Um redemoinho político

Nos Estados Unidos a situação é grave; Trump mostrou ser pior do que muitos temiam

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 22h00

O mundo se transformou num redemoinho político implícito. A realidade é difícil de ser decifrada e às vezes desagradável de contemplar.

As eleições, que são uma característica da democracia, têm consolidado líderes quase ditatoriais. Foi o que observamos nas últimas semanas no Egito, Hungria e Rússia. Na Turquia, Erdogan demonstrou claramente sua oposição aos curdos nos recentes ataques na Síria.

Nas Américas, a popularidade de autoridades eleitas – amplamente de centro-esquerda, regrediram a níveis cada vez mais baixos em muitos países. Houve até impeachments no Peru e no Equador. No Chile, a esquerda abriu caminho para o retorno do conservador Sebastián Piñera. Na Colômbia, Juan Manuel Santos, que foi agraciado com um prêmio Nobel, provavelmente será substituído pelo conservador Iván Duque.

Existem algumas diferenças. O México deve apoiar Lopez Obrador. O PRI – Partido Revolucionário Institucional, no poder, não deve nem mesmo ser o segundo partido mais votado. Na Venezuela, Maduro vem destruindo o país, entretanto vencerá a eleição.

No Brasil, Michel Temer tenta concluir seu mandato apesar das crescentes evidências de corrupção, não desfruta de nenhuma popularidade e nem consegue convencer o Congresso a continuar apoiando seu programa de governo. Lula foi preso, abrindo a disputa eleitoral em outubro até para Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal que se aposentou depois de presidir o processo do Mensalão em 2005. Com o candidato de direita, Jair Bolsonaro, liderando as pesquisas, atacando a violência urbana, as eleições de outubro me trazem à lembrança o infeliz resultado de 1989.

Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais grave. Trump mostrou ser pior do que muitos temiam. Continua decidido a realizar grandes acordos, interna e externamente, para provar para seus seguidores e o mundo como é excepcional. Os cidadãos, e não só os psiquiatras, em número cada vez maior, vêm se preocupando com sua instabilidade mental, falta de integridade e o extremo narcisismo.

Ele agendou um encontro com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, para resolver rapidamente o problema das armas nucleares. Estava decidido a uma reunião similar com Putin com o fim de firmar um acordo bilateral comum. Pela primeira vez acaba de usar sua conta no Twitter para criticar Putin com relação a um aparente ataque químico perpetrado pelas forças do presidente Assad contra civis. Isso semanas depois de ter afirmado que pretendia retirar as tropas americanas da Síria.

Para respaldar sua aura de líder nacional, Trump afastou o seu anterior assessor de segurança nacional, escolhendo John Bolton, cujas aparições na Fox News o encantavam. Ao que parece, esse tipo de engajamento totalmente pessoal é o que ele mais valoriza.

Síria, Irã e Rússia estão se preparando para um potencial ataque militar para breve, após a investigação iniciada esta semana pela Organização para a Proibição de Armas Químicas. [Na noite de sexta feira, EUA, França e Inglaterra iniciaram o ataque contra instalações do regime de Assad, na Síria.] Putin promete retaliar. O que torna uma renovação do acordo com o Irã, no próximo mês, ainda mais improvável.

No plano interno, após o sucesso obtido com a aceitação de uma nova legislação tributária, em dezembro, e garantir a aprovação do orçamento deste ano, Trump estava entusiasmado para começar a gastar em projetos de infraestrutura e reduzir regulamentos aprovados no governo Obama. Seu novo assessor econômico, Larry Kudlow, economista e também um comentarista de TV, foi escolhido para tornar a América grande novamente, elevando tarifas e incrementando a manufatura doméstica. O resultado foi uma pressão maior contra a China para mudar sua política de roubo de propriedade intelectual – familiar no Brasil no caso da Embraer – com o estabelecimento de novas barreiras após os limites que já haviam sido impostos para o alumínio e o aço.

Isto concretiza o apego de Trump ao mercantilismo, algo que os economistas desde Adam Smith têm rejeitado. E que levou o presidente da Câmara, Paul Ryan, a decidir se aposentar. Livre-comércio e déficits internos limitados são antigos objetivos republicanos. No partido de Trump há espaço limitado para dissidências envolvendo protecionismo e uma dívida interna maior. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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