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Um mar de incertezas

Se tudo der certo, a economia brasileira poderá se recuperar lentamente

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2017 | 05h00

O mantra mais repetido nas redes sociais nas últimas semanas é que 2016 foi um ano que não acabou. Em relação à economia brasileira, o otimismo com 2017 vem se erodindo aos poucos faz tempo. Em agosto passado, os analistas ouvidos pela pesquisa Focus, do Banco Central, estimavam um crescimento de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. Agora, essas projeções caminham em direção a um crescimento próximo de zero. O que é preciso, então, o governo fazer para reaquecer a atividade econômica? Cortar juros, como o BC vem fazendo, é suficiente para alavancar o investimento e o consumo?

A resposta não é tão simples. E provavelmente não se limita a medidas econômicas. A origem da crise brasileira está na política. Nesse aspecto, o ano começa com um mar de incertezas.

Como os desdobramentos da Operação Lava Jato afetarão a governabilidade do presidente Michel Temer? Novas delações premiadas poderão causar uma turbulência em Brasília tão significativa que resulte num adiamento de votações de reformas cruciais, como a da Previdência? Se o seu Ministério e a base de apoio parlamentar for atingida em cheio por novas denúncias de corrupção no âmbito da Lava Jato, quais novos grupos de interesses que Temer será forçado a convidar para recompor seu governo? Ninguém pode responder a essas questões com absoluta certeza hoje. Quanto ao ambiente político, o impacto da Lava Jato não será a única fonte de risco em 2017.

Ao longo do ano, os principais atores políticos, e seus partidos, devem provavelmente se movimentar visando às eleições presidenciais de 2018. Esse posicionamento de pré-candidatos, influenciando o ambiente político em diferentes direções, deve gerar efeitos nem sempre positivos. Se a corrida presidencial for deflagrada, na prática, mesmo que não oficialmente, como os partidos políticos e os parlamentares vão agir em relação à votação das medidas de ajuste macroeconômico ainda em tramitação no Congresso? Vão obedecer a interesses estratégicos eleitorais ou vão votar pensando nesse ajuste?

À medida que o horizonte político foi se tornando mais nublado nas últimas semanas de 2016, a cautela dos investidores e analistas foi crescendo em relação a 2017.

Os últimos índices de confiança refletem a contaminação das expectativas de empresários e consumidores em razão das incertezas que pairam sobre a política e a economia brasileira. A confiança do consumidor, por exemplo, caiu 5,8 pontos em dezembro em relação a novembro, para 73,3 pontos, o menor patamar desde junho passado, conforme a Fundação Getúlio Vargas. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) caiu 2,2 pontos em dezembro sobre o mês anterior, passando de 87,0 para 84,8 pontos. A queda na confiança industrial ocorreu em 12 de 19 segmentos pesquisados e atingiu tanto as avaliações sobre a situação atual quanto as perspectivas das empresas para os próximos meses.

Efeito Trump. Isso tudo, sem falar nos riscos à economia mundial após Donald Trump assumir a Presidência dos Estados Unidos. O republicano, até agora, com base nas nomeações feitas para formar seu governo, deu mostras de que promete cumprir suas promessas mais radicais feitas durante a campanha eleitoral em 2016. Há os que esperam uma política econômica marcada por estímulos fiscais para acelerar o crescimento americano, com repercussões para o valor do dólar e o nível dos juros nos Estados Unidos. Para além da economia, uma pergunta mais premente emerge: Quão desestabilizador para o ambiente geopolítico será o governo Trump? Decisões intempestivas do novo presidente americano poderão gerar desequilíbrios geopolíticos que, em último caso, afetem a estabilidade da economia mundial.

Assim, tanto pelo cenário doméstico, quanto pelo ambiente externo, 2017 começa cercado por muitas incertezas e riscos. Se tudo der certo no Brasil, isto é, se o governo Temer conseguir avançar na aprovação de reformas essenciais, e se Trump não sair por aí cometendo desatinos, afetando o Oriente Médio ou a China, a economia brasileira poderá se recuperar lentamente, na melhor das hipóteses. Agora, é cruzar os dedos.

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