Adilton Venegeroles / ESTADÃO
Adilton Venegeroles / ESTADÃO

Jornalista vira ‘afrocupida’ e busca investimento para criar aplicativo

Fundado por Lorena Ifé, o grupo de paquera Afrodengo reúne mais de 54 mil pessoas no Facebook

Shagaly Ferreira, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 05h00

Com quantas flechadas – ou curtidas – se faz um cupido virtual? A jornalista baiana Lorena Ifé, de 33 anos, parece ter descoberto a resposta para esse enigma. Desde 2017, ela administra o Afrodengo, grupo que criou no Facebook para conectar pessoas negras interessadas em encontrar um par. Mais de 54 mil participantes de todo o Brasil interagem na comunidade virtual, que oferece uma alternativa para quem não se sente representado nos aplicativos e serviços online de paquera mais populares e está em busca de uma relação afrocentrada – ou seja, de um relacionamento entre negros. 

Até se tornar uma afrocupida, como Lorena se intitula, ela estudou sobre afetividade negra e esteve atenta às queixas de seus amigos negros, já que essas eram também suas próprias dores quando procurava um par semelhante. “O amor não chega para a gente como chega para uma pessoa branca, pois uma pessoa branca já entende que o amor cabe para ela. Com a gente, não é assim”, diz. Em 2016, após o término de um relacionamento, ela ingressou em apps de namoro e percebeu que havia pouca diversidade racial nos perfis ali expostos.

“Eu já tinha consciência racial de que, para mim, era importante me envolver com pessoas negras por uma questão política mesmo, por entender que as nossas dores são muito próximas. No entanto, os perfis dessas pessoas nessas plataformas eram muito poucos”, conta. A partir desse incômodo, o Afrodengo foi idealizado, reunindo 10 mil pessoas já na primeira semana de existência. 

A participação no grupo de paquera, que é fechado, requer o cumprimento de algumas regras. Funciona assim: além de ser negro, o interessado precisa ter mais de 18 anos, ter uma foto no perfil e passar pelo crivo de uma equipe de moderadores, que trabalha voluntariamente. 

Para iniciar a interação com os outros participantes, basta postar uma fotografia com legenda indicando idade, cidade onde mora e quais são as intenções. É nesse tipo de postagem que costumam surgir as primeiras manifestações de interesse, que vão desde os comentários públicos até as investidas por mensagem privada.

Foi em uma dessas interações que Keila Sachimbombo, 37 anos, conheceu Fabio Bastos, 31 anos, com quem se casou no início deste ano, tendo Lorena Ifé como madrinha. Integrante do grupo virtual desde o seu ano de fundação, Keila conta que entrou no Afrodengo por indicação de outros participantes. Após voltar de uma viagem em que se percebeu sozinha, ela decidiu fazer uma postagem de apresentação no grupo e, de imediato, chamou a atenção do atual marido. 

Nem a distância geográfica foi empecilho para a conexão do casal. “Em vez de comentar a minha publicação, ele foi no meu Messenger e falou comigo. Conversamos sem pretensão nenhuma porque ele morava em Alagoinhas (BA) e eu, em Rio Claro (SP)”, recorda Keila, acrescentando que, além dos bate-papos virtuais, os dois percorreram ao todo quase 40 mil km em viagens para que construíssem uma história a dois.

Ela acredita que, se não houvesse um espaço com a proposta do Afrodengo, não iria conhecer o par que buscava. “O Afrodengo é um grupo que me conectou com pessoas que se pareciam comigo. E não estou falando só de raça, mas de ponto de vista social, econômico e de vida em sociedade”, relata Keila, que é filha de angolanos e crê que sua história com Fabio honra as raízes de seus ancestrais: “Existiram pessoas que vieram antes de nós para que a gente pudesse se encontrar”, afirma.

Investidor

Além de estar no Facebook, o grupo de relacionamento tem um perfil no Instagram e um canal no YouTube. Lorena diz que seu sonho é receber investimento para explorar o potencial da rede de paquera em um aplicativo. Enquanto não consegue dar esse passo, ela avalia com orgulho o que já conquistou: “A primeira destruição que houve da população negra foi a da família, através da escravização. O Afrodengo busca recuperar justamente a família, a partir da perspectiva do amor e da união das nossas histórias.”

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