''Um país forçado a pedir ajuda tem de aprender com os erros''

ENTREVISTA

, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2011 | 00h00

Paulo Portas, ministro de Negócios Estrangeiros de Portugal

BRASÍLIA

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Portas, chegou ontem ao Brasil para uma visita de dois dias em que pretende levar para casa investimentos brasileiros. A mala do ministro ficou perdida em Cumbica.

A mensagem do sr. diz que é que é seguro investir em Portugal, que o acordo de ajuda financeira vai ser cumprido. É isso?

Portugal assinou um memorando com a UE, o Banco Central Europeu e o FMI. E esse memorando é para cumprir. O governo não tem hesitações e já deu claros sinais de que quer antecipar o cumprimento de algumas metas e reformas que estão previstas nesse acordo internacional. Ter finanças saudáveis é condição para ter um crescimento duradouro. Depois, Portugal tem segurança política. Há um governo majoritário. Os portugueses votaram consciente de que vão ser necessárias medidas duras para ultrapassar essa circunstância difícil e que isso faz sentido.

O sr. não teme que aconteça em Portugal essa instabilidade que está tomando conta das ruas da Grécia?

Quer na origem, quer na dimensão, quer na atitude dos respectivos governos, não creio que sejam casos comparáveis. O problema da dívida grega tem uma dimensão diferente do problema da dívida portuguesa. A atitude dos responsáveis políticos portugueses é muito mais consensual em relação ao cumprimento do programa. Portugal acabou de sair de uma eleição onde os temas das privatizações, reformas e medidas foram discutidos e a votação dos portugueses foi muito clara. Um país forçado a pedir ajuda externa tem de aprender com os erros. Tem de ter como única prioridade cumprir para recuperar sua liberdade.

Qual é o problema de Portugal? Gastou o que não tinha para gastar?

A despesa se tornou demasiado pesada e o endividamento um recurso demasiado frequente do ponto de vista das nossas contas públicas. Portugal virou a página quando assinou o memorando de ajuda externa e os portugueses foram votar conscientes do que esse memorando significava. E é por isso que há condições políticas em Portugal para fazer essas reformas. E as próprias previsões internacionais apontam para um tempo em que ainda vamos viver uma situação mais recessiva e um tempo de recuperação do crescimento econômico. Para esse crescimento ser sustentado é preciso que as reformas sejam estruturais mesmo.

Portugal quer contar com uma participação ativa do Brasil no programa de privatizações?

O relacionamento econômico entre Portugal e Brasil é bastante significativo, mas é possível reforçá-lo. Para Portugal, é determinante internacionalizar suas empresas. Para um país que tem um endividamento excessivo é muito necessário promover as suas exportações aqui no Brasil. Pode-se pensar, por exemplo, na construção naval, em que Brasil e Portugal têm necessidades complementares. O programa de privatizações é amplo e dirigido aos mercados de todos os países. Faz parte de uma boa narrativa portuguesa saber apresentar em um país tão próximo e com um potencial tão grande quanto o do Brasil esse programa de privatizações.

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