velho tornou-se um príncipe do universo.

Esse príncipe está na cadeia. O que é intrigante é a razão pela qual ele prevaricou por algumas centenas de milhares de euros, já que normalmente ganha fortunas. Há um ano, exigiu por seu trabalho na Renault honorários tão altos que a França, dona de 20% da montadora, obrigou-o a reduzir sua pretensão em 20%. De qualquer forma, ele ganha anualmente na Nissan US$ 6,5 milhões e na Renault US$ 8,5 milhões, e provavelmente mais alguns dólares por outros trabalhinhos. É também o único executivo do mundo a dispor de um jato privado capaz de voar 12 mil quilômetros sem escala.

Celebridade. Entre seus pares, Carlos Ghosn é respeitado, admirado e tratado com deferência. Por ter salvo a marca Nissan da morte, há alguns anos ele se tornou no Japão uma celebridade sem rival. Virou até tema de mangá, consagração suprema. Quando faz uma conferência, em qualquer das várias línguas que domina, impressiona. Sua inteligência brinca com conceitos e cifras numa velocidade que deixa a plateia sem fôlego. Além de tudo, os que convivem com ele afirmam que seu humor é irresistível. Eu, que o vi algumas vezes na televisão, confesso que não percebi nenhuma graça no que ele dizia. Sem dúvida ele guarda suas melhores tiradas para os mais íntimos.

Comecei este artigo com a intenção de fazer um paralelo entre os coletes amarelos e Carlos Ghosn. Fracassei, pois, tirando a corrida comum pelo dinheiro e por maiores salários, não encontrei nenhuma semelhança entre uns e outro, a ponto de ter de abandonar a ideia.

Lamentei, mas depois agradeci a mim mesmo. Se tivesse feito um paralelo entre esses dois exemplares da condição humana, teria me criticado por fazer demagogia, por preferir os preguiçosos ao trabalhador, os que perderam tudo ao que tudo conquistou. Era uma má ideia, muito vulgar. Felizmente, escapei dessa fria. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Carlos Ghosn foi preso por suspeita de fraude fiscal e outras pequenas vilanias

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