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O princípio de Biden é o comprometimento;Bolsonaro gosta de dominação autoritária

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2021 | 04h00

Esta foi uma semana decisiva tanto para o Brasil quanto para os Estados Unidos. Um país tem dado sinais de liderança legislativa e executiva e de cooperação que faltaram anteriormente. O outro tem mostrado incapacidade de liderança para compreender o que é democracia. Isso já basta para vocês saberem de quem estou falando?

Os EUA estão atualmente mais do que na metade do caminho em direção a um processo de gastos necessários ao longo da próxima década para reparar e modernizar a infraestrutura; e para começar a tratar dos crescentes problemas raciais e de distribuição de renda dos últimos 30 anos.

O Brasil está mostrando como seu novo “centrão” parlamentar falha em funcionar. E, como um Executivo incompetente, com o objetivo de homenagear as Forças Armadas, falha em administrar tudo. Insistir no privilégio pessoal e em posição de liderança para os militares não funciona no século 21.

Três diferenças em particular são as mais importantes. A primeira é a relação política entre o Executivo, o Congresso e o Judiciário. Biden ganhou, e tem margens mais estreitas na Câmara e no Senado. Ele entende a importância de garantir uma resposta positiva de alguns republicanos para avançar com mudanças. O comprometimento é o princípio dominante do governo Biden.

Por outro lado, Bolsonaro, como Trump (e o imperador Nero) gostam da dominação autoritária. A exibição, na última semana, de um desfile militar e a posterior insistência de seus poderes únicos, oferecem sua versão de liderança – com os militares logo atrás. Seus problemas com o sistema judiciário têm sido recorrentes. Com o Congresso, e novos líderes do Congresso desde fevereiro, ele tem sido mais flexível. Isso até sua derrota na contagem dos votos, uma questão que surgiu nos EUA sob Trump. Ele ainda não desistiu.

A segunda é a economia. Biden nomeou um grupo de economistas para definir programas frente ao Congresso. Isso inclui uma decisão para garantir mudanças num imposto internacional mínimo para as grandes empresas internacionais com instalações fora do país.

Isso dará fim ao processo de privilégios fiscais para atrair investimento estrangeiro. Ele se dispôs a permitir déficits fiscais. Por fim, acredita que a mudança de produtividade, a partir do aumento do investimento doméstico, tornará os EUA líder em inovação e insiste que chineses aceitem regras da OMC.

Bolsonaro delegou o controle da economia a Paulo Guedes, cuja formação em Chicago reflete a crença nas virtudes do mercado livre. Isso levou a esforços para privatizar, para reduzir subsídios, limitar a interferência no câmbio e depender extensivamente de maior investimento estrangeiro. O investimento doméstico corresponde a cerca de 17% da produção. 

O investimento estrangeiro depende da escolha externa. Dadas as próximas eleições, tal compromisso é improvável de mudar em um futuro próximo. Em vez disso, como sempre, o crescimento do consumo será o componente-chave e o investimento doméstico não crescerá às taxas exigidas. Fundamentalmente, o esforço de curto prazo do Brasil deveria ser direcionado aos grandes déficits fiscais.

A terceira diferença é a política social. Biden é muito influenciado por Franklin Delano Roosevelt durante a crise de 1929 na reestruturação de instituições. 

Os componentes-chave incluem mudanças climáticas, com a volta dos EUA ao Acordo de Paris e estabelecendo a nova meta de reduzir em 80% a emissão de carbono até 2030, com concessões aos veículos elétricos; redução de custos na assistência médica, avanços em gastos com educação e, em contrapartida, aumento nos impostos sobre a riqueza. O que não deve ser esquecido é o compromisso de Biden para resolver a pandemia. Cada vez mais, o governo federal e os estaduais, hospitais e empresas exigem comprovação de vacinação.

Não tenho muito espaço aqui para o programa de Bolsonaro. Além dos rápidos incêndios e exportação ilegal de madeira da Amazônia, escassez de água nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e, portanto, ao acesso à eletricidade e total ausência de interesse e atenção à pandemia de covid-19, pela qual a CPI do Senado provavelmente recomendará o impeachment, não há muito mais o que dizer. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE 

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