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Suely Caldas
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Um ritual à espera do fim

Na balbúrdia que domina a cena política em Brasília, ninguém se entende, o desespero dá as cartas, a algazarra corre solta e o governo sumiu, deixou o País à deriva e deu lugar a uma força-tarefa concentrada no único objetivo do momento: salvar Lula. Mas, justiça seja feita, neste cenário de degradação e desespero, desponta a voz resistente e solitária do ministro da Fazenda. A pregar no deserto. Ninguém mais liga para ele, mas Nelson Barbosa não desiste. Estimulado por Dilma Rousseff, companheira de solidão, rumou para São Paulo na quinta-feira em busca do apoio de Lula e da cúpula do PT para sua proposta de ajuste fiscal e reformas estruturais. Voltou a Brasília com um decepcionante NÃO. “De reforma da Previdência não quero nem ouvir falar. Isso não tem a menor ressonância por aqui e não passa no Congresso”, ouviu do presidente do PT, Rui Falcão.

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

O PT quer gastar mais, reduzir juros, aumentar o consumo, estimular crédito, voltar a crescer rápido. Proíbe falar de reformas ou qualquer outro tema que prejudique seus candidatos nas eleições de outubro. Depois de quatro anos aplicando esta mesma fórmula, que levou o País à falência, o PT quer repeti-la sem novidade, com zero responsabilidade e adicionada só de muita incompetência. Mas a população tem os pés fincados na terra, não confia mais no governo e no PT e passou a questionar. Afinal, gastar o que não tem, baixar juros na marra, aumentar crédito e consumo com o brasileiro temendo o desemprego? Fala sério!

Nelson Barbosa participou do arruinado primeiro mandato de Dilma. E foi protagonista ativo, ajudando a formatar a fracassada “nova matriz econômica”. Ficou escolado e hoje reconhece: “As experiências de adoção de estímulos no passado recente tiveram efeito curto e, ao invés de resolver, ampliaram os problemas estruturais”, adverte. Disposto a consertar o erro, passou a defender as reformas estruturais.

É fundamental desarmar a explosiva bomba da Previdência, que este ano vai cavar uma cratera gigante de R$ 200 bilhões nos cofres do INSS e dos governos – federal, estaduais e municipais. Sem mudar as regras de aposentadoria, os rombos da Previdência vão continuar crescendo, tirando verbas de investimentos, saúde, educação, segurança, saneamento e de programas sociais. Esse é um gasto estrutural que só pode ser corrigido com uma reforma estrutural. Nelson Barbosa sabe disso, prometeu sua proposta para o final de abril, mas já admite adiá-la (certamente para depois das eleições), diante da total falta de apoio político do PT, de poucos partidos ainda aliados do governo, do PMDB, da oposição, de resto de todo o Congresso.

O ministro da Fazenda conhece muito bem o custo de recuperar a confiança numa presidente que mentiu na campanha eleitoral de 2014, fez promessas mirabolantes e bilionárias, não cumpriu nenhuma e ainda quer fazer exatamente o que ela acusava que o candidato adversário faria. Obviamente, a popularidade de Dilma desabou, os investidores fugiram diante da incerteza do que está por vir, a crise política se agravou e o impeachment virou possibilidade real. Em tal cenário não valem apostas duvidosas, é preciso quadruplicar provas de um programa econômico sério, estruturado com competência, de que o País há muito precisa e que os governantes e políticos adiam indefinidamente.

Daí Barbosa ter se amparado nas reformas. Além da previdenciária, ele acenou com a trabalhista e alguns ajustes na área fiscal. Mas se deparou com o fogo amigo, um inimigo inesperado que deveria lhe dar apoio: o PT, o partido da presidente Dilma. Se adiou a previdenciária, da trabalhista ele logo desistiu, bombardeada que foi pelo petista ministro do Trabalho, pelas centrais sindicais, por parlamentares, por todo o PT, enfim, incluindo Lula. Ele acredita contar com o apoio de Dilma, mas isso pouco ou nada vale hoje.

Mas a voz inviável e solitária de Nelson Barbosa continua ecoando aqui e ali, sem futuro e sem esperança de alcançar algum minúsculo êxito, apenas cumprindo seu papel, como num ritual à espera do fim.

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