Um xadrez na economia

Jogo político se impõe na hora de fechar a equipe econômica de Temer

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2016 | 05h00

Especulações correm soltas, mas o fato é que, pelo menos até a noite de ontem, não havia saído fumaça branca indicando que o vice-presidente, Michel Temer, teria fechado a composição da área econômica de seu provável futuro governo. Desde que, na segunda-feira da semana passada, Temer recebeu um “não” do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, as opções vinham se afunilando em torno dos nomes do também ex-presidente do BC Henrique Meirelles e do senador tucano José Serra.

Circulou que Meirelles teria condicionado a aceitação de um convite à imposição por ele de nomes para os principais postos da área econômica, mas essa versão não se sustentou e ele, como se diz nessas situações, está disponível. No caso de Serra, pesava a hesitação do PSDB, exceto do grupo do senador, em assumir o comando da política econômica, que já havia determinado a negativa de Arminio, “ministro da Fazenda” do partido, ou pelo menos da ala liderada pelo senador Aécio Neves.

Uma dúvida expressa, também na semana passada, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cuja palavra entre os tucanos é quase sempre lei, relatada pela colega Sonia Racy, em sua coluna no Estado, resume a relutância do PSDB em assumir posição protagonista no novo governo: “Se o governo for mal, a culpa será do PSDB, e se for bem o mérito será do PMDB?”.

Uma solução que ganhou espaço ontem, entre os relatos vazados do Palácio Jaburu, residência oficial do vice-presidente e quartel-general da “equipe de transição” do novo governo, depois de um encontro de Serra com Temer, era a da nomeação do tucano para um ministério de peso, inclusive no Orçamento federal, mas fora da área econômica, caso da Educação. A manobra abriria espaço para Meirelles na Fazenda e daria a Serra visibilidade suficiente a um potencial candidato à Presidência em 2018.

O jogo de xadrez da montagem do ministério faz lembrar que as exigências políticas e as conveniências partidárias acabam determinando os rumos da política econômica – ou pelo menos algumas de suas direções mais decisivas. Embora seja possível encontrar convergências importantes de posicionamento frente às questões econômicas entre Meirelles e Serra, eles não rezam, em tese, pela mesma cartilha.

Os dois, por exemplo, comungam da preocupação com o equilíbrio fiscal, que diagnosticam entre as principais condições do crescimento econômico, com controle da inflação. Em seus artigos semanais na Folha de S. Paulo, Meirelles, recorrentemente, vincula a retomada da confiança e dos investimentos empresariais à “solvência do Estado” – ou seja, ao controle da trajetória da relação dívida/PIB. Serra é o autor do projeto, em tramitação no Congresso, que impõe limites à expansão da dívida da União. Por vias distintas, comungam da lógica dos programas de austeridade. Mas há sutilezas que os diferenciam.

Meirelles, de formação financista, surfou, juntamente com o ex-presidente Lula, em cujos governos presidiu o Banco Central, na onda do boom das commodities internacionais. Com o ingresso de volumosas receitas em dólar, foi possível manter a taxa real de juros mais alta, o que valorizou a taxa de câmbio e ajudou no controle da inflação, sem produzir colapsos cambiais. Assim, obteve-se o inédito “grau de investimento das agências de classificação de riscos – mérito atribuído a Meirelles –, mas semeou-se o processo de desindustrialização de que hoje a economia padece.

De origem desenvolvimentista, Serra não perdeu, ao longo do tempo, o pendor industrialista e a preocupação com a sustentação da taxa de câmbio em níveis estimulantes para a indústria. Foi a discordância em relação à política cambial mantida nos anos de consolidação do Plano Real que o levou, ainda no primeiro mandato de FHC, do Planejamento para a pasta da Saúde, onde se notabilizou como gestor público.

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