Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

25% dos brasileiros deixam de pagar contas para comprar produtos de luxo, diz pesquisa

Levantamento do SPC Brasil aponta que quase 20 milhões de consumidores ficaram com o nome sujo por esses gastos

Guilherme Simão, Especial para o Estado

26 de junho de 2015 | 17h09

Um em cada quatro brasileiros já deixou de pagar contas para comprar produtos de luxo. Uma pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pelo portal Meu Bolso Feliz mostra que 24% dos entrevistados tiveram a saúde financeira prejudicada com gastos com produtos e serviços considerados de luxo.

Além disso, quase 30% já ficaram com o nome sujo devido ao consumo de bens que consideram de luxo. Essa parcela corresponde a uma fatia de 19,6 milhões da população, formada principalmente jovens da classes B e C e de menor escolaridade. Desse montante, 43% ainda estão inadimplentes. 

Para Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, os dados são preocupantes. "O resultado é surpreendente porque as pessoas deixam de pagar contas importantes, incorrendo em juros em vez de adiar a compra para pagar à vista", afirma. A economista acredita que a inadimplência tende a cair devido ao cenário de desaceleração econômica no País. "Os consumidores vão precisar ajustar as contas e focar no consumo de produtos básicos", diz Kawauti. Ela recomenda que os compromissos assumidos sejam pagos à vista diante das incertezas do mercado de trabalho e da perspectiva de aumento da inflação. 

A necessidade de fazer parte de um mercado muitas vezes inacessível esbarra principalmente no alto preço dos produtos, diz a economista. Ainda de acordo com a pesquisa, em 2014, 44% da renda das famílias de classe C foi utilizada na compra de bens considerados de luxo, enquanto na classe A essa proporção foi de 19%. Em um ano, o gasto médio com produtos de luxo totaliza cerca de R$ 18 mil. "Para ter acesso ao luxo, alguns consumidores fazem compras que não cabem em seu orçamento e, consequentemente, sofrem os efeitos negativos na saúde financeira pessoal e até mesmo familiar", analisa a especialista.

Outro dado relevante da pesquisa revela que 42% dos entrevistados que possuem fundos de investimento já deixaram de guardar dinheiro ou usaram parte ou todo o dinheiro guardado pra comprar produtos de luxo. "A vontade de pertencer a algum grupo ou ter produtos exclusivos e da moda também leva o consumidor a retirar um valor da sua reserva financeira para a compra imediata", analisa a economista.

"Porém, essa quantia, se acumulada, pode fazer falta a curto e médio prazo, ou até mesmo na aposentadoria", diz Kawauti. Segundo a pesquisa, 26% dos entrevistados assumiram que seus sonhos são adiados após a compra dos produtos de luxo - a porcentagem aumenta quando especificada nas pessoas mais jovens, da classe C e menos escolarizadas.

Para a economista, endividar-se, deixar de cumprir compromissos e contas assumidas e comprometer as reservas financeiras são sinais de um comportamento que, provavelmente, não condiz com as possibilidades financeiras do consumidor. "Caso as finanças estivessem de acordo com os gastos, estes não seriam debitados de uma reserva financeira importante, e sim de uma quantia específica para gastos supérfluos", explica Kawauti. 

Autoestima. Para quatro em cada dez pessoas (40%), o consumo com mercado de luxo é um investimento em si mesmo - seja na própria imagem (16%), seja na autoestima (24%). A pesquisa aponta que a questão da imagem é mais significativa para os mais jovens. Segundo Marcela Kawauti, do SPC Brasil, o consumo de luxo é muito utilizado para demarcar a própria personalidade do consumidor, já que os produtos são reconhecidos pela sociedade e carregam peso de imagem e autoestima. "O uso de marcas famosas e, especificamente, do mercado de luxo, dá status ao consumidor, independente da classe social", diz a economista.

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