Arquivo pessoal
Concilene perdeu emprego na Sony Arquivo pessoal

Um rastro de desemprego

Mais velhos, trabalhadores dispensados enfrentam dificuldades

Daniela Amorim e Mariana Durão, RIO

17 de janeiro de 2021 | 05h00

RIO e SÃO PAULO - Concilene Corrêa assinará amanhã sua demissão na fabricante de eletrônicos Sony. Nos últimos 15 anos, ela bateu ponto na linha de produção de televisores da empresa que, em setembro, comunicou a decisão de fechar a fábrica na Zona Franca de Manaus. “Não tenho expectativa de conseguir um novo emprego na indústria porque já tenho mais de 40 anos”, diz ela, que tem o ensino médio completo. Seu marido está desempregado desde 2019, quando também foi demitido do setor industrial.

Após cinco décadas no Brasil, a Sony levou em conta “o ambiente recente de mercado e a tendência esperada para os negócios” ao fechar as portas. O Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas estima que a fábrica tinha 315 empregados. Uma parte espera ser absorvida pela fabricante brasileira de eletroportáteis Mondial, que comprou o prédio ocupado pela multinacional japonesa. Dados do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) mostram que, desde 2015, o polo industrial de Manaus perdeu perto de 13,2 mil postos de trabalho entre mão de obra efetiva, temporária e terceirizada.

Já Wilson Fernandes, 59 anos, define como “luto” o sentimento que veio com a dispensa pela Marcopolo. Com 32 anos de casa, ele ingressou como soldador na fabricante de carrocerias de ônibus, quando a unidade ainda se chamava Ciferal. Fundada em 1955, a fábrica em Xerém, Duque de Caxias (RJ), passou a integrar o parque industrial da Marcopolo em 1999. 

“Alguns operários foram realocados para o Espírito Santo, mas tenho família aqui. Fui para casa em março por ser grupo de risco (da covid-19) e não voltei mais. Ainda estou tentando digerir.”

Rumores de que a unidade seria fechada se intensificaram com a pandemia e se confirmaram em outubro. A Marcopolo alegou que a “otimização de plantas” traria maior racionalidade para seus custos. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Duque de Caxias, 1,6 mil vagas foram fechadas.

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Por dia, pelo menos 17 fábricas fecharam as portas nos últimos cinco anos

Entre 2015 e 2020, Brasil perdeu 36,6 mil estabelecimentos industriais, mostra levantamento da CNC; segundo especialistas, números comprovam processo de desindustrialização, evidenciado pelo anúncio da saída da Ford

Daniela Amorim, Mariana Durão e Márcia De Chiara, RIO e SÃO PAULO

17 de janeiro de 2021 | 05h00

Na semana passada, o anúncio da decisão da Ford de fechar suas fábricas no Brasil após 100 anos evidenciou o processo de desindustrialização em curso no País, agravado nos últimos tempos. Há seis anos consecutivos, desde a recessão iniciada em 2014, o Brasil vê o número de indústrias no território nacional cair.

No ano passado, 5,5 mil fábricas encerraram suas atividades. Ao todo, entre 2015 e 2020, foram extintas 36,6 mil. Isso equivale a quase 17 estabelecimentos industriais exterminados por dia. Os números são de um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) feito com exclusividade para o Estadão/Broadcast.

Segundo a série histórica iniciada em 2002, até 2014 o número de fábricas crescia, mesmo com a indústria de transformação perdendo relevância na economia diante do avanço dos outros setores.

Há seis anos, o País tinha 384,7 mil estabelecimentos industriais. Mas, no fim do ano passado, a estimativa era de que o número tinha caído para 348,1 mil. Pouco antes do anúncio da Ford, outras multinacionais já haviam comunicado que fechariam suas fábricas no Brasil, caso da Sony e da Mercedes-Benz, que encerrou a produção de automóveis.

“O processo de desindustrialização coincide com o início do Plano Real (quando o câmbio apreciado tornou os produtos brasileiros mais caros lá fora e os importados ficaram mais baratos no País). Além do custo Brasil, mais recentemente a produtividade caiu e parte do parque industrial não se modernizou”, explica o economista Fabio Bentes, da Divisão Econômica da CNC, responsável pelo estudo.

“A desvalorização recente do real ajuda o setor agrícola, o extrativo, favoreceu a balança comercial. Mas o efeito para a indústria não é instantâneo”, afirma Bentes.

Ele calcula que a fatia da indústria da transformação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro desça a 11,2% em 2020. Será o patamar mais baixo da série histórica iniciada em 1946. 

O levantamento da CNC foi feito a partir de duas bases de dados. Uma é a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), atualmente sob responsabilidade do Ministério da Economia. Outra é o Sistema de Contas Nacionais, do IBGE. Apenas os dados referentes a 2020 são uma projeção, feita com base em estimativas para o PIB da indústria de transformação e a produtividade do setor.

Se a produção cresce, cada aumento de um ponto porcentual gera abertura de cerca de 1,2 mil unidades produtivas no ano seguinte. O mesmo raciocínio vale no caso de queda de produção. “Diante disso, não se pode descartar que haja uma redução ainda mais forte no número de indústrias este ano”, explica Bentes.

Sistema tributário atrapalha indústrias

O desempenho da indústria nacional está hoje 14% abaixo do pico atingido em 2011. Segundo o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, o quadro é fruto de um ambiente de negócios hostil e de fatores estruturais que atingem a competitividade internacional do setor.

O principal deles, aponta, é o complexo sistema tributário brasileiro. Outro ponto fundamental, diz, é a necessidade de uma política de inovação, hoje fora da agenda nacional. 

Cagnin explica que a restrição dos fluxos entre países durante a pandemia da covid-19 pôs em xeque o modelo de suprimento geograficamente disperso e integrado. “No atual ambiente internacional de rearranjo tecnológico e das cadeias globais de valor, o ônus de ter baixa competitividade pelo sistema tributário tende a aumentar. Precisamos de um indicativo muito claro de que esse problema será solucionado. Sem isso, será muito complicado atrair e preservar investimentos”, diz. 

O vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente da Abiplast, José Ricardo Roriz Coelho, também indica como fator preponderante para os fechamentos de fábricas a falta de perspectiva de que o governo faça as reformas e que tome as providências para melhorar o ambiente de negócios.

Multinacionais como a Ford investem em fábricas com escala global de produção, observa Roriz. E, como o Brasil não cresce e a renda da população se mantém no patamar de dez anos atrás, os produtos ficam inacessíveis aos brasileiros e as empresas não avançam.

Queda da fatia do setor no PIB é fenômeno global

A perda de participação da indústria no PIB é um movimento tido como normal nas economias, que, à medida que se desenvolvem, veem as atividades de serviços ganharem peso na estrutura produtiva. No entanto, no Brasil, esse processo é reflexo sobretudo de um ambiente adverso de negócios para a indústria, afirma Rafael Cagnin.

Essa também é a avaliação da economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) Juliana Trece. “Por mais que esse movimento seja natural, o Brasil está longe de ser uma sociedade que já comprou todos os bens industriais e passou a gastar mais com serviços”, diz. Ela ressalta que o fator determinante é a falta de competitividade, que dificulta a atração de investimentos para o setor.

Enquanto o Brasil dá marcha à ré, Cagnin lembra que desde 2012 todas as grandes potências mundiais começaram a resgatar políticas industriais desenhadas para desenvolvimento de tecnologias mais avançadas.

Participação da indústria automotiva deve cair ainda mais

Desde 2011, a indústria automobilística vem perdendo participação no Produto Interno Bruto, segundo levantamento feito por Juliana Trece. O estudo tem por base um recorte da série das contas nacionais trimestrais do IBGE para o setor a partir de 2000.

Em 2008, pico da série, a produção de veículos respondia por 1,1% do PIB. De lá para cá, oscilou e atingiu a menor fatia em 2016 (0,2%). Nos anos seguintes, 2017 e 2018, houve ligeira recuperação (0,3%). “Não temos dados setorizados para 2019 e 2020, mas, com a pandemia e a saída da Ford, é esperado que a tendência de redução continue”, prevê a economista.

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‘Indústria cai de forma rápida e intensa’, diz Glauco Arbix

Para o sociólogo e professor da USP, País enfrenta impactos de ‘desindustrialização prematura’, sem tempo de requalificar setor

Entrevista com

Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação da USP

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 05h00

O Brasil passa por uma desindustrialização prematura e rápida, o que dificulta ainda mais a inovação de empresas e a requalificação de empregos, diz Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, o País já deveria estar em “campanha violenta” para todos entrarem na onda de novas tecnologias. Mesmo que o vácuo no PIB seja ocupado pelo setor de serviços, “haverá uma queda brutal da participação na renda dos trabalhadores do meio e da base da pirâmide”.

O País passa por uma nova onda de desindustrialização?

Há um movimento geral de diminuição do peso da indústria no mundo todo, tanto em relação a emprego quanto em participação no PIB, já há algum tempo. O problema é que, em países em desenvolvimento, o declínio está muito acelerado. São países que não conseguem vencer a chamada ‘armadilha da renda mínima’. Países que crescem, conseguem um padrão básico, não conseguem avançar mais e ficam parados no meio do caminho.

É o caso do Brasil?

O Brasil tem o que os economistas caracterizam como ‘desindustrialização prematura’, pois está ocorrendo de maneira rápida e intensa. Europa e EUA demoraram muito tempo para ter a transferência da manufatura para a área de serviços. Aqui, ela ocorre rapidamente, não há condições boas para requalificar empresas e trabalhadores e cria-se uma economia disfuncional. Parte das empresas e dos trabalhadores é qualificada; outra, não. Então, há uma situação híbrida, que aparece no custo da produção. Isso, para mim, é o verdadeiro custo Brasil que os empresários não reparam. Eles só falam de imposto e infraestrutura, mas essa disfuncionalidade tem impacto grande na competitividade e esse custo está nas causas da dificuldade do Brasil em não ter uma indústria avançada

O caso da Ford acentua esse processo?

Esse movimento atinge muito fortemente a indústria automobilística, que vive uma situação específica, explicada em três formas. A primeira é o declínio forte da indústria baseada no petróleo. Há uma alteração do comportamento da sociedade, de governos, de parte das empresas que está forçando uma redução do consumo do petróleo. Isso afeta o Brasil fortemente porque as expectativas em relação ao pré-sal acabaram sendo menores do que se esperava. A segunda é a discussão do movimento sustentável e inclusivo, que não encontra na indústria uma resposta à altura. E a terceira é a questão das novas tecnologias que estão comendo a indústria pelas bordas, principalmente pela dificuldade que ela tem de incorporá-las. Por outro lado, há tecnologias que estão abrindo oportunidades para setores que não têm nada a ver com a indústria tradicional. Mas, no caso da Ford, que também tem uma situação específica, não acho que vai ter uma revoada de outras montadoras indo embora do Brasil, porque o mercado local é grande e isso é um trunfo.

Qual o peso da mudança tecnológica no setor industrial?

Todos os ramos industriais estão sendo questionados sobre a forma como produzem, fazem sua gestão, marketing, pois em todas essas áreas estão entrando tecnologias que exigem um reposicionamento das empresas. Mas cada uma é afetada de maneira diferente.  Um exemplo. Estamos vivendo uma pandemia e de repente acontece um milagre, pois normalmente se levava dez anos para desenvolver uma vacina, e em menos de um ano conseguimos quatro, cinco vacinas com a eficácia muito alta. Qual foi a mágica? Dinheiro e investimento sempre teve, mas o sistema de cooperação é uma parte nova, empresas que muitas vezes disputavam entre si passaram a trabalhar em conjunto, cooperação com universidades, com órgãos de governo e centros de pesquisa. Além disso, há uma base de novas tecnologias que estão permitindo chegar às vacinas com a velocidade que estamos vendo. As vacinas da Pfizer e da Moderna são impensáveis sem sistema de inteligência artificial, de moléculas com alterações que são feitas por sistema de informática, combinações que só se consegue hoje, não existia antes. Hoje há sistemas de computação ultrarrápidos, sistema de armazenagem de dados gigantesco, algorítmos ultrassofisticados que conseguem manipular e cria uma realidade nova, se dá um passo que já abriu um caminho poderosíssimo para a medicina.

Como será a nova indústria?

A tendência que está desenhada no mundo, e espera-se que ocorra no Brasil, é de uma indústria com menor participação no PIB – que tende a cair ainda mais –, compacta, mais inovadora e com número pequeno de empregos, o que será trágico para o País. Mas vai continuar tendo um peso importante do ponto de vista da dinamização da economia. A indústria tem de se reinventar, e essa é a grande dificuldade.

Como?

Devíamos estar com uma campanha violenta para todo mundo entrar na onda de novas tecnologias em todos os níveis. Precisa haver um esforço gigantesco de modernização da indústria, de estímulos para absorver as novas tecnologias. Pode-se fazer programas de cooperação internacional para aprender com países que estão mais avançados nesse processo, incentivar a aprendizagem e facilitar o acesso das empresas às universidades. Pode ter uma parte de incentivo que vai pesar no bolso, mas outra não.

O setor de serviços ocupará o vácuo da indústria?

Esse é o desenho que está colocado lá fora.

Mas empregos na área de serviços não são tão qualificados quanto os de algumas indústrias.

Alguns sim, justamente os ligados à tecnologia, como ocorre no Vale do Silício. Mas haverá uma queda brutal da participação na renda dos trabalhadores do meio e da base da pirâmide. Vamos ter um Brasil com desigualdade no mercado de trabalho cada vez maior. Isso é um problema da estrutura da economia que é difícil resolver. Pode-se tentar resolver com sistema de educação e qualificação e, com isso, oferecer oportunidades, mas não há garantias de que esse pessoal vai encontrar uma posição melhor. Mesmo em países como EUA, Alemanha e Japão, a renda do trabalhador médio está caindo.

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Saída da Ford é 2ª onda de desindustrialização recente

Segundo gerente executivo de Economia da CNI, movimento de agora segue roteiro visto na recessão de 2014

Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - O movimento de saída do Brasil de multinacionais da indústria é uma segunda onda da desindustrialização que começou na recessão anterior, de 2014. Na avaliação do gerente executivo de Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Renato da Fonseca, o anúncio da Ford e de outras empresas segue o mesmo roteiro visto há poucos anos em setores como metalurgia e petroquímica, que estão na cadeia dos insumos utilizados por outras indústrias. Para ele, incentivos fiscais não são o caminho para manter multinacionais no País; a solução passa pela reforma tributária e investimentos mais robustos em energia e infraestrutura para exportações.

A japonesa Sony também decidiu sair do Brasil, ao anunciar em setembro o fim da produção na fábrica em Manaus (AM) até março deste ano. A também japonesa Mitutoyo fechou a planta de instrumentos de medição em Suzano (SP) em outubro. Já o grupo farmacêutico suíço Roche anunciou que deixará de fabricar medicamentos até 2024.

“A decisão das matrizes sempre é procurar o país que vai gerar mais lucro. O Brasil é um país com alto custo de segurança jurídica. O Brasil não decola, é um país que cresce e trava. Com isso, a própria demanda do País não se mantém ao longo do tempo”, avalia Fonseca. 

Exportação. Segundo o economista da CNI, após duas recessões em cinco anos, o mercado doméstico perdeu fôlego, fazendo com que os entraves à exportação pesassem ainda mais para essas companhias. “As empresas que atuam aqui precisam exportar. Se não conseguirem, vão desinvestir e atender o mercado doméstico com importações”, diz. “O Brasil está longe dos grandes fluxos de comércio e não teve agilidade necessária para entrar na cadeia produtiva global.”

Fonseca lembra que muitas multinacionais nos setores de siderurgia – sobretudo de alumínio – e petroquímica já haviam deixado o Brasil na recessão anterior devido ao alto custo de produzir no País, quando se leva em conta os preços da energia, do gás e da burocracia. 

Só no Estado de São Paulo fecharam 4.451 indústrias de transformação em 2015. No início de 2016, as metalúrgicas Eaton, Maxion e Randon anunciaram o fim das atividades em Guarulhos (SP) na mesma semana. O fechamento em cascata de fábricas de autopeças naquele ano encontra eco nos anúncios da indústria automobilística nos últimos meses.

“A competição com outros países é acirrada. Nos últimos anos temos visto movimentos seguidos de fechamento de fábricas de equipamentos para a indústria extrativa, estaleiros, na indústria de alumínio, na área petroquímica, no setor têxtil. A indústria automobilística ainda tinha vantagem de exportar para a América Latina, mas a pandemia reduziu muito o mercado”, explica Fonseca.

Para ele, a solução para manter as multinacionais não é conceder incentivos fiscais, mas, sim, a reforma tributária e investimentos em energia e infraestrutura para exportações.

“A reforma tributária beneficia setores com cadeia mais longa. Início da cadeia – extração de minério e agropecuária – tem competitividade. Já a indústria de ponta gera mais empregos e tem mais poder de arrasto na economia”, afirma.

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