Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Um mestre da fuga

Como Carlos Ghosn fugiu do Japão para o Líbano, onde tem casa e não está sujeito à extradição

Makiko Inoue, Hisako Ueno e David Yaffe-Bellany, The New York Times

07 de janeiro de 2020 | 18h19

A equipe que ajudou Carlos Ghosn a fugir do Japão gastou centenas de milhares de dólares estudando aeroportos e outros pontos de entrada na Indonésia, Filipinas, Coreia do Sul, Taiwan e Tailândia antes de sua fuga na semana passada, informou uma fonte ligada ao assunto.

O objetivo era encontrar brechas na segurança que permitissem a Ghosn enganar as autoridades. Por último, a equipe de planejadores voou do Japão para a Turquia e, dali, para o Líbano. Ghosn tem casa no Líbano e não está sujeito à extradição para o Japão. Ele também é cidadão da França, onde passou a maior parte da vida.

Os preparativos para a fuga foram cercados de segredo. Alguns dos envolvidos no projeto ignoravam até a identidade do cliente, ou quando a fuga ocorreria.

Ghosn, ex-chefe do grupo Nissan-Renault-Mitsubishi, é acusado de transgressão financeira grave no Japão e havia sido solto sob fiança. Ele deixou sua casa no centro de Tóquio em 29 de dezembro para fugir do que chamou de “sistema judiciário fraudulento” do Japão.

Detalhes da viagem estão começando a surgir. Na tarde de sábado, Ghosn caminhou 900 metros até um hotel, onde se encontrou com dois homens, segundo a rede de rádio NHK e o jornal Nikkei, que citaram fontes da promotoria e da polícia de Tóquio. Os três então se dirigiram à estação ferroviária Shinagawa, onde tomaram um trem-bala para Osaka, a 540 quilômetros.

Não está claro se Ghosn, uma das figuras públicas mais conhecidas do Japão, usou algum disfarce. Em Osaka, os três entraram num hotel próximo ao Aeroporto Internacional Kansai por volta das 20 horas. Duas horas depois, dois dos homens deixaram o hotel com duas grandes caixas. Com essa carga, tomaram um jato corporativo e voaram para Istambul.

Segundo reportagens, Ghosn driblou a segurança do aeroporto escondido em uma das caixas. De Istambul, teria embarcado num avião menor e chegado a Beirute no domingo.

Funcionários libaneses disseram que ele entrou legalmente no país com passaporte francês e cédula de identidade libanesa, não havendo portanto razão para interceptá-lo na fronteira. Já o chanceler francês Jean-Yves Le Drian sugeriu que pode não ter sido bem assim. “Até onde sabemos, ele não usou documentos franceses”, disse.

O ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, disse no domingo que o foragido deve enfrentar um tribunal de Justiça na França. "Carlos Ghosn é um réu como qualquer outro”, afirmou.  

Le Maire acrescentou que o governo francês está pronto para abrir uma investigação sobre as despesas questionáveis de US$ 11 milhões no QG da aliança Renault, Nissan e Mitsubishi, feitas quando Ghosn comandava o grupo. Os gastos foram detectados em junho por uma auditoria realizada pela Nissan-Renault - parceria na qual o governo francês tem participação de 15%.

Ghosn nega as acusações e diz que foi vítima de uma trama de executivos da Nissan preocupados com o aprofundamento da fusão entre a fabricante japonesa e a francesa Renault.

A fuga de Ghosn deixou embaraçadas autoridades japonesas, que prometeram reforçar a inspeção de bagagem nos aeroportos e rever as regras para a libertação de suspeitos de atividades criminosas mediante fiança. “Estamos tomando providências para que situações semelhantes não voltem a ocorrer”, justificou a ministra da Justiça, Masako Mori.

Ghosn havia se proposto a usar tornozeleira eletrônica, mas o tribunal o dispensou disso. Mori acrescentou que a fiança de Ghosn foi cancelada; assim, com a fuga, ele perde cerca de US$ 14 milhões.

É esperado que Ghosn fale com repórteres ainda nesta semana. Na segunda-feira, uma âncora da Fox Business Network, Maria Bartirolmo, disse que conversou com Ghons no fim de semana e ele reiterou que as acusações eram uma tentativa da Nissan e de funcionários japoneses de impedir uma fusão com a Renault.

Mori defendeu o sistema judiciário “justo e aberto”do Japão e argumentou que cada país tem sistema próprio, não podendo focar apenas em uma parte do sistema ao compará-lo com os de outros países. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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