Um mês interessante

Fechar-se em si mesmo é retornar a um modelo de política econômica de substituição de importação por aqueles produzidos no mercado doméstico

Albert Sishlow, Impresso

15 de julho de 2018 | 05h00

Um mês muito interessante. Demais até para uma coluna. O vice-presidente Mike Pence finalmente visitou o Brasil. O presidente Trump partiu para a Europa para estadia de uma semana, incluindo, evidentemente, uma visita ao seu clube de golfe na Escócia. Isto depois da viagem a Bruxelas para reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e também à Inglaterra. Seu encontro frente a frente com o presidente Putin será amanhã.

O ministro das Relação Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, esteve nos Estados Unidos no início de julho para tratar da separação de 55 crianças brasileiras dos seus pais. Lula foi autorizado a sair da prisão por um juiz afiliado do PT que estava de plantão quando o tribunal estava em recesso. A decisão foi rapidamente revogada. E a equipe brasileira na Copa do Mundo, considerada favorita, não chegou às finais do torneio.

A viagem de Mike Pence teve mais a ver com a Venezuela e o problema dos imigrantes ilegais na fronteira do que com o Brasil. O presidente Temer mencionou os problemas enfrentados pela separação das famílias brasileiras, mas isso teve pouco impacto. Daí a visita do ministro do Exterior aos Estados Unidos. A reunião das famílias foi determinada pelos tribunais americanos, forçando os americanos a expedir novas regras. Mike Pence, em nota, disse que os cidadãos centro-americanos deveriam “construir suas vidas em seu país natal”, apesar das amplas evidências da violência local, não é mais político.

A visita de Trump à Otan mostrou o quanto a arte da negociação impele esse presidente. Depois do aparente sucesso na reunião com o líder da Coreia do Norte Kim Jong-un, nós ainda aguardamos reunião para discutir o retorno dos americanos mortos desse país – e o não concluído desarmamento nuclear.

Em Bruxelas, Trump se comportou muito mal em reuniões públicas com líderes de muitos países. O que fortaleceu o eleitorado conservador nos Estados Unidos. No final, depois de assinar acordo conjunto, ele participou de coletiva de imprensa, quando afirmou que todos concordaram em elevar os gastos com a defesa, alguns reservando até 4% do PIB para isso (a parte dos Estados Unidos é de 3,5%). E se qualificou como um “gênio estável” por coordenar esse resultado, algo já definido há anos, com muitos líderes negando qualquer inovação nesse sentido.

Na Grã-Bretanha, as coisas ficaram piores, quando ele aceitou convite para coletiva de imprensa não marcada com antecipação no jornal The Sun. Trump então criticou a estratégia da primeira ministra Theresa May para o Brexit dizendo que ela não foi muito longe e elogiou Boris Johnson como potencial primeiro ministro. Encerrou a discussão fazendo comentários negativos sobre o prefeito de Londres Sadiq Khan. Posteriormente participou de jantar, com sua mulher, no Palácio Blenheim, oferecido por Theresa May e seu marido.

Outras coisas surgirão dessa visita à Grã-Bretanha, mas jogar golfe pode ajudar antes de ele embarcar para a Finlândia onde se reunirá com Putin. Muitas pessoas estão temerosas. Trump reconhecerá a anexação da Criméia pela Rússia? Aceitará a incursão da Rússia na Síria? Acatará as garantias de Putin de que a Rússia não teve papel nas eleições nos Estados Unidos e na União Europeia?

Uma queda no crescimento econômico do Brasil e uma eleição que se aproxima podem fazer com que o interesse em todos esses detalhes não seja muito. Mas certamente a nascente guerra comercial, que vem se expandindo, também é emblemática do total desprezo de Trump pelo mundo exterior. O Brasil aparentemente poderia se beneficiar de um mercado chinês maior para sua soja, mas isso é uma ilusão. Produtores e destinos simplesmente se alternarão.

Um iminente colapso no padrão global de especialização vai resultar em desvantagens. O Brasil é um grande mercado, mas o mundo é ainda maior. O momento exige maior, não menor, engajamento. Fechar-se em si mesmo é retornar a um modelo de política econômica e comercial que defende a substituição dos produtos importados por aqueles produzidos domesticamente, e cujo efeito positivo acabou.

A mudança tecnológica tem se verificado a um ritmo veloz nos últimos anos. Isso explica o recente acordo firmado entre Boeing e Embraer. As duas empresas e ambas as economias ganham à medida que a concorrência com Airbus e Bombardier se intensifica. De modo similar, há outros exemplos, incluindo a Petrobrás, em que acordos de cooperação funcionam melhor do que uma gestão amplamente doméstica. Antigamente tais avanços podiam ser mantidos secretos. Hoje o conhecimento flui rapidamente e muda vantagens comparativas. Num mundo assim, conjugar os esforços é necessidade fundamental.

Para permitir que o Brasil realmente seja competitivo é necessário compromisso maior com a educação. O que aparentemente se traduz em mais gastos. Mas dinheiro apenas não conseguirá mudar a ineficiência. Em alguns casos mais burocracia se traduz em piores resultados. Esta é uma questão fácil de ser ignorada na próxima batalha eleitoral. Em alguns casos o déficit fiscal tem grande importância. Entretanto, no final das contas, a educação é importante para a distribuição de renda mais justa e para o aumento da produtividade. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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