Um país com pés de barro

Como acontece a cada 15 dias, ou mesmo todos os meses, os dirigentes alemães e franceses reúnem-se para salvar o euro, a União Europeia e o mundo. O colóquio Sarkozy-Merkel ontem se realizou em Estrasburgo. Sarkozy, segundo o costume, assumiu sua fisionomia patética e preveniu que "o destino da Europa está em risco porque ou saímos juntos disso ou morreremos cada um de um lado".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h04

Portanto, trata-se de mera rotina. É a décima vez que assistimos à mesma cena, como fazem os diretores de cinema que obrigam seus atores a repetir o mesmo diálogo cinco, dez vezes. Dessa vez, há duas novidades.

De um lado, a dupla Sarkozy-Merkel convocou um novo personagem - o italiano Mario Monti, o líder da terceira economia do euro. Até agora, a Itália esteve sempre ausente das reuniões franco-alemãs, mas ocorre que a Itália era Berlusconi, e que Berlusconi...

A segunda novidade é que, pela primeira vez, a Alemanha está abalada.

A Alemanha, a invencível Alemanha, o país que todos os vizinhos admiram e invejam, a "queridinha dos mercados", está sendo tratada do mesmo modo que Grécia, Portugal ou França. É mesmo espantoso! Eis o que aconteceu na quarta-feira: Berlim queria levantar 6 bilhões em empréstimos de dez anos. Tais operações são bastante comuns e não representam nenhum problema para a Alemanha, que goza da confiança cega dos investidores.

Ocorre que, na falta de demanda suficiente, o país só conseguiu 3,6 bilhões. Verdade seja dita, os juros alemães são muito baixos, em comparação com os dos outros países do euro. E o Bundesbank (o banco central alemão) teve de tomar a iniciativa e, com uma careta horrível, comprou os títulos. Será que estamos sonhando? A Alemanha recebendo o mesmo tratamento da Espanha? Será que os mercados, depois de se exercitarem com os membros mais fracos do euro, decidiram atacar o próprio coração do sistema?

Essa surpresa na verdade é menos espantosa do que pode parecer. Há dez dias, outros "bons alunos" da zona do euro, como Finlândia, Áustria e Holanda, também sofreram abalos. E tiveram de oferecer altos juros para colocar seus papéis nos mercados. Tudo bem. Mas a Alemanha? Então teremos de esquadrinhar este país em todos os detalhes. E o que vemos? Um país que, como todos os outros, às vezes, tem os pés de barro.

E menos virtuoso e menos vigoroso do que parece. Por exemplo, sua dívida não é pouca: representa 82,6% do Produto Interno Bruto (PIB). E sua produção? Sua indústria que o mundo todo inveja com milhares de médias empresas de desempenho impecável? Pois é, o Bundesbank confirmou na segunda-feira que, no próximo ano, o crescimento só será de 0,5% a 1%. Ou seja, números semelhantes aos da França.

É verdade que a estranha debilidade da Alemanha pode ser explicada por outros motivos. A França e outros membros do euro gostariam que o Banco Central Europeu (BCE) tivesse o direito de conceder empréstimos de extremo recurso aos países ameaçados da zona do euro. Como o BCE, por definição, tem atribuições ilimitadas, (porque pode imprimir dinheiro) sua garantia seria suficiente, acredita-se, para suprimir a especulação.

Foi o que aconteceu com os outros bancos centrais (Estados Unidos, Grã-Bretanha etc...). Mas a Alemanha, defensora intransigente da ortodoxia financeira e orçamentária, traumatizada, de outro lado, pela hiperinflação dos anos 20 e 30 que levou ao nazismo, sempre se recusou a conceder essa liberdade ao BCE. Ela teme terrivelmente a máquina de fazer dinheiro.

Nesta análise, o que aconteceu na quarta-feira em relação aos empréstimos de 6 bilhões seria então apenas um tiro de advertência, um alerta endereçado a Merkel para que ela amenize os seus dogmas. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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