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Um segundo Paeg ou um terceiro PND?

Nossa história é tão regular que nem precisa perguntar para nenhum posto Ipiranga

André Perfeito*, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2018 | 04h00

Esta eleição se configura com enorme desconforto econômico. Se de um lado a discussão se afasta aparentemente de temas propriamente econômicos por parte dos candidatos – um dizendo que seu programa não é “bem assim” e o outro mandando perguntar para seu posto Ipiranga – de outro essa eleição é profundamente econômica, mas em outro registro: o da economia política. O centro dos debates gira antes em torno de temas morais, culturais e cívicos que desenham os fundamentos das ações econômicas concretas.

Se Jair Bolsonaro se esquiva de colocar os pingos nos is do seu plano de ação econômica, não há como negar que sua retórica clama por aspectos cruciais do chamado liberalismo econômico que se sumariza numa espécie de 'cada um por si'. Sua apologia às armas aponta nessa direção e a alta de mais de 400% nas ações da empresa brasileira de armas reiteram em Reais o que a população faz dizer em intenção de votos. Que pese suas inúmeras contradições entre o que disse e o que “queria dizer” e em aspectos cruciais como a reforma da Previdência ou na privatização de empresas relevantes, temos que colocar de lado isso e assumir alguns nortes para construirmos uma análise mais consistente sobre 2019 e além.

O título do texto traz uma pequena provocação entre o Programa de Ação Econômica do Governo (Paeg) e o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND). Acho que, na verdade, teremos apenas aspectos gerais destes dois marcos da historiografia econômica brasileira. Talvez estejamos, ouso pensar, na véspera de um pequeno milagre. O que valida esta percepção são aspectos propriamente econômicos, e, se soa desconfortável pensar assim, lembremos que o Brasil cresceu farto em meio aos anos de chumbo, mas chumbo por si só não cria crescimento.

Mal comparando, vivemos momento similar. Estamos vivendo os ecos de uma transição política conturbada que paralisou o Brasil e, desde o impeachment de Dilma Rousseff, o País não encontrou forma de se reorganizar, afundando a economia na pior recessão da sua história. Na véspera daquele fatídico dia de 64, o quadro era de desorganização institucional severa e o PIB andava de lado. Como um paciente em surto, a crise detonou a restauração da 'ordem' na marra, por assim dizer.

A boa notícia é o que está ruim, costumo brincar: a desaceleração econômica colocou a inflação no lugar e assim limpou do “balanço” dos preços relativos o tarifaço da energia elétrica de 2015, que foi irmão siamês da política de preços da Petrobrás, e que abriu caminho para a alta dos salários acima da inflação e da produtividade. Na esteira da alta do desemprego e do enfraquecimento da esquerda, foi aprovada uma reforma trabalhista que tende a deixar os salários em patamares baixos pelo tempo que a economia ficar fraca, quebrando assim um componente estrutural da inflação, ao jogar para baixo o IPCA de mãos dadas com a SELIC.

Reforma trabalhista feita, a recessão fez suas maravilhas também em outras áreas e hoje o Brasil está barato. Se dizemos que algo está barato é porque outro está caro e, neste sentido, a margem de lucro - que havia caído na esteira da alta do preço dos ativos e dos salários ao longo dos anos petistas - tem sido revertida. Isso abriu uma janela de oportunidade ao se conformar com um momento externo favorável.

Sabemos que os capitais no mundo desenvolvido estão encontrando problemas para se valorizar em seus próprios quintais e a China está se tornando uma exportadora de investimentos há tempos. O Brasil pode abrir suas fronteiras ao estrangeiro e fornecer assim um novo campo de valorização num planeta que anda caro, ou seja, com rentabilidade baixa.

Seria esse nosso terceiro PND? Uma onda de investimento estrangeiro que faria a demanda subir na marra para resolver a infraestrutura precária e no crédito farto de fintechs estrangeiras que tomam dinheiro por nada e emprestariam à população seca por liquidez à 50% ao ano? Pode ser, faz sentido. Nosso problema hoje é deslocar a curva de demanda que se encontra estacionada em recessão no trecho horizontal da curva de oferta. Isso pode criar sim um pequeno milagre numa economia que se encontra ociosa e sem “futuro” ou liquidez.

Talvez a diferença seja no detalhe em relação ao que já ocorreu. Se antes havia um PSI – Programa de Substituição de Importações – hoje teríamos um PSE – Programa de Substituição de Empresários – afinal, se estrangeiros estão comprando, está barato, e se o empresário local vende barato, é porque não sabe lidar com as taxas menores de retorno da atual economia brasileira. Na verdade, para o empresário local não está barato, mas caríssimo, dentro da sua ótica tropical.

Só temos que tomar um cuidado para não cair no mesmo buraco duas vezes. Atrair capitais externos funciona no curto-prazo, mas se não criarmos uma base exportadora forte poderemos tropeçar em qualquer refluxo de capitais, seja num choque de petróleo qualquer ou numa crise financeira ordinária.

Nossa história é tão regular que nem precisa perguntar para nenhum posto Ipiranga. Talvez Meirelles fez um PAEG sem querer e talvez Paulo Guedes crie um PND sem saber...

*ECONOMISTA-CHEFE DA SPINELLI

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