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Guy Perelmuter
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Um negócio de outro planeta

O início da exploração comercial do espaço

Guy Perelmuter, colunista

04 de julho de 2019 | 04h30

O interesse do setor privado na exploração do espaço é tão antigo quanto a própria Corrida Espacial, da qual falamos anteriormente - de fato, apenas oito meses após o cosmonauta Yuri Gagarin tornar-se o primeiro ser humano a orbitar a Terra em abril de 1961, um satélite idealizado e construído por um grupo de radioamadores americanos foi posto em órbita. O Oscar I (Orbiting Satellite Carrying Amateur Radio, algo como "Satélite Orbital Carregando um Rádio Amador") foi lançado de um foguete da Força Aérea dos Estados Unidos e durante 22 dias - entre 12 de dezembro de 1961 e 3 de janeiro de 1962 - transmitiu a saudação "hi" (ou "alô") em código Morse.

A inauguração da exploração comercial do espaço veio, como era de se esperar, através do setor de telecomunicações. Em julho de 1962, o Telstar 1 permitiu, durante sua breve existência de cerca de sete meses, a transmissão ao vivo de imagens dos Estados Unidos para Europa. Logo depois, no final de agosto de 1962, o então presidente americano, John F. Kennedy, assinou uma lei que visava regulamentar o uso do espaço no mercado de telecomunicações. 

Uma coisa era o desenvolvimento de satélites, outra, a capacidade de colocá-los em órbita: para isso, é necessário superar a força da gravidade, que (literalmente) nos mantém com os pés na Terra, algo que só acontece com objetos capazes de atingir a velocidade de escape de pelo menos 11,2 km/s (mais de 40.000 km/h). A quantidade de energia necessária é significativa, e a construção de foguetes capazes de realizar essa tarefa estava geralmente associada aos governos de algumas poucas nações. A primeira iniciativa privada para o desenvolvimento e manufatura de motores capazes de atingir a velocidade de escape foi do alemão Lutz Kayser (1939-2017), que teve na sua OTRAG (Orbital Transport und Raketen, ou "Transporte e Foguetes Orbitais") a legítima antecessora da SpaceX de Elon Musk (fundador da Tesla) e da Blue Origin de Jeff Bezos (fundador da Amazon). A empresa, que começou a operar em 1975, encerrou suas atividades em função principalmente de pressões geopolíticas, especialmente da França e da antiga União Soviética, em 1981.

Foi neste mesmo ano que a americana Space Services (ou "Serviços Espaciais") foi fundada - a empresa (através de sua subsidiária "Celestis", fundada em 1994) oferece um serviço bastante específico: um "funeral" no infinito. Utilizando o espaço disponível para carga extra em lançamentos de outras empresas (como Lockheed Martin, Northrop Grumman e SpaceX), alguns gramas das cinzas daqueles que desejam (e podem pagar) são espalhadas pelo cosmos. Mas o principal feito da Space Services provavelmente tenha sido o lançamento, em 1982, do primeiro foguete financiado com capital privado a atingir o espaço (e lá ficar por pouco mais de dez minutos).

O Conestoga 1 - nome que remete às carroças que os pioneiros do Velho Oeste americano utilizaram para chegar ao seu destino, no século 19 - foi construído a partir de peças de reposição e lançado de uma fazenda de gado no Texas. Como propulsão, foram utilizados os motores do segundo estágio do Minuteman, adquiridos da Nasa, que por questões legais não podia vendê-los (eram utilizados para o lançamento de bombas nucleares). Este "detalhe" foi contornado com um contrato de leasing criativo: a Space Services pagaria o custo total caso não devolvesse os motores em perfeito estado de funcionamento. Se o lançamento falhasse, o foguete iria explodir; caso desse tudo certo (como foi o caso), o foguete retornaria para seu local de repouso final no fundo do Golfo do México. Foi assim que uma empresa com sete funcionários - entre eles, o ex-astronauta Donald "Deke" Slayton (1924-1993) - e 57 investidores que alocaram US$ 15 milhões (em valores ajustados pela inflação) no projeto foi capaz de abrir caminho para o voo espacial privado.

Um ano após a fundação da Space Services, surgiu a Orbital Sciences Corporation (parte do grupo Northrop Grumman desde 2018), que garantiu seu lugar na história da exploração espacial com o primeiro veículo de lançamento projetado, desenvolvido, implementado e operado por uma empresa privada a chegar ao espaço. O foguete Pegasus é lançado de um avião a 12 mil metros e pode levar cargas de cerca de 440 kg para a órbita baixa da Terra - ou seja, até cerca de 2.000 km de altitude. 

O caminho para exploração privada do espaço estava aberto - permitindo que alguns bilionários com visões grandiosas colocassem em prática seus projetos. Esse será nosso tema para próxima coluna. Até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL, GUY PERELMUTER É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. PUBLICA NESTE ESPAÇO TODA PRIMEIRA QUINTA-FEIRA DO MÊS

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