Um passo maior que a perna

A Shell desistiu de explorar o petróleo do Ártico; é um sinal da nova realidade que as gigantes do petróleo têm de enfrentar

The Economist

20 Outubro 2015 | 02h02

As companhias petrolíferas construíram uma história gloriosa perfurando a Terra e fazendo brotar rios de dinheiro de seus recessos mais inacessíveis. Mas, no mar de Chukchi, na Ártico alasquiano, a Shell enterrou US$ 7 bilhões num único poço exploratório, com mais de 2 mil metros de profundidade - valor que possivelmente torna a perfuração a mais cara já realizada - só para, no início do mês, admitir que a quantidade de petróleo e gás encontrado é insuficiente para viabilizar a operação.

Foi um revés e tanto para uma empresa que, desde a aquisição das licenças de exploração da área, em 2008, passou sete anos se digladiando com os adversários da perfuração de poços de petróleo no Ártico. O cálculo por trás da decisão envolve essencialmente custos - tanto em termos de recursos financeiros, como de imagem. A maioria das outras grandes petrolíferas se vê às voltas com pressões semelhantes. Algumas devem tirar lições do acontecido e cancelar, pelo menos temporariamente, seus respectivos planos árticos, muito embora a italiana Eni tenha anunciado que pretende dar prosseguimento a seu projeto de explorar o Ártico norueguês.

Com os preços do petróleo acumulando queda superior a 50% nos últimos 12 meses, piorou muito a equação econômica da prospecção de águas profundas e traiçoeiras. Embora a Shell minimizasse os riscos envolvidos na conquista do Chukchi, alguns analistas já haviam advertido, tempos atrás, que a empresa estava dando um passo maior que a perna.

O projeto sofreu inúmeros percalços em 2012, culminando com um acidente em 31 dezembro daquele ano, quando uma sonda de perfuração se desprendeu dos cabos de amarração e acabou atolando na costa rochosa da Ilha de Sitkalidak, no golfo do Alasca.

Depois desse episódio, Ben van Beurden, que foi nomeado CEO da empresa em 2014, poderia ter suspendido o projeto. Após uma "viagem pessoal", porém, ele optou por tocar a coisa em frente. De lá para cá, a Shell vinha se referindo às prospecções no Ártico como se se tratasse de uma missão, afirmando que as reservas de hidrocarbonetos - estimadas em dez vezes o total produzido até hoje no mar do Norte - eram necessárias para fornecer energia para uma população mundial que, dos atuais 7 bilhões, deve chegar a 9 bilhões em 2050.

Analistas dizem que isso era antes uma tentativa de proteger o estoque de reservas da companhia, num momento em que os depósitos de petróleo e gás estão cada vez mais nas mãos de empresas estatais ou de pequenas e ágeis petrolíferas que exploram o xisto americano. No ano passado, a Shell repôs apenas 26% do 1,2 bilhão de barris de petróleo equivalente (bpe, quantidade de energia gerada pela combustão de um barril de petróleo bruto) que produziu. A empresa dizia aos investidores que, no longo prazo, o Ártico era a melhor aposta para cobrir essa diferença, contando poder extrair da região, depois de 15 anos, pelo menos 500 milhões bpe.

Agora, a petrolífera terá de buscar alternativas. Se der certo, a aquisição (por US$ 70 bilhões) do BG Group britânico pode ser uma delas: o negócio elevará as reservas da Shell em 25%.

A imagem da empresa é outro dos motivos por trás do recuo. Por causa de suas atividades no Ártico, a companhia, que nos anos 90 foi uma das primeiras grandes petrolíferas a reconhecer o risco do aquecimento global causado pela ação do homem - e que, antecipando-se à conferência sobre mudanças climáticas a ser realizada em Paris entre novembro e dezembro deste ano, uniu-se a outras petrolíferas europeias na defesa da precificação do carbono - ficou numa saia-justa ao se tornar alvo do ataque de grupos e políticos identificados com a causa ecológica. Os próprios acionistas da Shell se mostravam preocupados com a questão. Em maio, durante a assembleia anual da companhia, muitos, incluindo alguns grandes fundos de pensão, puseram em dúvida o compromisso da empresa com o combate às mudanças climáticas.

O mercado de ações está reagindo com calma. Internamente, porém, a decisão de abandonar o projeto de exploração do Ártico certamente será tema de discussões acaloradas. No quadro de funcionários da Shell, predominam funcionários altamente especializados, que se orgulham de sua capacidade de superar grandes desafios com soluções tecnológicas. A empresa já passou por esse mal-estar antes.

No início da década de 90, depois de uma queda acentuada nos preços do petróleo, seus executivos abortaram uma tentativa anterior de explorar o mar de Chukchi. A nova desistência, associada aos cortes profundos que petrolíferas rivais vêm fazendo em seus investimentos, pode acabar contribuindo para a recuperação dos preços da commodity. Mas, se um dia o petróleo e o gás do Ártico parecerem novamente promissores, não se deve esperar muito entusiasmo por parte da Shell.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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