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Um outro Brasil

A única forma de sairmos da atual armadilha é dando voz à coletividade

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2019 | 04h00

Cambridge, em Massachusetts, é o berço de duas das mais renomadas universidades americanas: Harvard e MIT – Massachusetts Institute of Technology. Ali, vários dos nossos melhores economistas, cientistas e administradores fizeram seus mestrados e doutorados nas últimas décadas. Eles hoje ocupam as mais diversas posições nos setores público e privado no Brasil, contribuindo para o debate nacional e/ou para a construção de um País melhor. Mais recentemente e de forma crescente, é também em Cambridge que brasileiros ainda mais jovens buscam a sua primeira formação profissional.

É ali também que acontece a cada abril, desde 2015, a Brazil Conference, um evento anual, organizado por estudantes brasileiros das duas escolas e que reúne jovens brasileiros que estudam nos Estados Unidos, nessas e em outras reconhecidas Universidades americanas. Jovens cujos corações e mentes continuam no Brasil.

O evento reúne palestrantes daqui e de lá, com formações, opiniões e atuações profissionais diversas, mas que convergem em um interesse comum: o Brasil. A qualidade das palestras, a importância e atualidade dos temas tratados, a pluralidade de assuntos e a excelência na organização são marcas de um evento que atrai a atenção daqueles que discutem o presente e o futuro do nosso País.

Assuntos como o papel da imprensa, da diplomacia, da religião ou o valor da democracia nos tempos atuais têm apelo incontrolável nos dias atuais e foram debatidos ali. Ouvir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defender a força das nossas instituições; o ministro Luis Roberto Barroso afirmar que se homens engravidassem o aborto não seria crime; e a Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, defender a laicidade do Estado e, da mesma forma, o respeito às manifestações das diversas correntes religiosas é alentador em tempos de intolerância, radicalismos e polarização.

O mesmo vale para a análise da atual conjuntura econômica feita por uma mesa composta por economistas de primeira grandeza – alguns mais otimistas, outros menos; para a descrição dos absurdos do mau uso dos recursos públicos nas palavras indignadas do governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Ou para as demandas urgentes por investimentos em infraestrutura onde, concordando com a referência à Louis Carroll feita pela moderadora, a advogada Marina Schneider, precisamos correr duas vezes mais rápido para chegar no mesmo lugar. Inovação, filantropia, sustentabilidade e segurança, também foram temas presentes.

Mas a melhor parte da Brazil Conference não é a impressionante lista de excelentes palestrantes ou de relevantes representantes da cena nacional. A força do evento vem do grande e crescente número de jovens estudantes brasileiros. São moças e rapazes que hoje vivem nos Estados Unidos, mas são ávidos por entender, participar e se engajar num mundo que lhes é distante na rotina e muito próximo na alma. São jovens que usufruem do que há de melhor no mundo em qualidade de educação, estão longe das limitações de mobilidade, do medo da violência e da dureza de um país desigual, mas que querem, ainda assim, usar sua energia para mudá-lo.

São jovens estudantes, futuros Tabatas, Paulos, Thiagos, Flavias, Mateus, Felipes, Vinicius e tantos outros que já são hoje a esperança do Brasil. Alguns buscarão um cargo eletivo, outros se dedicarão à gestão pública ou estarão no setor privado, mas engajados como sociedade civil organizada e ativa. São eles que hoje discutem o presente e construirão o futuro. Ao contrário da minha geração, que assistiu passiva, senão conivente, ao processo de destruição que tomou conta do Brasil, os jovens de hoje estão engajados e atentos.

A única forma de sairmos da atual armadilha é dando voz à coletividade. É enfrentando as minorias ruidosas nas suas demandas particulares e se apropriando de uma agenda de reformas que só começa na imprescindível reforma da Previdência. O Brasil precisa de gente corajosa, engajada e indignada. Minha geração falhou em evitar o desastre. Hoje, somos loquazes e tentamos reverter uma tendência que foi se consolidando sem que nos insurgíssemos a tempo. Mas são nossos jovens os que farão a diferença, convencidos que estão de que não querem viver em outro país, mas querem, definitivamente, viver em um outro Brasil. Vamos, com essa nova força, construir esse outro Brasil.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN

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