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Guy Perelmuter
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Um roubo de US$ 10 bilhões

O impacto — nem sempre esperado — de novos modelos de gestão organizacional

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2022 | 04h00

Em qualquer organização, seja ela pública ou privada, grande ou pequena, local ou global, uma discussão permanente e fundamental está ligada ao modelo de gestão. Profissionais de virtualmente todos os setores possuem opiniões a respeito de qual seria o modelo ideal, respaldadas por experiências acumuladas ao longo de suas respectivas carreiras ou através de estudos de casos documentados na literatura acadêmica e empresarial. Seja qual for o modelo escolhido — como por exemplo a gestão participativa, meritocrática, técnica, autocrática, com foco em processos ou com foco em resultados — todos têm em comum alguma estrutura hierárquica na qual determinados times são responsáveis pela efetiva condução dos negócios.

Conforme vimos na última coluna, um dos conceitos fundamentais da web3 é a transferência, para os usuários, do controle da rede e da remuneração econômica. Quando este conceito é levado ao seu limite, os modelos tradicionais de gestão são substituídos pelas DAOs (Decentralized Autonomous Organizations, ou Organizações Autônomas Descentralizadas).

Como o próprio nome diz, uma DAO não possui uma liderança centralizada — trata-se de uma entidade que possui um conjunto de regras codificadas no blockchain, regras essas que são aplicadas de forma automática. As regras podem automatizar desde a alocação de recursos à execução de tarefas, e acabam por estabelecer a governança da organização. O código que compõe um DAO é aberto, o que significa que está disponível publicamente para revisões e modificações. Isso permite que qualquer pessoa crie seus próprios DAOs adaptando o respectivo código às suas necessidades específicas.

É importante notar que, uma vez que o contrato é programado no blockchain, qualquer erro no seu código irá trazer resultados inesperados e indesejados para as partes envolvidas. Isso já aconteceu em pelo menos um caso de grande visibilidade, no primeiro semestre de 2016. Naquela ocasião, um projeto chamado “The DAO” levantou US$ 139 milhões através de crowdfunding (financiamento obtido diretamente através do público, que contribui voluntariamente para um projeto). A captação de recursos foi feita em ethereum, a segunda criptomoeda mais popular do mundo (atrás apenas do bitcoin) e da qual já falamos aqui.

Pois no dia 17 de junho daquele ano, um hacker explorou uma vulnerabilidade no código do smart contract desviando cerca de 3,64 milhões de ethereum do total levantado para o projeto: em valores de hoje, estamos falando de aproximadamente US$ 10 bilhões (com um ‘b’). Esse evento foi tão importante que causou um fork no blockchain para tentar recuperar a credibilidade da moeda. O fork é uma espécie de cisão do ativo original (ETH) em dois ativos: o próprio ETH (atualmente cotado a cerca de US$ 3 mil) e o ethereum classic (ETC, atualmente cotado a cerca de US$ 30). A posição do hacker, em valores de hoje, ultrapassa US$ 100 milhões — embora as perspectivas de conversão desta posição para uma moeda como o dólar ou o euro pareçam baixas, justamente em função do monitoramento que alguns membros da comunidade cripto vem mantendo sobre este episódio.

Apenas em fevereiro de 2022, quase seis anos depois do roubo, foram encontradas evidências para potencialmente identificar o responsável: um programador e ex-CEO de uma startup de criptomoedas, que nega autoria. É bem possível que o roubo tenha sido motivado apenas para comprovar para os criadores da “The DAO” que as vulnerabilidades no código que foram detectadas e apresentadas pelo próprio hacker — antes de realizar o roubo — eram severas e precisavam ser ajustadas.

Esse evento acabou prejudicando a adoção de DAOs: de acordo com uma reportagem da Forbes, em 2018 estima-se que apenas 10 DAOs existiam. Em 2020, já eram cerca de 200 e atualmente as estimativas estão em aproximadamente 4.000. Roubos eletrônicos ainda ocorrem — o BadgerDAO, que paga juros sobre os bitcoins de seus participantes, perdeu US$ 120 milhões em um ataque cibernético em janeiro deste ano — mas ainda de acordo com a Forbes, mais de 50 empresas oferecem serviços de auditoria no blockchain para evitar resultados indesejados.

Existem também empresas que criam DAOs para seus clientes, abstraindo-os de todos os detalhes técnicos e montando verdadeiros “clubes de investimentos”. Entre os casos mais bem-sucedidos até o momento estão, não surpreendentemente, DAOs estruturados para comprar NFTs ou para realizar aquisições de terras virtuais no metaverso.

O fato é que essa estrutura de governança ainda está em sua infância, e seu uso pode reduzir custos e aumentar a eficiência em diversas áreas de negócios — desde que os riscos sejam bem entendidos e minimizados. As consequências das decisões tomadas na montagem de cadeias complexas — hierárquicas, de produção, de relacionamento — são aspectos críticos para o futuro de qualquer negócio. A crise nas cadeias logísticas será o tema da próxima coluna. Até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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