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Um terço da população da Argentina vive na pobreza

O dado foi divulgado nesta quarta-feira, 28, pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censo (Indec), órgão que distorceu informações durante o kirchnerismo

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2016 | 12h37

BUENOS AIRES - Depois de três anos, a Argentina sabe que 32,2% de sua população é pobre. O dado oficial foi divulgado nesta quarta-feira, 28, pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censo (Indec), órgão que distorceu dados durante o kirchnerismo. Para entrar nesta categoria, o critério é renda familiar mínima de 12.489 pesos (R$ 2,6 mil). O instituto concluiu que há 6,3% de indigentes.

"Dói que um cada três argentinos seja pobre. Mas não haverá mais manipulações, mentiras nem falta de respeito, como que nos digam que na Argentina há menos pobres que em Alemanha, como nos disseram há alguns meses", afirmou o presidente Maurício Macri.

Macri foi questionado se o índice de pobreza levaria a uma reabertura da negociação de reajustes por categorias, que precisa ser autorizado pelo governo. A inflação acumulada nos últimos 12 meses ainda supera 40%, embora o índice de agosto tenha ficado em 0,2%. Trabalhadores que negociaram no início do ano com uma meta informal do governo de 25% de inflação querem recuperar o poder de compra. Há greve geral prevista para outubro.

"A Argentina tem potencial para criar centenas de empregos se houver diálogo. No curto prazo, tomamos um enorme programa de medidas sociais nos últimos meses, que beneficiaram mais de 10 milhões. Mas o que vai mudar no futuro são empregos de qualidade." 

Como o último dado oficial sobre pobreza era de 2013, o presidente foi questionado sobre o levantamento da Universidade Católica Argentina (UCA), que mostrou em abril um aumento de 1,5 milhão de pobres apenas no mandato dele. Segundo a universidade, eram 29% em dezembro de 2015 e passaram a 34,5% no fim do primeiro trimestre.

Na favela mais conhecida do município de Avellaneda, a Isla Maciel, separada do bairro portenho da Boca pelo poluído Riachuelo, o número confirma uma tendência testemunhada por quem faz trabalho social.

"No ano passado, não precisávamos de refeitórios. Tivemos de montar dois e damos jantar, com ajuda de voluntários, a 100 pessoas por noite. Também começam a me pedir coisas que há muito não pediam, como o botijão de gás", relata o padre Francisco Olveira. 

Os refeitórios foram improvisados na paróquia e passaram, segundo o religioso que trabalha como uma espécie de subprefeito, a receber principalmente desempregados da área da construção. "Havia gente sem trabalho com Cristina, mas aumentou", diz. O índice de desemprego oficial é de 9,3%.

Uma de suas fieis, Andrea Castañera, de 27 anos, perdeu há dois anos o emprego, ainda no mandato de Cristina Kirchner (2007-2015). Hoje faz bicos como babá e faxineira, mas a única renda fixa da família vem da bolsa por manter o filho na escola, de 900 pesos (R$ 189). "Meu filho agora tem de ir ao refeitório e traz comida para casa", diz, referindo-se a Lauriano, de 5 anos. Ela vive com o marido, pedreiro desempregado e os filhos do primeiro casamento dele.

Macri também foi pressionado por soluções em um tema relacionado ao aumento da desigualdade. A insegurança voltou a ser a principal preocupação dos argentinos, segundo diferentes institutos. O presidente relacionou casos de assassinato ao combate ao narcotráfico.

"Posso fazer toda a autocrítica, mas o que começa a haver hoje é estatística real. O que tínhamos era uma ficção de cifras. O trabalho estatístico feito pela UCA era o correto", defendeu-se, admitindo que "pobreza zero", um de suas metas de campanha, não se atinge em quatro anos de mandato.

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