Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Um tempo que muitos preferiam esquecer

Crise e desemprego transformaram a vida de milhares de brasileiros

Paula Pacheco, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

Antes das trepidações macroeconômicas, o mercado de trabalho do Brasil passava por um momento bom, com taxas de crescimento atípicas. Veio a crise e o que parecia ser um ensaio de lua de mel entre capital e trabalho acabou. Segundo os dados mais recentes do Ministério do Trabalho, a variação entre admissões e demissões nos últimos 12 meses, a contar de julho de 2008, foi de 1,06%. Entre julho de 2007 e 2008, o crescimento havia sido de 6,75%.Rosecleide Pereira dos Santos, de 20 anos, moradora de Guaianases (zona leste de São Paulo) faz parte das estatísticas. Em fevereiro, ela e outras 19 pessoas perderam o emprego em uma fábrica de roupas. A explicação da direção da empresa foi a mesma para todos os demitidos. "A culpa é da crise", ouviu Rose. "Começaram cortando despesas com telefone, com papel, tiraram o lanche da hora extra. O clima não estava tranquilo. Ainda assim eu não estava preparada para aquela notícia", recorda. "Chorei muito, não pelo emprego, mas pelas amizades." Era o primeiro registro na carteira de trabalho. As finanças desandaram e ela teve de usar a indenização para quitar o possível.Há um mês, Rose conseguiu outro emprego. Trabalha no Sindicato da Construção Civil de São Paulo, como promotora associativa, e ganha o mesmo salário anterior. Duas semanas atrás ela foi chamada para voltar ao antigo trabalho, mas achou por bem permanecer no sindicato. "A experiência me ensinou que a gente não deve se matar demais de trabalhar, nem deve ter medo do patrão. O melhor caminho é falar o que pensa."Experiente, o mestre de obras Abdias da Luz, de 55 anos, morador do Butantã (zona oeste da capital) já coordenou canteiros de até 200 funcionários. Em 30 anos de atividade, calcula ter ajudado a construir pelo menos 45 prédios de alto padrão. Há cerca de 40 dias ele foi demitido da construtora onde estava havia dois anos. "A gente ouve falar da crise, pensa que é coisa lá de fora. Aí, ela atinge a gente também", constata. Na semana passada, para piorar, um dos filhos, que era vendedor, também foi demitido. Mais um motivo para deixar o churrasco dos fins de semana de lado e cortar os supérfluos."Estou preocupado, é óbvio, mas a vida continua", analisa. Para o mestre de obras, a definição de crise é simples: "É como um dragão que acaba com tudo que vê pela frente. É igual a uma doença que não podemos prever quando vai chegar. Ela vem e a gente tem de cuidar dela". Luz está confiante e acredita que a experiência vai contar mais do que a idade na hora de brigar por uma vaga. "Tenho certeza que não passo mais um mês sem emprego."CHOQUE DE REALIDADEEduardo Sanches, de 29 anos, que vive com os pais na Vila Monumento (zona sudeste da capital) não está tão confiante. Na sexta-feira, ele era um dos bancários à espera do momento de fazer a homologação da demissão na sede do Sindicato dos Bancários, no centro de São Paulo. Por três anos, ele atendeu a correntistas como operador de telemarketing do Itaú. Antes era do Bank Boston, comprado em maio de 2006 pelo banco da família Setubal.Apesar de trabalhar das 18 horas à meia-noite, a rotina não era fácil. Em média, Sanches atendia 40 clientes por dia. Como se sentia estável no emprego, no ano passado financiou a compra de um carro. Agora vai ter de administrar com muito cuidado a indenização para conseguir não atrasar o pagamento das prestações do veículo. Ele afirma: "Não sei se sou vítima da crise porque aparentemente a crise não chegou para o Itaú, que está comprando todo mundo. Mas me sinto vítima da crise agora, porque vi ao procurar um novo emprego que a situação está muito difícil".O metalúrgico Luiz Renato Melinski, de 34 anos, de Rio Claro (SP), também não se mostra otimista. Ele foi demitido da Torque, fornecedora de autopeças da Volkswagen, em novembro do ano passado, logo que a crise começou a derrubar as vendas da indústria automobilística nacional. Passados nove meses, ele ainda não conseguiu um emprego fixo, apenas alguns bicos, como o que faz agora para uma prestadora de serviço da Ciretran.Como estava se recuperando de um acidente, Melinski alega que não poderia ter sido demitido. Por isso, entrou na Justiça contra a empresa. O nome já foi parar no serviço de proteção ao crédito. Ele, a mulher e o filho de quatro anos agora moram de favor num cômodo do sogro. "Se penso no que aconteceu começo a chorar sozinho. Rezo todos os dias para a crise passar e eu ter um emprego de novo. Só não esperava que demorasse tanto", lamenta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.