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Laura Karpuska
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Um populista surge quando acredita-se que gestores públicos não devem ter interesses políticos

Se elegi um governante porque acho que ele é um messias, ele estará blindado de qualquer julgamento objetivo meu a seu respeito

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 04h00

É comum ouvir, como crítica, que políticos estão buscando apenas a reeleição. O governador do Estado de São Paulo, João Doria, foi acusado por simpatizantes do governo federal e por membros da esquerda de promover a vacinação com motivo eleitoreiro. Aparentemente, isso é algo ruim. Os gestores públicos não deveriam fazer escolhas baseadas em interesses políticos, mas, sim, valorizando um ideal de coletividade, de empatia e de benevolência. Esse tipo de pensamento colabora para o nascimento de populistas e de falsos messias.

Certamente, há políticos que têm mais caráter do que outros. Mas como mensurar isso com precisão? Temos dois problemas aqui. Primeiro, nem todos vão concordar com as avaliações, pois a qualidade moral de um político é, em grande medida, subjetiva. Segundo, quanto menor a qualidade das instituições de monitoramento do governo e quanto mais polarizadas estão as crenças dos cidadãos sobre um político, mais subjetivo será esse julgamento. Ficamos no eterno debate entre o bem e o mal, em que uma avaliação objetiva é uma quimera. 

Quando o debate maniqueísta ganha o palco, o accountability fica prejudicado. Accountability nada mais é do que o conjunto de instituições que definem nossa capacidade de avaliar um político ou um governo. Accountability exige um mínimo de técnica. 

Inclusive, a existência de bons processos de accountability acaba por mudar o próprio comportamento dos políticos, que, ao antecipar que sofrerão as consequências de maus atos, podem vir a responder melhor aos interesses coletivos. Um bom exemplo é a própria possibilidade de reeleição, que apresenta custos e benefícios e pode funcionar como mecanismo de accountability. 

Por um lado, governantes concorrendo à reeleição podem dar valor demais ao presente e pouco ao futuro, gastando mais do que se deve. Esse problema pode ser contrabalançado com um conjunto de regras que coíbam gastanças indevidas. Por outro, governantes que podem se reeleger têm mais incentivos para se comportarem bem, serem menos corruptos – caso existam mecanismos de combate à corrupção –, esforçando-se mais para entregar um bom governo no primeiro mandato. 

A evidência sugere que reeleições trazem mais benefícios do que custos, especialmente quando existem outros mecanismos em funcionamento que contrabalancem possíveis efeitos colaterais negativos. Os economistas chamam esse conjunto de mecanismo de incentivos. 

Muitas vezes, esse pensamento objetivo, de que as pessoas respondem a incentivos, é mal-interpretado. Nós, economistas, somos constantemente acusados de promover o egoísmo e a imoralidade. A famosa frase de Adam Smith no livro que talvez tenha inaugurado a economia como ciência social, A Riqueza das Nações, marca essa impressão: “Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu ‘autointeresse’”. A leitura de alguns é que Smith isenta o ser humano da capacidade moral de ter empatia pelo outro. 

Smith, na verdade, destaca que, normativamente, a gente não deve esperar algo do outro por benevolência. Trazendo isso para a economia política, não deve ser da benevolência do meu governante que eu vou esperar que ele faça um bom governo, mas do fato de que temos incentivos para que ele entregue o que é o melhor para a sociedade. 

No seu livro menos famoso, mas seu favorito segundo historiadores conhecedores da sua biografia, Teoria dos Sentimentos Morais, Smith pergunta-se “o que é que (…) proporciona a generosidade em todas as ocasiões, que faz com que muitos sacrifiquem o próprio interesse para atender ao interesse dos outros?”. Segundo Smith, “não é a pequena centelha da benevolência” que causa isso, mas sim “a imparcialidade do espectador”. 

Accountability exige técnica. Técnica exige imparcialidade. Como Smith sugere, essa imparcialidade promove a generosidade – ou o bom comportamento. Se elegi um governante porque acho que ele é um messias, ele estará blindado de qualquer julgamento objetivo meu a seu respeito. Consequentemente, vai se comportar da pior maneira possível, sabendo que não há limites para seu mau comportamento. A parcialidade do eleitorado propaga o populismo – o novo e o antigo. 

*É ECONOMISTA

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